A Copa do Mundo de 2026 mobiliza bilhões de torcedores e celebra a diversidade de culturas reunidas em torno do futebol. Realizada simultaneamente nos Estados Unidos, México e Canadá, a competição simboliza integração entre povos e nações. Porém, longe dos gramados, parte significativa dos países presentes no torneio enfrenta uma realidade marcada por guerras, insurgências, terrorismo, conflitos territoriais e violência armada.
Um levantamento do portal Metrópoles mostra que 13 das 48 seleções classificadas para o Mundial convivem, de forma direta ou indireta, com conflitos armados ou crises de segurança envolvendo atores estatais e não estatais. Entre elas estão Estados Unidos, Irã, México, Haiti, Jordânia, Catar, Arábia Saudita, Colômbia, Marrocos, Argélia, República Democrática do Congo, Iraque e Coreia do Sul.
A presença dessas seleções evidencia um contraste marcante entre o ambiente festivo da Copa e os desafios enfrentados por milhões de pessoas em diferentes regiões do planeta.
O impacto da guerra entre Estados Unidos e Irã
Uma das situações mais emblemáticas envolve justamente dois participantes da Copa do Mundo: Estados Unidos e Irã.
Enquanto se prepara para a disputa do torneio em casa, o governo dos EUA permanece envolvido em um conflito militar com o Irã, iniciado após ataques realizados contra território iraniano em fevereiro deste ano. Embora uma trégua tenha sido estabelecida em abril, episódios de hostilidade continuaram sendo registrados às vésperas da competição.
O conflito gerou repercussões também no ambiente esportivo. Houve questionamentos sobre a permanência da seleção iraniana no Mundial e dificuldades logísticas para a equipe asiática.
Donald Trump chegou a afirmar que “não seria apropriado” a seleção iraniana participar do torneio, devido ao conflito com os EUA. Sua administração também sugeriu que o Irã fosse substituído pela Itália na Copa do Mundo de 2026 — mas a Fifa não atendeu o pedido.
Além das discussões políticas, a seleção iraniana enfrentou obstáculos operacionais, incluindo atrasos na emissão de vistos, alterações no planejamento do centro de treinamento e restrições para entrada nos Estados Unidos durante a fase de grupos.
A guerra também afeta outros participantes da Copa. Jordânia, Catar, Arábia Saudita e Iraque foram impactados pelas tensões regionais, especialmente por ataques iranianos direcionados a instalações estadunidenses localizadas em seus territórios.
Apesar do contexto de guerra, a Fifa manteve sua posição de neutralidade diante da crise. A postura contrasta com a adotada em 2022, quando a entidade decidiu suspender a Rússia das competições internacionais após a invasão da Ucrânia.
México e Colômbia enfrentam violência interna
Nem todos os conflitos associados aos participantes da Copa envolvem guerras entre Estados.
O México convive há décadas com uma grave crise de segurança ligada à atuação de cartéis do narcotráfico. O cenário se agravou nos últimos anos em razão das disputas territoriais entre organizações criminosas e das operações militares destinadas a combatê-las.
Em fevereiro deste ano, a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho e apontado como fundador do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), desencadeou uma nova onda de violência em diversas regiões do país.
Os confrontos provocaram bloqueios de estradas, ataques a forças de segurança e deixaram ao menos 73 mortos, ampliando a instabilidade meses antes do início da Copa.
Na Colômbia, os conflitos envolvem uma combinação de fatores políticos e criminais. O país ainda enfrenta confrontos entre forças governamentais, grupos guerrilheiros e organizações ligadas ao narcotráfico, com destaque para o Exército de Libertação Nacional (ELN).
Haiti vive uma das maiores crises humanitárias do mundo
Entre os países participantes da Copa, o Haiti talvez represente um dos casos mais dramáticos de deterioração da segurança pública.
O país caribenho enfrenta o avanço de grupos armados que exercem controle sobre grande parte da capital, Porto Príncipe. Estimativas indicam que cerca de 80% da cidade esteja sob influência de gangues, responsáveis por assassinatos, sequestros e confrontos constantes.
Segundo dados das Nações Unidas, mais de 1,4 milhão de pessoas foram obrigadas a deixar suas residências devido à violência.
A crise haitiana é considerada uma das mais graves emergências humanitárias da atualidade.
A guerra esquecida na República Democrática do Congo
Pouco conhecida fora da África, a guerra no leste da República Democrática do Congo figura entre os conflitos mais duradouros do mundo contemporâneo.
As raízes da crise remontam aos desdobramentos do genocídio de Ruanda, em 1994, quando aproximadamente um milhão de pessoas morreram em apenas cem dias.
A instabilidade gerada pelo conflito transbordou para o território congolês e alimentou o surgimento de diversos grupos armados. Entre eles está o Movimento 23 de Março (M-23), criado em 2012 sob a justificativa de proteger a minoria tutsi presente no país.
Segundo a Organização das Nações Unidas, o grupo recebe apoio do governo de Ruanda, acusação que é negada por Kigali.
No início de 2025, uma nova escalada da violência permitiu que a coalizão Alliance Fleuve Congo (AFC), da qual o M-23 faz parte, ampliasse significativamente seu controle territorial no leste do país.
Embora Estados Unidos, Ruanda e República Democrática do Congo tenham participado de iniciativas diplomáticas para estabelecer um cessar-fogo, os combates continuam afetando a população civil.
Conflitos congelados permanecem ativos
Outras seleções classificadas convivem com disputas consideradas de baixa intensidade ou conflitos formalmente não encerrados.
A Coreia do Sul permanece tecnicamente em guerra com a Coreia do Norte desde a década de 1950. Apesar do armistício assinado em 1953, jamais foi celebrado um tratado de paz definitivo entre os dois países.
As tensões na Península Coreana continuam presentes, alimentadas por testes militares, disputas diplomáticas e ameaças ocasionais entre os governos de Seul e Pyongyang.
No norte da África, Marrocos e Argélia estão ligados ao impasse envolvendo o Saara Ocidental.
A região é reivindicada pela Frente Polisário, movimento político e militar que busca a independência do território atualmente controlado majoritariamente por Marrocos.
Um cessar-fogo mediado pela ONU vigorou durante décadas, mas foi rompido em 2020. Desde então, confrontos esporádicos voltaram a ser registrados, embora o conflito seja considerado atualmente de baixa intensidade.
Futebol em meio às crises globais
A edição de 2026 da Copa do Mundo reúne o maior número de seleções da história do torneio e amplia a representatividade de diferentes regiões do planeta. Ao mesmo tempo, expõe uma realidade frequentemente distante das transmissões esportivas.
Enquanto jogadores disputam vagas nas fases decisivas e torcedores celebram a competição, milhões de pessoas nos países participantes continuam convivendo com guerras, violência política, insurgências e crises humanitárias.
O contraste reforça como o futebol, apesar de seu alcance global, não está isolado das transformações e dos conflitos que moldam o cenário internacional contemporâneo.






Deixe um comentário