Uma guerra fria se instalou no Largo de São Francisco da Prainha, o mais novo polo boêmio e gastronômico da cidade, fenômeno surgido na Zona Portuária em plena pandemia.
A reportagem é do Globo online.
Os personagens dessa disputa são uma roda de samba tradicional de mulheres negras, anterior ao boom da Prainha, donos de bares e representantes da prefeitura. Com a flexibilização das medidas sanitárias, as sambistas do grupo Moça Prosa, que fará agora em abril dez anos na região, começou a se movimentar para retornar com o evento mensal (no terceiro sábado do mês) na praça, interrompido pela Covid-19. Mesmo com um decreto municipal permitindo o samba ali, com instalação de barracas de comidas e bebidas, a roda esbarrou num largo reconfigurado, agora com 11 estabelecimentos (até a chegada do vírus eram apenas quatro bares), que hoje ocupam o local com mesas e cadeiras, sempre disputadas nos finais de semana.
Em outubro, tiveram início as conversas para retomada da roda, mas, depois de muita negociação e nenhum consenso, o caldo entornou numa postagem no Instagram com a Moça Prosa anunciando que, “por não serem mais bem-vindas” naquele espaço público, iriam para outra “casa”.
E o clima festivo entre pessoas que fazem parte da história do lugar acabou azedando. O post, de 14 de março, provocou uma avalanche de comentários, bate-boca e acusações até de machismo e sobre uma eventual gentrificação desse pedaço da Pequena África.
Comerciantes que puxaram a recuperação do lugar rebatem, magoados, os ataques. No meio desse grande mal-estar está a arrecadação com a venda de cerveja na praça e a sua ocupação. Cada lado expõe suas versões para a polêmica.
Ana Priscila da Silva, produtora da Moça Prosa — que realizou, no último sábado, com sucesso, sua festa num terreno cedido pela prefeitura na Rua Sacadura Cabral —, conta que os custos com a roda, criada na Pedra do Sal e, em 2016, transferida para o Largo da Prainha, são bancados com a venda dos produtos das barracas montadas.
No entanto, comerciantes preocupados com um prejuízo para os bares teriam iniciado um diálogo, liderada por Raphael Vidal, da Casa Porto e do Bafo da Prainha e hoje diretor de Gastronomia do Polo da Região Portuária, para viabilizar a roda sem que os pontos de venda de bebidas do evento e o espaço destinado ao público sambista, reduziria o número de mesas, afetassem o movimento das casas.
— A gente da Moça Prosa sempre montou nossa estrutura na raça e na coragem, arcando com prejuízo, mas a gente fazia tudo por uma questão cultural, não era só entretenimento. Era resistência, manter a cultura do samba na rua. Já homenageamos a Beth Carvalho, recebemos Teresa Cristina e a Conceição Evaristo. A roda existe há dez anos como espaço da mulher no samba, não é puramente comercial. Estamos ali para ser e fazer resistência e pautar o debate, mas precisamos do sustento da roda, que é através da venda de bebida — diz Ana Priscila, acrescentando. — Todas as propostas discutidas com os comerciantes giravam em torno de não termos o nosso próprio bar. E aí não temos o nosso sustento. Só que um meio termo para isso nunca chegava.






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