Em três ocasiões distintas entre 1893 e 1902, enquanto o Brasil engatinhava em sua recém-proclamada República, cidadãos de carne e osso _ um coronel do interior de Minas Gerais, um aventureiro americano e um punhado de monarquistas paulistas armados até os dentes _ decidiram, cada um a seu modo, que o país era grande demais para ser governado por gente “de fora”, ou simplesmente pequeno demais para conter suas ambições. O resultado foram três dos episódios mais deliciosamente absurdos da história política brasileira: uma república de 22 dias com moeda própria no meio do mato mineiro, um principado atlântico cujo príncipe nunca pisou na ilha que “governava” e uma monarquia restaurada em território paulista que durou exatamente o tempo de uma boa e restauradora noite de sono.
É razoável e tentador chamar seus protagonistas de malucos. Mas a história prefere outro veredicto: eram homens de seu tempo, filhos de uma nação que não sabia bem o que era governada por uma república que não sabia bem o que queria, num século XIX que terminava sem ter explicado direito o que havia feito. O caos político da Primeira República, com o coronelismo onipresente, a instabilidade institucional e a ausência do Estado em vastas regiões do território, criou as condições perfeitas para que pessoas comuns, e algumas bem excêntricas, chegassem à mesma conclusão: se o Brasil não vinha até elas, elas fariam o seu próprio Brasil.
Não houve, é claro, nada de heroico nos desfechos. A República de Manhuassu durou 22 dias antes que o Exército colocasse um fim educado na aventura. O Principado de Trinidad não durou muito mais na imaginação de ninguém depois que os ingleses ocuparam a ilha e o Brasil protestou com a energia de quem descobre tarde que seu quintal estava sendo invadido. E a Revolta de Ribeirãozinho encerrou seu primeiro e único dia de monarquia restaurada ao receber um telegrama informando que, lamentavelmente, o resto do Brasil não havia aderido ao plano. Três derrotas. Três histórias extraordinárias. E uma lição que o país parece condenado a redescobrir periodicamente: separar-se do Brasil é mais fácil de imaginar do que de executar.
O cardápio das divisões: as principais rebeliões desde 1822
Desde que D. Pedro I deu o grito às margens do Ipiranga, o Brasil se tornou um imenso laboratório do separatismo rastaquera. A lista é extensa e variada: tivemos a Confederação do Equador (1824), no Nordeste, que não aceitava o autoritarismo imperial; a interminável Guerra dos Farrapos (1835-1845), onde o Rio Grande do Sul tentou ser a República Rio-Grandense, perdeu, finge que empatou e comemora até hoje como se tivesse vencido; e a Sabinada (1837) na Bahia. Mais tarde, já na República, o movimento mais robusto foi a Revolução Constitucionalista de 1932, onde São Paulo flertou seriamente com a ideia de um destino separado do resto da federação.
Segundo o historiador Boris Fausto em “História do Brasil”, esses movimentos geralmente brotavam da insatisfação das elites regionais com o centralismo do governo. Enquanto os Farrapos resistiram por dez longos anos, outros surtos foram como fogos de palha: a República de Pernambuco durou alguns meses, e as tentativas no Pará (Cabanagem) foram sufocadas após banhos de sangue. O Brasil, ao contrário da América Espanhola, conseguiu se manter inteiro, mas não sem que antes várias províncias tentassem, com variados graus de sucesso e desespero, pedir o divórcio.
No entanto, se esses levantes costumam ocupar as páginas dos livros didáticos, há três episódios que, por sua natureza insólita, raramente figuram nos compêndios: a República de Manhuaçu, a Revolta de Ribeirãozinho e o Principado de Trinidad.

