Paulo Baía analisa: crescimento de Alexandre Ramagem impulsiona corrida eleitoral no Rio de Janeiro

Ramagem, apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), registrou um crescimento expressivo de 5%, passando de 13% para 18% das intenções de voto em apenas uma semana

* Paulo Baía

A mais recente pesquisa da Quaest, divulgada em 18 de setembro de 2024, apresentou um panorama relevante da disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro, evidenciando mudanças notáveis nas intenções de voto. O atual prefeito, Eduardo Paes (PSD), que vinha liderando com uma ampla margem, experimentou uma redução de 7 pontos percentuais em sua preferência eleitoral. Apesar de ainda se manter à frente com 57% das intenções de voto, essa queda, que está acima da margem de erro, revela um momento de alerta para sua campanha. Grande parte dessa diminuição beneficiou diretamente o principal adversário de Paes, Alexandre Ramagem (PL).

Ramagem, apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), registrou um crescimento expressivo de 5%, passando de 13% para 18% das intenções de voto em apenas uma semana. Esse avanço, também acima da margem de erro, indica que sua estratégia de campanha está surtindo efeito. A narrativa política de Ramagem tem atraído especialmente os eleitores descontentes com a administração de Paes, e seu movimento ascendente demonstra que ele pode se firmar como um oponente cada vez mais forte na reta final da campanha.

O impacto da perda de Eduardo Paes não é somente numérico, mas também qualitativo. A pesquisa revela que a maior parte da queda nas intenções de voto do prefeito foi canalizada diretamente para Ramagem, refletindo uma possível migração de eleitores indecisos ou que passaram a enxergar no candidato do PL uma opção mais alinhada às suas expectativas. Ramagem tem conseguido captar o apoio de setores mais conservadores da cidade, base que, tradicionalmente, simpatiza com o bolsonarismo.

Paralelamente, o deputado federal Tarcísio Motta (PSOL), que aparece em terceiro lugar na pesquisa, se mantém com 4% das intenções de voto. Embora sua campanha, centrada em pautas progressistas e voltada para a ala mais à esquerda do eleitorado, seja sólida, até o momento, não foi capaz de ampliar seu alcance. A estagnação nas intenções de voto sugere que sua candidatura encontrou dificuldades para conquistar eleitores fora do seu nicho tradicional. No entanto, com os debates e eventos futuros, Motta ainda tem espaço para crescer, especialmente se houver uma mudança nas dinâmicas eleitorais.

Os demais candidatos aparecem com percentuais mais modestos. Cyro Garcia (PSTU) surge com 2% das intenções de voto, enquanto Rodrigo Amorim (União Brasil), Marcelo Queiroz (PP) e Carol Sponza (Novo) estão empatados com 1% cada. Juliete Panjota (UP) e Henrique Simonard (PCO) não conseguiram atingir números significativos. Estes candidatos, com campanhas mais modestas, enfrentam o desafio de romper o bloqueio do voto útil, que tende a concentrar-se nos candidatos com mais chances de vitória.

Outro dado relevante da pesquisa Quaest é o índice de rejeição dos principais candidatos. Cyro Garcia lidera este quesito com 49% de rejeição, seguido por Tarcísio Motta, com 43%, e Alexandre Ramagem, com 36%. O prefeito Eduardo Paes, por sua vez, tem 28% de rejeição, empatado com Rodrigo Amorim. Esse índice de rejeição é um indicador crucial nesta fase da campanha, uma vez que reflete as dificuldades que alguns candidatos terão em conquistar eleitores indecisos ou em reverter a opinião dos que já decidiram não votar neles.

Além disso, a pesquisa mostrou que 10% dos eleitores pretendem votar em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos, enquanto 6% ainda estão indecisos. Esses números revelam que ainda há um contingente de eleitores que podem mudar o curso da eleição, dependendo das movimentações das campanhas e do comportamento dos candidatos nos próximos debates. Embora Eduardo Paes ainda tenha uma liderança significativa, o crescimento de Alexandre Ramagem, se continuar nesse ritmo, poderá transformar o cenário da disputa.

Ramagem tem explorado com sucesso o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, que ainda detém uma forte base de apoio no Rio de Janeiro. Esse fator, aliado a uma campanha focada em temas que ressoam com o eleitorado conservador da cidade, tem contribuído para seu crescimento. A conexão com Bolsonaro parece ser uma âncora que impulsiona Ramagem a capturar uma fatia significativa do eleitorado desiludido com o governo atual, oferecendo uma alternativa clara ao eleitor conservador que procura continuidade nas políticas bolsonaristas.

Por outro lado, Eduardo Paes, que conta com o respaldo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tenta manter sua base eleitoral, que abrange tanto eleitores de esquerda quanto de centro. Sua queda de 7 pontos percentuais, no entanto, é um sinal de que sua campanha precisa reagir para evitar mais perdas. A transferência de votos para Ramagem indica que Paes pode estar perdendo apoio entre eleitores moderados e conservadores, que veem no candidato do PL uma nova liderança para a cidade.

A disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro, portanto, está longe de ser decidida. Com um cenário que ainda apresenta uma quantidade significativa de eleitores indecisos e um ambiente eleitoral polarizado, a ascensão de Ramagem adiciona um novo grau de imprevisibilidade à eleição. Eduardo Paes, embora ainda seja o favorito, precisará ajustar sua campanha para reconquistar os votos perdidos e evitar que Ramagem continue sua escalada nas intenções de voto.

A trajetória de Ramagem nas últimas semanas demonstra que sua candidatura tem ganhado tração, especialmente à medida que a campanha se intensifica. Se continuar nesse ritmo, ele poderá desafiar seriamente a hegemonia de Paes. A polarização entre os dois candidatos, que reflete em parte a divisão nacional entre Lula e Bolsonaro, torna o cenário ainda mais complexo.

Com o apoio de Lula, Eduardo Paes ainda tem uma base sólida entre os eleitores progressistas, mas o crescimento de Ramagem no eleitorado conservador sugere que a disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro será mais acirrada do que o previsto inicialmente. Com a eleição se aproximando, a campanha de Paes deve buscar estratégias para estancar a perda de apoio e impedir que Ramagem continue seu avanço.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.

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