“Vai, Hotel Avenida, vai convocar teus hóspedes/no plano de outra vida(…)” Com versos como esses que abrem o poema A um hotel em demolição, Carlos Drummond de Andrade expunha seu lamento contra um verdadeiro crime conta a cultura, história e patrimônio da Guanabara. Os anos 1950 estavam pela metade quando foi anunciado que o Hotel Avenida, um dos mais chiques e sofisticados do Brasil e da América Latina, seria demolido para a construção de um modernoso prédio de escritórios, que hoje atende pelo nome de Edifício Avenida Central.
Inaugurado em 1910, o Hotel Avenida foi sem dúvida o maior ícone da chamada “Belle Époque carioca”, quando o Rio disputava com Buenos Aires o título de a “Paris dos Trópicos”. Era um monumento com novidades high tech para a época, como elevador, luz elétrica e telefone em todos os quartos. Sua, arquitetura eclética, com traços europeus, prometia elevar a Cidade Maravilhosa ao patamar das capitais modernas do mundo.
Fazia parte do hotel a famosa Galeria Cruzeiro, com estabelecimentos notórios como o Café Nice ou o Bar Brahma, onde praticamente todo mundo que era alguma coisa na música, na literatura, no teatro ou no jornalismo, se encontrava no começo do século XX.
Ele reinou por quase meio século, viveu como cartão postal, testemunhou o Rio se transformar e sua demolição, justificada por quem alegava progresso e modernização, deixou um vazio que nenhum edifício moderno conseguiu preencher completamente.

Quando foi construído o Hotel Avenida?
O Hotel Avenida foi inaugurado em 1910, no mesmo ano em que a Avenida Central (hoje Avenida Rio Branco) já despontava como um novo eixo urbano no centro do Rio.
Ele dispunha de 220 quartos iluminados à luz elétrica, cada um com telefone, fato raro para a época, e elevador, o que era luxo tecnológico nos primeiros anos do século XX.
O edifício tinha cerca de 23 metros de altura, equivalente a um prédio moderno de sete andares, e possuía estilo arquitetônico eclético misturado influência neoclássica com imponência visual.
No térreo funcionava a Galeria Cruzeiro, com lojas, bares e restaurantes, além de servir como estação de bondes da Companhia Ferrocarril do Jardim Botânico, que adquiriu o terreno em 1906, para que naquele espaço se implantasse um dos símbolos do novo Rio modernizado do começo do século XX.
O que era a Companhia Ferrocarril do Jardim Botânico?
A Companhia Ferrocarril do Jardim Botânico (CFCJB) era a empresa que operava linhas de bondes no Rio de Janeiro, ligando o centro à Zona Sul, o que a tornava a principal operadora de transporte urbano da época.
Sua principal estação, um primor de arquitetura toda em aço verde com afrescos dourados, era parte do hotel, o que permitia uma integração entre transporte público, hospedagem, comércio e entretenimento no mesmo espaço.
Quem já se hospedou por lá?
Praticamente todo artista internacional que vinha se apresentar na Guanabara no início do século XX se hospedou por lá, como a atriz mais famosa do mundo naquela época, a francesa Sarah Bernhardt (“a divina Sarah”) ou o maestro Arturo Toscanini, cuja passagem pelo Rio trouxe o padrão europeu de execução sinfônica, com precisão inédita para a época.
Em uma das lendas mais famosas do hotel, Enrico Caruso certa vez resolveu ensaiar em seu quarto e causou aglomeração. O povo, do lado de fora, parou a avenida para ouvir o famoso tenor cantando.
E foi na Galeria Cruzeiro, que Álvaro Gomes de Oliveira, o Kaveirinha, tomava um café enquanto pensava em um nome para o novo cordão carnavalesco que estava criando, quando viu passar uma bela jovem em um vestido branco com bolas pretas. Nascia ali o mais antigo e maior bloco de carnaval do Rio de Janeiro: o Cordão da Bola Preta.

