Compra de remédios psiquiátricos cresceu 4,5% no Brasil no último ano

Levantamento aponta alta entre trabalhadores em meio a burnout e pressão por performance

O consumo de medicamentos psiquiátricos vem crescendo de forma consistente no Brasil,especialmente entre pessoas em idade produtiva, refletindo mudanças no comportamento social, no mundo do trabalho e no acesso ao cuidado em saúde mental. Um levantamento com dados de usuários do Programa de Benefícios em Medicamentos (PBM) corporativo da epharma indica que indicou que, em três anos, houve aumento de 25% no volume de compra de medicamentos psiquiátricos, referente a caixas compradas entre janeiro e agosto de 2022 e 2025. Em uma comparação entre 2024 e 2025, o aumento foi de 4,5%.

Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, o estudo analisou informações de beneficiários das cinco regiões do país que utilizam o PBM corporativo para obter descontos em farmácias. No mesmo intervalo, o número total de usuários do programa cresceu 38%, o que reforça a ampliação do acesso, mas também sinaliza uma demanda cada vez maior por tratamentos contínuos ligados à saúde mental.

Adultos em idade produtiva concentram alta

O maior crescimento no consumo de medicamentos psiquiátricos foi observado entre pessoas de 26 a 45 anos, faixa etária majoritariamente inserida no mercado de trabalho. O dado dialoga com indicadores recentes sobre o impacto das condições laborais na saúde mental da população brasileira.

Em 2025, informações do Ministério da Previdência Social mostraram um aumento de 493% na concessão de auxílios-doença por burnout —esgotamento relacionado ao trabalho— entre 2021 e 2024. Segundo a International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), cerca de 30% da população brasileira é afetada por essa condição.

Mudança no perfil de busca por tratamento

Para o psiquiatra Rodrigo Martins Leite, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP), o aumento da procura por atendimento é evidente no consultório e reflete uma mudança no perfil dos pacientes.

“A sociedade não procura somente o psiquiatra nos momentos de crise ou de colapso mais franco, como era antigamente, mas para a manutenção da performance no trabalho, acadêmica, pessoal”, afirma o médico, ao destacar também a redução do estigma em relação ao papel da psiquiatria.

Essa mudança aparece nos próprios dados do levantamento. O tempo médio de tratamento por usuário permaneceu estável, variando entre 56 e 60 dias, o que indica que as pessoas estão buscando acompanhamento contínuo e não apenas intervenções pontuais em momentos de crise aguda.

Antidepressivos lideram consumo

Entre os medicamentos psiquiátricos analisados, os antidepressivos são os mais consumidos. Para Leite, esse cenário é resultado de múltiplos fatores que se sobrepõem, como crises econômicas e sociais, solidão, aumento da cobrança profissional e a busca por soluções rápidas para o sofrimento psíquico.

“Temos uma geração que está cronicamente exposta ao burnout e uma pressão por performance e um custo de vida crescente. Isso deve levantar a nossa preocupação de que as mudanças sociais estão cobrando um preço”, afirma o psiquiatra.

Empresas e instituições ampliam debate

Na avaliação da epharma, o crescimento do consumo está ligado a um contexto mais amplo de atenção à saúde. “Desde a pandemia estamos vendo essa crescente, das pessoas preocupadas com a sua saúde, incluindo a mental”, diz Christiano Fonseca Moreira, diretor de customer success da empresa.

Segundo ele, mesmo antes da entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), o tema da saúde mental já vinha ganhando espaço em debates institucionais, governamentais e no ambiente corporativo. A norma, que passa a valer em maio deste ano, estabelece diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho e exige a inclusão obrigatória de riscos psicossociais, como assédio moral, estresse e sobrecarga.

Moreira avalia que, com a implementação efetiva da NR-1 e a maior adesão das empresas a políticas de cuidado psicológico, a procura por tratamentos medicamentosos pode crescer ainda mais nos próximos anos.

Limites da medicação e necessidade de políticas públicas

Embora reconheça a importância dos medicamentos, Leite ressalta que eles não são uma solução isolada para os problemas de saúde mental. “A gente está lidando com uma população que está tendo muita dificuldade de acessar outras ferramentas de cuidado em saúde mental e, muitas vezes, o que é mais plenamente acessível e imediato é a medicação.”

Para o psiquiatra, a expansão da demanda por cuidados psicológicos e psiquiátricos exige investimentos mais amplos, que vão além do tratamento farmacológico. Ele defende ações estruturais, como pesquisa e inovação, ampliação do acesso a terapias, alfabetização emocional nas escolas, políticas públicas de promoção e prevenção, programas de qualidade de vida no trabalho, combate à solidão e ao individualismo e fortalecimento de redes de suporte social.

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