A República Manhuassu: O País dos 22 Dias e do Boró
Essa começa como um clássico nacional. Em 1894, o prefeito de Manhuaçu (MG), coronel Serafim Tibúrcio da Costa perdeu a reeleição por 630 votos de diferença para o vigário da cidade, padre Odorico Dolabela. Mas o alcaide derrotado não engoliu a derrota.
Revoltado, ele reuniu “documentos” e foi ao governador Crispim Jacques Bias Fortes pedir apoio para anular o pleito e convocar nova eleição. Só que o governador tinha mais o que fazer, pediu calma ao coronel e recomendou-lhe que fosse cuidar de suas terras. Foi mais ou menos como apagar um incêndio com gasolina.
Numa manhã de maio de 1896, o coronel Serafim Tibúrcio da Costa liderou cerca de 800 homens armados na invasão da própria cidade. Foram dias e noites de confronto nas ruas e praças, até a Proclamação da República Manhuaçu. Serafim deu seu grito do Ipiranga do coreto da pracinha. Instituiu uma moeda local batizada de “boró”, fechou as fronteiras do novo país e nomeou seus capangas para todos os cargos administrativos.

A república, que ostentava um nome escrito com dois “ss” (Manhuassu), durou vinte e dois dias, período em que o governo mineiro tentou, sem sucesso, desalojar os rebeldes com pequenos contingentes policiais. Apenas quando a União enviou 380 soldados do Exército é que Serafim, sabendo-se derrotado, ordenou a fuga para o Espírito Santo, deixando a cidade às moscas — restando apenas mulheres, crianças e alguns idosos.
A epopeia, que o historiador Flávio Mateus dos Santos recuperou em “A República do Silêncio”, ilustra como uma simples insatisfação eleitoral pôde, por alguns dias, transformar um município mineiro em país soberano. Mesmo sem reconhecimento, fronteiras estáveis ou qualquer chance real de sobrevivência. O número total de mortos nessa bizarrice nunca foi oficializado, mas os pesquisadores os contam às dezenas.
Um dos reflexos do episódio foi a mudança da capital do estado de Ouro Preto para Belo Horizonte. Embora a decisão já tivesse sido tomada em 1893, a rebelião em Manhuaçu contribuiu para acelerar o processo de transferência. E as ironias continuaram: duas cidades da região ganharam nomes diretamente ligados à revolta. Reduto, onde os oficiais do Exército ficaram escondidos até receberem ordem de invadir Manhuaçu, e Realeza, onde as pessoas se refugiavam para falar do “império” do coronel Serafim Tibúrcio.
Quanto a Serafim, faleceu em 19 de novembro de 1919, de causas naturais, aos 68 anos, em Espera Feliz, a cerca de 70 quilômetros de Manhuaçu. O caixão foi transportado por trem de ferro e jornais da época registram que o cortejo foi acompanhado por um grande número de pessoas. Pelo menos morreu popular.

A monarquia que durou uma noite
O que acontece quando um grupo de monarquistas messiânicos decide, com um certo atraso, que a República brasileira era um erro de percurso? Em 1902, 13 anos após o Golpe Republicano, o escrivão Antônio de Faria e o líder local João de Paiva proclamaram a independência da região de Ribeirãozinho, atual Taquaritinga, em São Paulo. O objetivo era restaurar a Monarquia, mas, na impossibilidade de trazer os Bragança de volta imediatamente, fundaram a República de Ribeirãozinho como um passo intermediário. Foi uma revolta movida a fervor religioso e descontentamento com os impostos republicanos.
O plano era, em sua concepção, de uma ambição épica: derrubar a República, restaurar o Império e empossar Luís Maria Filipe de Orléans e Bragança como novo imperador. Na execução, revelou-se de uma ingenuidade quase comovente. O movimento revolucionário chegou a atingir outras cidades do interior paulista, como Araraquara, Araras, Boa Vista das Pedras, Franca, Limeira, Matão, Mogi Mirim, Rio Claro, São Carlos e Santa Ernestina, com manifestação de menor intensidade.

