Cracolândia esvaziada leva usuários a se espalharem pelo centro de São Paulo

Maior grupo se concentra sob viaduto perto do Mercado Municipal; cenas de uso de drogas reaparecem

Com o recente esvaziamento da cracolândia na rua dos Protestantes, na região da Luz, em São Paulo, usuários de drogas voltaram a se espalhar por diferentes pontos do centro da capital. Na manhã desta quarta-feira (14), cenas de uso foram observadas em locais como o viaduto Diário Popular, próximo ao Mercado Municipal, e no bairro do Glicério. A movimentação marca mais uma fase de dispersão após ações de segurança pública.

A reportagem da Folha de São Paulo percorreu a área e constatou que, embora algumas pessoas ainda estivessem nas imediações tradicionais da cracolândia — como nas ruas Conselheiro Nébias, General Júlio Marcondes Salgado e na praça Júlio Mesquita —, não havia grandes aglomerações. Já os principais pontos históricos, como as ruas dos Protestantes, Helvétia e Gusmões, bem como as praças Princesa Isabel e Barão de Piracicaba, amanheceram com reforço policial e guardas municipais realizando abordagens a usuários.

A maior concentração observada foi sob o viaduto Diário Popular, onde cerca de 50 pessoas consumiam drogas protegidas pelos guard rails de concreto. Com a presença da equipe de reportagem, um homem chegou a jogar pedras para tentar dispersar o grupo e evitar registros fotográficos. Algumas barracas também foram vistas sobre o viaduto.

Outro foco importante foi identificado na travessa dos Estudantes, no Glicério, onde um grupo se espalhava pela calçada. Esse ponto já havia sido utilizado por usuários em fases anteriores de dispersão. Locais como a rua Prates, avenida Castelo Branco (no Bom Retiro), túnel José Roberto Fanganiello Melhem (entre Paulista e Rebouças) e viaduto Júlio de Mesquita Filho (sob a Praça Roosevelt) também apresentaram movimentação, embora menor.

Entidades sociais que atuam com a população em situação de rua e dependentes químicos destacam que essa dispersão não é inédita. Operações semelhantes ocorreram nas gestões de Gilberto Kassab, em 2008, e João Doria, em 2017. Ambos chegaram a declarar o fim da cracolândia após ações policiais, mas os usuários voltaram a se reagrupar em outros pontos da cidade.

A Prefeitura de São Paulo, sob gestão de Ricardo Nunes (MDB), foi procurada pela reportagem, mas não respondeu aos questionamentos. Em entrevista concedida na manhã desta quarta-feira, o prefeito afirmou que a redução da cracolândia é resultado de uma ação conjunta entre sua administração e a do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). “A imprensa precisa parar de pôr defeito e mostrar o trabalho que foi feito”, disse.

Nunes evitou afirmar que a cracolândia chegou ao fim, ao contrário dos ex-prefeitos. “Não vou ser populista de anunciar que acabou”, afirmou, destacando avanços e dizendo que o combate às drogas exige atuação contínua de forças de segurança e equipes de saúde e assistência social.

Segundo o prefeito, as ações da polícia na favela do Moinho — último grande reduto de moradias precárias no centro — foram fundamentais para “asfixiar” o tráfico que abastecia a cracolândia. Ele classificou o local como um “bunker” do tráfico e citou a prisão de Léo do Moinho, ocorrida em 2024 na Praia Grande, como um marco na interrupção da rede criminosa. A defesa de Léo nega as acusações.

Para especialistas e profissionais da área social, a atual dispersão é um ciclo já conhecido. Enquanto não houver políticas públicas eficazes de saúde, habitação e inclusão, o fenômeno tende a se repetir em novas áreas da cidade.

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