Consciência, novembro. E o país respira fundo

No Brasil, a negritude não é apenas um grupo social. É base. É fundação. É vetor estruturante da nacionalidade

Januário Garcia, quando vivo, nos ofereceu uma lembrança que não é apenas memória. É convocação. É porta aberta para dentro do Brasil. Porque lembrar, neste país, nunca é exercício de saudade. É insistência. É resistência. É construção lenta e profunda de um futuro que ainda nos deve justiça.

Voltemos então a 1978. Uma sala pequena. Acesa por uma urgência que fazia vibrar até o ar. Abrigava o então nascente Movimento Negro Unificado. Nada ali era confortável. Tudo ali era necessário. No centro daquele redemoinho de vozes e sonhos. Uma questão pulsava com a força de algo que estava prestes a se tornar histórico. Como nomear o dia que convocaria o país a reconhecer aquilo que sempre tentou enterrar?

O Grupo Palmares, de Porto Alegre, havia proposto “Dia do Negro” ou “Dia de Zumbi”. Nomes fortes como tambores. Mas, naquele espaço quente de ideias em ebulição, foi o professor e ativista carioca Paulo Roberto dos Santos, da cidade do Rio de Janeiro, quem deu o nome definitivo que atravessaria calendários, políticas públicas, escolas e consciências.

Inspirou-se em uma cena do filme Wattstax, quando o reverendo Jesse Jackson ergue a voz como um raio e afirma: “This is the day of black awareness.” Aquela frase não era apenas um enunciado. Era chama. Era pausa e impulso. Era a tradução de um sentimento ancestral de luta.

Paulo Roberto dos Santos trouxe essa chama para o Brasil e a nomeou. E assim nasceu o Dia Nacional da Consciência Negra, hoje celebrado em 20 de novembro, feriado nacional. Não nasceu do Estado. Nasceu da militância. Nasceu da coragem. Nasceu do gesto político de quem olha para a história e recusa a mutilação da memória.

E aqui outro ponto precisa ser dito com todas as letras. O país que se imagina branco. O país que aprendeu a se mirar no espelho da branquitude como horizonte ideal. É na realidade majoritariamente mestiço. Pardo. Multirracial. Um país cuja formação se ergueu camada por camada sobre a força, o suor e o pensamento de mulheres e homens negros.

No Brasil, a negritude não é apenas um grupo social. É base. É fundação. É vetor estruturante da nacionalidade. Está nos ritmos, nas palavras, nos gestos, na culinária, nos saberes, na estética e nos modos de organizar a vida. Está, de forma profunda e vibrante, naquilo que chamamos de “brasilidade”.

Mas o racismo estrutural, essa engrenagem silenciosa e persistente que organiza oportunidades e destinos, insiste em classificar pardos, mestiços, multirraciais como pretos. E aqui é necessário ampliar a compreensão. Apesar de o IBGE definir todos os pardos como pretos para efeito estatístico, existe um movimento crescente e potente no Brasil contemporâneo que, sem negar a ancestralidade negra e africana, escolhe se autodenominar pardo, mestiço, multirracial.

Esse movimento nasce da afirmação identitária e do desejo de reconhecer a pluralidade que compõe a população mestiça brasileira. Reconhece que nela convivem linhagens indígenas, camadas asiáticas, fluxos europeus paupérrimos e histórias de miséria branca, como tão profundamente analisou Darcy Ribeiro em sua obra monumental O Povo Brasileiro.

Esse movimento, chamado Parditude, é liderado e difundido de maneira brilhante pela jovem pesquisadora e ativista Beatriz Bueno, que vem dando densidade teórica, rigor político e vitalidade cultural a essa perspectiva. Trata-se de um movimento que não se coloca em oposição à negritude. Pelo contrário. É soma. É adição. É continuidade e expansão da luta antirracista. É extensão da luta contra o racismo estrutural. Luta que a negritude trava há mais de duzentos anos no cotidiano das ruas, das favelas, das escolas, dos quilombos, dos terreiros e das comunidades periféricas.

A Parditude se articula com essa trajetória longa e profunda e amplia a batalha por dignidade e cidadania. Negritude, mestiçagem e Parditude não se excluem. Dialogam. Se entrelaçam. Formam juntas a tessitura social e simbólica de um país que precisa aprender a nomear-se de modo mais verdadeiro e menos colonial.

A persistência do escravismo no tempo presente se revela justamente nisso. A cor da pele ainda decide quem vive com dignidade e quem vive sob ameaça. Decide quem é celebrado e quem é suspeito. Quem ascende e quem é barrado. Quem tem futuro e quem precisa, todos os dias, lutar para existir.

Por isso, cada 20 de novembro é mais do que um feriado. É um espelho que obriga o país a se olhar sem truques. É dia de encontrar Zumbi dos Palmares não como estátua solitária. Mas como verbo. Como ação contínua. Como horizonte aberto. É dia de afirmar que a democracia brasileira só será plena quando enfrentar as estruturas que herdou da casa grande e insistiu em preservar sob outras máscaras.

O escritor e professor Carlos Alberto Medeiros tem como prática o resgate permanente. Sua atuação é vital porque impede que o Brasil apague quem construiu seus próprios símbolos de libertação. Nomear também é ato político. Nomear é disputar sentido. Nomear é reivindicar autoria sobre a própria narrativa. E foi isso que Paulo Roberto dos Santos fez ao batizar o dia que nos convoca, ano após ano, a recuperar o que nos foi roubado. Dignidade. Memória. História. Identidade.

Consciência Negra não é comemoração ingênua. É celebração de resistência. É política que atravessa a literatura. É sociologia marcada na pele da vida. É lembrar que este país não começou no mito da miscigenação pacífica. Começou muito antes. Nas línguas arrancadas. Nos terreiros perseguidos. Nas mãos que ergueram cidades que muitas vezes se recusaram a acolhê-las. Nos quilombos que desafiaram um império inteiro.

Por isso, todo 20 de novembro é país e espelho. É feriado e trabalho. É memória e futuro. É denúncia e afirmação. É dor e orgulho. É luta e afeto. É recusa e invenção.

Porque consciência não é algo que se guarda numa data. É algo que se pratica.

E se, como ensinou Jesse Jackson, este é o dia da black awareness, aqui, neste território mestiço, pardo, preto, multirracial, é também o dia de lembrar que nenhuma liberdade é concedida voluntariamente. Toda liberdade é tomada.

E continuará sendo. Todos os dias. Mas especialmente em 20 de novembro.

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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