A condenação do STF do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus na ação da trama golpista traz impactos à onda bolsonarista. Cientistas políticos ouvidos pela Agenda do Poder se dividem ao avaliar o cenário.

Há quem entenda que o episódio simboliza o declínio da extrema direita, usando como exemplo a tímida participação de manifestantes em São Paulo e no Rio de Janeiro dos atos de 7 de Setembro. Outros especialistas projetam intensificação de atos nas ruas.

Cientista político e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Geraldo Tadeu Monteiro não acredita que o apoio do governo de Donald Trump nos EUA irá continuar com novas retaliações ao Brasil.

“A tendência é de que políticos, que antes flertavam com o bolsonarismo, agora se afastem para capturar parte do legado eleitoral de Bolsonaro”, prevê o autor dos livros Bolsonarismo: teoria e prática em parceria com Carlos Sávio Teixeira; e O Bolsonarismo no poder, com Frederico Lustosa.

“O bolsonarismo, como movimento social e político, atingiu o seu teto, porque estava ancorado no poder. A baixa adesão às mobilizações mesmo diante da ameaça de prisão de sua maior liderança é prova disso”.

Geraldo Tadeu Monteiro, cientista político e professor da Uerj

Outros especialistas projetam intensificação de atos nas ruas. O sociólogo e cientista político Paulo Baía acredita, inclusive, vê uma certa imprevisibilidade na relação entre o Brasil e os EUA. “O apoio de Trump pode complicar ainda mais o cenário”, avalia o professor da UFRJ.

“O bolsonarismo não é uma onda passageira. Está no cotidiano de pessoas, que se sentem perseguidas com a decisão do STF. A condenação de Bolsonaro acirrou os ânimos e vai fazer com que a militância fique mais ativa nas ruas, nas famílias e até na roda do botequim da esquina. A tensão vai aumentar”

Paulo Baía, sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

O sociólogo José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), concorda com Baía.

“Há um aprofundamento em uma polaridade que já está bastante acentuada. E o cenário é problemático, com uma economia fragilizada em meio ao crescimento da estrutura do crime organizado”.

“É preciso avaliar se a direita vai juntar os cacos nessa conjuntura que vive agora. Mas é difícil prever se vai intensificar o debate radicalizado do medo, da raiva e do ódio inspirado em Trump e na narrativa de ‘bandido bom é bandido morto’. Ou se vai buscar um discurso mais moderado”.

José Cláudio Souza Alves, sociólogo

Bolsonaro: especialistas divergem sobre o que será de movimento político | Crédito: Reprodução

Sem anistia

Professor da UFRJ, o cientista político Josué Medeiros, que coordena o Observatório Político Eleitoral, diz ver uma divisão no conservadorismo após a condenação.

“Ainda há uma extrema direita, que quer a anistia ampla para colocar Bolsonaro nas urnas. Mas também há uma direita mais moderada e tradicional ganhando força, que ainda está em busca de outro nome para as eleições de 2026”.

Mayra Goulart, professora do departamento de Ciência Política da UFRJ, diz não acreditar na possibilidade de foco no embate pela anistia. “Me parece pouco provável que o projeto de anistia vá ser um desdobramento da condenação. O desdobramento central é um assentamento político das forças do campo da direita em torno da inviabilidade eleitoral de Jair Bolsonaro”, prevê.

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