Comando Vermelho se consolida como facção mais espalhada do país, com presença em 26 estados

Levantamento aponta que grupo originado no Rio de Janeiro supera até o PCC em alcance territorial

Um levantamento realizado por O GLOBO, com base em informações oficiais de ministérios públicos e governos estaduais, revela que o Brasil tem atualmente 64 facções criminosas em atuação, das quais 12 operam em mais de um estado. Entre elas, duas se destacam pela dimensão e capilaridade: o Primeiro Comando da Capital (PCC), presente em 25 unidades da federação, e o Comando Vermelho (CV), que alcança 26 estados — ausente apenas no Rio Grande do Sul.

Fundado no fim da década de 1970 no sistema prisional do Rio de Janeiro, o CV nasceu como forma de organização de detentos, mas se transformou com o crescimento do mercado internacional de cocaína nos anos 1980. Desde então, a facção passou a ocupar territórios estratégicos nas comunidades cariocas, criando a figura do “dono de morro” — líder local com poder sobre comércio de drogas e regras impostas à população.

Estrutura flexível e modelo de “franquia”

Pesquisadores destacam que, ao contrário do PCC, cuja hierarquia é centralizada e disciplinada, o Comando Vermelho adota uma estrutura descentralizada, baseada em alianças. Cada “dono de morro” ou líder regional tem autonomia para gerir seu território, mas integra a cúpula da facção em decisões estratégicas.

Com a expansão para fora do Rio, a lógica se manteve: em outros estados, chefes locais assumem o papel de “donos” de regiões inteiras, mantendo a identidade do CV, mas preservando formas próprias de organização. Esse modelo tem facilitado a incorporação de facções regionais, que preferem se associar ao CV para evitar disputas e garantir proteção, mantendo suas bases originais.

Raízes e alcance nacional

Além do CV, o Rio de Janeiro é berço de outras facções com atuação interestadual, como o Terceiro Comando Puro (TCP) e os Amigos dos Amigos (ADA). No cenário nacional, a expansão do CV rivaliza com o “imperialismo” do PCC, que, ao buscar ampliar sua influência, acabou incentivando o surgimento de facções locais no Norte e Nordeste.

Segundo o coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Daniel Hirata, o CV se mantém como uma rede de alianças entre líderes, preservando a autonomia local, mas unindo forças contra rivais e para garantir rotas e mercados de drogas.

Perspectiva de evolução

Autoridades brasileiras ainda não classificam o Comando Vermelho como uma organização mafiosa, mas alertam que o formato flexível e a presença em praticamente todo o país podem levá-lo a atingir esse patamar no futuro, a exemplo do PCC. A ameaça é ampliada pela possibilidade de o grupo diversificar fontes de renda e aumentar a capacidade de lavagem de dinheiro.

Com alcance territorial recorde e um modelo de expansão maleável, o Comando Vermelho se consolida como uma das maiores ameaças ao combate ao crime organizado no Brasil, influenciando diretamente o equilíbrio de poder entre facções e moldando a dinâmica da violência em diversas regiões.

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