A disputa presidencial no Peru ganhou novos contornos de tensão política após a coalizão Juntos por el Perú, que apoia o candidato de esquerda Roberto Sánchez, anunciar que não reconhecerá o resultado da eleição presidencial. Segundo reportagem do portal UOL, a decisão foi divulgada enquanto a apuração dos votos se aproxima do fim e aponta uma vantagem estreita da candidata de extrema direita Keiko Fujimori.
Em comunicado, a aliança formada por partidos progressistas, nacionalistas e de centro-esquerda afirmou que o processo eleitoral teria sido marcado por falhas que comprometem a legitimidade do resultado. A coalizão também convocou manifestações e vigílias em diversas regiões do país para esta quarta-feira (17), além de novos atos previstos ao longo da semana.
A contestação ocorre em um cenário de extrema polarização e revive preocupações sobre a estabilidade institucional do Peru, país que enfrenta uma longa crise política e uma sucessão de trocas de presidentes nos últimos anos.
Coalizão denuncia irregularidades
Ao justificar a decisão de não reconhecer o resultado eleitoral, o Juntos por el Perú afirmou que o processo não refletiu de forma transparente a vontade dos eleitores.
“Denunciamos a falta de transparência dos órgãos que conduzem o processo eleitoral, a mudança das regras eleitorais no meio do processo, uma série de irregularidades, motivos para anulação e manobras político-midiáticas que ameaçam a justiça eleitoral e a vontade soberana do povo peruano”, disse o Partido, ao justificar manifestação em comunicado.
A posição contrasta com declarações recentes de integrantes da própria coalizão. Dias antes, a porta-voz do grupo, Anahí Durand, havia defendido o respeito aos resultados oficiais proclamados pelas autoridades eleitorais, segundo informações do jornal peruano La República.
A mudança de postura ocorre justamente quando a diferença entre os candidatos permanece apertada, mas com tendência favorável à candidata conservadora.
Keiko amplia vantagem
Com mais de 99% das urnas apuradas, Keiko Fujimori ampliou sua liderança e se aproximou da vitória.
Dados divulgados pelo órgão eleitoral peruano às 0h02 desta quarta-feira indicavam 99,152% das urnas processadas.
Nesse momento da apuração, Keiko somava 9.136.432 votos, o equivalente a 50,100% dos votos válidos. Roberto Sánchez aparecia com 9.100.083 votos, ou 49,900%.
A diferença entre os dois candidatos era de 36.349 votos.
Apesar da vantagem da candidata de extrema direita, nenhum dos postulantes se declarou vencedor.
Na semana passada, Keiko afirmou que “teremos dias longos pela frente”, enquanto Sánchez classificou a disputa como um “empate técnico” e sustentou que o resultado permanecia indefinido.
O equilíbrio também marcou as pesquisas de boca de urna e as contagens rápidas divulgadas após o encerramento da votação, que apontavam um cenário de empate técnico.
Congresso já tem composição definida
Enquanto a Presidência segue em disputa, a composição do Congresso já está definida.
Segundo informações divulgadas pela imprensa peruana, a coalizão liderada por Keiko Fujimori conquistou 41 das 130 cadeiras da Câmara dos Deputados, tornando-se a maior bancada da nova legislatura.
O Juntos por el Perú ficou com 32 assentos.
A distribuição das vagas consolida a influência política do grupo ligado à candidata de extrema direita e pode ter impacto direto na governabilidade do próximo presidente.
Com a retomada do sistema bicameral prevista para julho, o Legislativo peruano voltará a contar com Câmara e Senado. No Senado, a força política de Keiko também aparece fortalecida, com 22 das 60 cadeiras, enquanto a coalizão de Sánchez conquistou 14.
Crise política prolongada
A eleição ocorre em um contexto de profunda instabilidade institucional.
Desde 2016, o Peru passou por uma sucessão de presidentes, renúncias, impeachments e disputas entre Executivo e Legislativo.
Ao longo dos últimos dez anos, o país teve uma rotatividade incomum no comando do governo, reflexo de um sistema político frequentemente marcado por conflitos entre os Poderes.
O cientista político Steven Levitsky define o Peru como uma “democracia sem partidos”. Segundo essa análise, as legendas funcionam mais como plataformas eleitorais temporárias do que como organizações partidárias consolidadas.
Nesse ambiente, presidentes costumam assumir o cargo sem uma base parlamentar sólida, tornando-se vulneráveis a crises políticas e tentativas de destituição.
Caso seja eleito, Sánchez já declarou que pretende promover mudanças para reduzir os instrumentos utilizados pelo Congresso para afastar chefes do Executivo.
“Temos que recuperar o equilíbrio de poderes, a separação dos poderes, regular a vacância por incapacidade moral permanente no cargo do presidente”, afirmou.
Especialistas avaliam que uma vitória apertada pode aumentar os questionamentos ao resultado e prolongar a instabilidade.
“Ainda existe um forte antifujimorismo, embora menor; e Sánchez, pouco conhecido, é uma incógnita. Quem vencer vai deslegitimar o resultado se for apertado. Isso traz mais instabilidade”, avaliou o analista David Sulmont à agência AFP.
Processo judicial e política externa
A campanha também foi marcada por controvérsias judiciais.
A Justiça peruana decidiu enviar Roberto Sánchez a julgamento por supostas irregularidades na prestação de contas do partido Juntos por el Perú. A acusação envolve alegadas inconsistências em relatórios financeiros apresentados entre 2018 e 2020 e menciona mais de US$ 57 mil em contribuições que não teriam sido declaradas ao órgão eleitoral competente.
O candidato nega irregularidades e afirma ser alvo de perseguição política.
“Durante anos tentaram instalar uma mentira para me desacreditar politicamente”, escreveu Sánchez ao comentar o caso em abril.
Na política externa, o candidato de esquerda também buscou sinalizar moderação durante a reta final da campanha e defendeu a manutenção de boas relações diplomáticas com os Estados Unidos.
“A boa vizinhança, as relações respeitosas entre as nações (…) é uma prioridade sempre”, afirmou.
Eleitores cobram transparência
Em meio ao clima de tensão, parte da população demonstra preocupação com a credibilidade da apuração e a aceitação do resultado pelos grupos políticos.
A expectativa de muitos eleitores era de que a eleição ajudasse a encerrar um ciclo de instabilidade que se arrasta há quase uma década.
“Espero que todo o processo seja realizado com transparência, que o voto do povo seja respeitado”, diz Evelyn Pasos, de 43 anos, eleitora.






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