Com dívida bilionária, grupo dono da Tok&Stok e da Mobly pede recuperação judicial

Controlador das marcas afirma que juros altos, queda nas vendas e restrição de crédito agravaram crise financeira do setor de móveis e decoração

O Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok, Mobly e Guldi, anunciou nesta terça-feira (12) que protocolou um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. A empresa tenta reorganizar dívidas estimadas em cerca de R$ 1,1 bilhão e evitar um agravamento da crise financeira enfrentada pelo setor de móveis e decoração.

Segundo comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a companhia alegou que o cenário econômico dos últimos anos pressionou fortemente o caixa do grupo, reduzindo vendas e ampliando o endividamento.

Entre os fatores citados pela empresa estão os juros elevados, a inflação persistente, a queda do consumo de bens duráveis e o crédito mais restrito para consumidores.

“Apesar dos esforços empregados pela administração na negociação da reestruturação do endividamento junto aos credores da controlada Tok&Stok, o alto endividamento do grupo persiste e vem se agravando”, afirmou a companhia em comunicado à CVM.

O pedido foi protocolado sob segredo de Justiça.

Empresa tenta evitar agravamento da crise

Na petição apresentada ao Judiciário paulista, o Grupo Toky afirma que busca preservar as operações, manter os serviços em funcionamento e criar condições para renegociar as dívidas com credores.

A recuperação judicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira para empresas que enfrentam dificuldades financeiras. O processo permite renegociação de débitos e suspensão temporária de cobranças, enquanto a companhia continua operando.

Segundo o grupo, a deterioração financeira começou ainda durante a pandemia de Covid-19, período em que mais de 17 lojas foram fechadas.

Desde então, o setor de móveis e decoração teria sofrido impacto direto da redução do consumo das famílias e do aumento do endividamento doméstico.

A companhia afirma que o ambiente econômico desfavorável dificultou a recuperação do negócio mesmo após tentativas anteriores de reorganização financeira.

Empresa pede medidas urgentes à Justiça

No pedido apresentado ao tribunal, o Grupo Toky solicitou uma série de medidas emergenciais para evitar o que classificou como “risco de dano irreparável” às operações.

Um dos principais pedidos envolve a liberação imediata de aproximadamente R$ 77 milhões provenientes de vendas realizadas por cartão de crédito e que estariam retidos pela SRM Bank.

Segundo a empresa, o bloqueio desses recursos afetou diretamente o fluxo de caixa e compromete pagamentos essenciais, incluindo salários de mais de 2 mil funcionários.

Além disso, a companhia pediu a suspensão, por 180 dias, de ações de cobrança e execuções de dívidas enquanto tenta renegociar seus débitos com credores. Esse período é conhecido no mercado como “stay period”.

O grupo também solicitou garantia de continuidade de contratos considerados essenciais para o funcionamento da operação.

Entre os serviços que a empresa quer preservar estão logística, transporte, sistemas digitais, computação em nuvem, fornecimento de energia elétrica e abastecimento de água.

Tentativas anteriores não impediram agravamento

O processo de recuperação judicial marca mais uma etapa das tentativas de reorganização financeira da companhia.

Em 2023, a Tok&Stok já havia buscado reestruturar suas contas por meio da renegociação de cerca de R$ 339 milhões em dívidas bancárias.

Na ocasião, também foi firmado um acordo de reestruturação tecnológica com a Domus Aurea, além de um aporte de R$ 100 milhões realizado pelos acionistas.

Mesmo assim, segundo a empresa, os resultados esperados não foram alcançados.

Desde então, o grupo vinha estudando alternativas para reequilibrar as finanças, incluindo negociações extrajudiciais com credores.

A recuperação judicial passou a ser considerada diante do avanço do endividamento e da dificuldade de retomada do crescimento.

Fusão criou gigante do setor em 2024

O Grupo Toky surgiu oficialmente em 2024, após a fusão entre a Mobly e a Tok&Stok.

A união das empresas criou um dos maiores grupos de varejo de móveis e decoração da América Latina, combinando operações físicas e digitais.

A Mobly foi fundada em 2011 por Victor Pereira Noda, Marcelo Rodrigues Marques e Mário Carlos Fernandes Filho, inicialmente com foco em vendas online de móveis e decoração.

Com o tempo, a empresa expandiu sua presença física e atualmente possui 11 unidades entre megastores, outlets e lojas compactas.

Já a Tok&Stok foi criada em 1978 pelos franceses Régis e Ghislaine Dubrule e se consolidou como uma das marcas mais conhecidas do setor no Brasil.

A empresa ganhou espaço no mercado apostando em móveis modernos, modulares e com perfil voltado ao crescimento da classe média urbana e do mercado imobiliário.

O grupo também reúne a marca Guldi, especializada em colchões e produtos ligados ao segmento de conforto.

Setor enfrenta ambiente econômico desafiador

A crise enfrentada pelo Grupo Toky reflete um cenário de dificuldades vivido por empresas do varejo de bens duráveis nos últimos anos.

O aumento dos juros reduziu o acesso ao crédito e afetou diretamente o consumo de produtos de maior valor agregado, como móveis e itens de decoração.

Além disso, o encarecimento do financiamento e a piora no orçamento das famílias contribuíram para desacelerar as vendas no setor.

Especialistas apontam que empresas fortemente alavancadas e dependentes de crédito ao consumidor ficaram mais vulneráveis diante do novo cenário econômico.

Agora, a expectativa do mercado se volta para a análise do pedido pela Justiça e para a apresentação de um plano de recuperação financeira do grupo.

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