O Conselho Deliberativo do Corinthians aprovou, na noite desta segunda-feira (26), o afastamento de Augusto Melo da presidência do clube. Com 176 votos favoráveis ao impeachment e apenas 57 contrários, o dirigente foi removido do cargo em meio a uma crise institucional agravada por denúncias criminais e suspeitas envolvendo o contrato de patrocínio com a empresa de apostas VaideBet.
Momentos antes do resultado oficial, Melo já havia admitido a derrota. “Saio de cabeça erguida”, afirmou em coletiva no teatro do Parque São Jorge, a poucos metros da reunião decisiva. “Não é renúncia. Ao contrário. Eu vou participar dessa palhaçada.” Ele prometeu recorrer ao apoio dos associados para tentar retomar o cargo na assembleia geral prevista para acontecer entre 30 e 60 dias após sua convocação.
Com o afastamento, o primeiro vice-presidente, Osmar Stábile, assume provisoriamente a presidência. Stábile é figura veterana da política corintiana, tendo atuado como dirigente em gestões anteriores e concorrido à presidência em diversas ocasiões. Em nota, ele afirmou: “Não temos mais o direito de errar. O Corinthians é eterno e pertence ao povo”.
A votação no Conselho ocorre dias após o indiciamento de Melo pela Polícia Civil de São Paulo, sob suspeita de associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro, justamente no âmbito do contrato com a VaideBet. Também foram indiciados dois ex-integrantes da gestão. A defesa do ex-presidente negou as acusações, classificou o inquérito como “prematuro” e recorreu à Justiça com um pedido de habeas corpus, negado pela Vara de Crimes de Organizações Criminosas.
Paralelamente, aliados tentaram impedir a votação no Conselho com uma liminar — também rejeitada pela juíza Márcia Cardoso, da 5ª Vara Cível do Tatuapé. Com a derrota jurídica e sem apoio suficiente, Melo antecipou sua saída, mas reforçou que buscará apoio dos sócios: “Vai ter votação. Eles têm a maioria agora, mas a gente vai até o final.”
Durante sua fala de despedida, Melo citou conquistas de sua gestão, como o pagamento de salários em dia e a projeção de receitas futuras na ordem de R$ 3 bilhões. Ele atribuiu a crise atual a perseguições políticas: “Minha parte eu cumpri. Ninguém trouxe tanta receita a um clube como eu trouxe ao Corinthians.”
A assembleia dos associados, de maioria simples, será decisiva. Caso os sócios rejeitem a destituição, Melo poderá retornar ao cargo. Caso confirmem o impeachment, o Conselho Deliberativo será convocado para eleger um novo presidente que completará o mandato até dezembro de 2026.
O presidente do Conselho, Romeu Tuma Júnior, declarou que o novo dirigente interino terá autonomia total. “Os diretores não seguem mais. O novo presidente tem que convocar a nova direção”, afirmou. A condução de Tuma, porém, tem sido alvo de críticas por parte de Melo e seus advogados, entre eles o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo.
Cardozo, que atuou na defesa da ex-presidente Dilma Rousseff em seu processo de impeachment, sustenta que Melo teve cerceado seu direito de defesa e que o processo viola garantias do Estado democrático de Direito.
As tensões no clube não são recentes. Em janeiro deste ano, uma tentativa anterior de votar o impeachment foi adiada sob alegação de segurança e ausência de conselheiros, após um clima hostil no Parque São Jorge. Antes disso, em dezembro, outra tentativa de reunião havia sido barrada por liminar da própria defesa de Melo.
Nos bastidores, também há disputa sobre a legalidade da atuação de Tuma à frente do Conselho. Em abril, a Comissão de Ética votou por seu afastamento, mas o ato não foi formalizado e Tuma continuou exercendo suas funções, o que foi contestado pela defesa de Melo na Justiça — sem sucesso.
Agora, com a votação concluída e o afastamento oficializado, o Corinthians entra em nova fase política, enquanto o futuro de Augusto Melo dependerá da decisão soberana dos associados.