Na madrugada do dia 23 de agosto, os líderes da revolta cercaram a cidade e proclamaram a volta da monarquia. Tomaram de assalto a delegacia e a estação ferroviária. Após assegurar o controle sobre a cidade, enviaram telegramas para outras localidades avisando sobre o sucesso da revolta. Os rebeldes aguardavam uma resposta do comando central do movimento, naquela estanha cidade cinza ao sul do Brasil, para que pudessem ir até lá na capital comemorar o sucesso da revolução. Um jantar comemorativo foi marcado. O imperador estava praticamente empossado. Infelizmente, o resto do Brasil tinha outros planos.
Um único telegrama remetido pelo QG chegou no meio da tarde do dia 24, e com novidades desoladoras. Além de Ribeirãozinho, só pegara em armas Espírito Santo do Pinhal, outra pequena comarca paulista. A revolta havia naufragado espetacularmente. A restauração monárquica, assim, confinou-se ao perímetro urbano de Ribeirãozinho, durando não mais que vinte e quatro horas. Um tempo suficiente para que a história registrasse uma das revoltas mais malsucedidas e, ao mesmo tempo, mais pitorescas do período republicano. Duzentos homens armados esperaram ordens que jamais chegaram; um telegrama de derrota; e uma coroa imaginária voltou para o baú sem nunca ter sido usada. Passada a ressaca, os revoltosos da velha Ribeirãozinho se deram por satisfeitos com a vitória solitária. Nenhum envolvido no levante foi preso, os governos estadual e federal fizeram de conta que nada de tão grave acontecera e a vida seguiu seu curso.
Taquaritinga, como a cidade passou a se chamar em 1907, carrega no brasão o símbolo de uma monarquia que durou menos de 24 horas. Certamente o monumento mais honesto à impotência política que o Brasil já erigiu.

Um príncipe no meio do mar
Essa é disparada a melhor de todas as histórias. O norte-americano James Harden-Hickey era um homem de letras, genro de um barão do petróleo, budista, e mesmo assim conhecido como duelista experiente e aventureiro com um sonho nada modesto: governar seu país. Quem nunca? Segundo o famoso jornalista norte-americano Richard Harding Davis, era um homem que “deveria ter vivido nos dias de ‘Os Três Mosqueteiros’.”
Em 1893, durante uma viagem, ele avistou a ilha da Trindade, um pedaço de terra desabitado no Atlântico Sul que, até então, não havia sido oficialmente reivindicado por ninguém. Vendo ali a oportunidade de preencher o vazio jurídico (o que os juristas chamam de terra nullius), Harden-Hickey autoproclamou-se James I, Príncipe de Trinidad. A ilha em questão ficava a 1.140 quilômetros da costa brasileira, era desabitada, rochosa e de difícil acesso, qualidades que, ao que parece, a tornavam perfeita para um aventureiro que jamais precisaria governar ninguém de verdade.
De acordo com os planos de James Harden-Hickey, a ilha seria, depois de ser reconhecida como um país independente, transformada em uma ditadura militar sob sua liderança. Ele desenhou selos postais, uma bandeira nacional e um brasão de armas; estabeleceu uma ordem de cavalaria, a “Cruz de Trinidad”; comprou uma escuna para transportar colonos; abriu um consulado em Nova Iorque, e até emitiu títulos públicos para financiar a construção da infraestrutura na ilha. Em setembro de 1893, o barão notificou oficialmente a vários países sobre a posse da Ilha da Trindade.

A aventura, porém, tinha um problema geopolítico insolúvel. Em julho de 1895, os britânicos tentaram tomar posse desta posição estratégica no Atlântico para usar a ilha como uma estação de cabo telegráfico. O “príncipe” protestou em Washington; os americanos ignoraram; os ingleses ocuparam a ilha; e o Brasil, que havia esquecido que possuía aquela pedra no meio do oceano, acordou subitamente para defendê-la. Os esforços diplomáticos brasileiros, juntamente com o apoio português, pressionaram um pedido bem-sucedido para a soberania brasileira, com base na descoberta da ilha em 1502 pelos navegadores portugueses. A fim de demonstrar claramente a soberania sobre a ilha, um marco foi construído pelo Brasil em 24 de janeiro de 1897.
James I acabou sozinho, sem ilha, sem audiência e sem dinheiro. Nem o sogro milionário Henry Flagler, o magnata do Standard Oil, que achara aquilo tudo uma sandice o apoiou. Deprimido, James escreveu um livro argumentando que o suicídio era uma forma de arte poderosa. Sem dinheiro, e após fracassar em vender um rancho no Texas, ele se trancou num quarto de hotel em El Paso e tomou uma overdose fatal de medicamentos. Entre seus pertences foram encontrados uma carta de suicídio para sua esposa e suas lembranças de seus dias de glória, incluindo sua coroa feita à mão por ele mesmo.



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