Mas o que era a Galeria Cruzeiro?
A Galeria Cruzeiro ocupava o pavimento térreo do Hotel Avenida. Suas passagens davam nome ao espaço “Cruzeiro”, justamente pelo cruzamento de suas galerias, facilitando A circulação entre as lojas, restaurantes e bares.
Entre os estabelecimentos mais famosos estavam o Bar Nacional, o Bar Brahma (também chamado Franziskaner), o Café Nice, a Leiteria Mineira (que depois atravessou a rua), a Leiteria Silvestre e a Laranjada Brasil (que servia suco de laranja geladinho aos passantes), entre outros.
O hotel, e especialmente a Galeria Cruzeiro serviram como ponto de encontro de intelectuais, boêmios, artistas, políticos e jornalistas, em conversas que iam da música a como mudar o mundo, regadas a muitos cafés e outros tantos litros de chope.
Entre eles estavam Mário de Andrade, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Pixinguinha, Noel Rosa, Jorge Amado, Tancredo Neves, Adhemar de Barros e Ulysses Guimarães, apenas alguns em uma lista robusta em quantidade e qualidade.
Logo veio a concorrência…
As fontes divergem quanto a data, mas poucos anos depois da abertura da do Hotel Avenida, foi inaugurado com grande aparato de luxo, o Hotel Palace, um empreendimento do mesmo Octavio Guinle que anos depois fundaria o Copacabana Palace.
Ele tinha cerca de oito andares, aproximadamente 250 quartos, serviço com vários elevadores, telefone, água quente e fria (informação que soa até engraçada nos dias de hoje) e galerias com lojas representativas do luxo do luxo da época.
Seu estilo era renascentista, com ornamentações clássicas, escadarias vistosas, salões elegantes para eventos, decoração opulenta e os melhores móveis importados para concorrer diretamente com o Avenida, que ficava pertinho, quem era o melhor do Brasil.
…e a praga do ‘estilo industrial‘
Surgida em meio aos anos 1930 e expandida internacionalmente após a Segunda Guerra Mundial era uma corrente arquitetônica que valorizava a função sobre a forma decorativa.
Seu estilo é caracterizado pelas linhas retas, formas simples, ausência de quaisquer fru-frus ornamentais e uso de materiais moderno como aço, vidro e concreto armado.
Essa praga influenciou fortemente a arquitetura e o urbanismo modernos do Brasil, particularmente nos edifícios públicos, inclusive com políticas de demolição de prédios antigos que passaram a ser vistos como “atrasados”.
A Guanabara trocava seu sonho parisiense para querer virar Nova Iorque.
O fim de uma era
O principal argumento era que o Hotel Avenida (assim como o Palace) representava um estilo arquitetônico ultrapassado segundo os padrões do modernismo e do estilo internacional, que valorizava a estética funcional, limpa, sem rococós.
Faltava na época uma proteção patrimonial eficaz, o que permitiu que o estilo moderno justificasse a demolição do antigo, pois para muitos, tudo aquilo que era ornamentado era sinônimo de decadente, velho, sem utilidade frente às novas demandas.
Além disso, a inauguração do Hotel Glória (1922) e do Copacabana Palace (1923), indicavam que o turismo de luxo do Rio tinha tomado o caminho das praias da Zona Sul.
O Hotel Avenida foi demolido em 1957 para dar lugar ao Edifício Avenida Central, símbolo da nova era modernista. E o Palace já tinha ido abaixo quatro anos antes, para dar lugar ao Edifício Marquês do Herval.
E não houve nenhum protesto?
Muitos. De intelectuais, de pessoas ligadas à cultura carioca, e de muitos cariocas e simpatizantes que não se conformavam em ver desaparecer espaços tão carregados de memórias, cotidiana e afetiva, como o Hotel Avenida e a Galeria Cruzeiro.
Frequentadores saudosos, historiadores e cronistas insistem até hoje em registrar o que foi perdido — analisando assim o desaparecimento do Hotel Avenida e da Galeria Cruzeiro como parte de um apagamento culposo da memória cultural do Rio.






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