CNJ cria rede nacional para reforçar combate ao crime organizado

Edson Fachin diz que avanço de facções em plataformas digitais, criptoativos e apostas ilegais exige atuação integrada do Judiciário

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou nesta terça-feira (14) a Rede Nacional de Magistrados e Magistradas com Competência em Criminalidade Organizada, iniciativa que busca fortalecer a cooperação entre juízes de todo o país no enfrentamento às organizações criminosas. Durante o lançamento, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do CNJ, ministro Edson Fachin, afirmou que o crime organizado passou a atuar de forma mais sofisticada, utilizando plataformas digitais, criptoativos, empresas aparentemente legais e mercados de apostas eletrônicas para ocultar e movimentar recursos ilícitos.

A Rede Nacional foi criada pela Portaria CNJ nº 142/2026 e terá como objetivo promover o intercâmbio permanente de informações, estratégias, boas práticas e capacitação entre magistrados que atuam em processos relacionados ao crime organizado.

Segundo Fachin, o novo perfil das organizações criminosas exige uma atuação integrada entre os órgãos públicos e o Poder Judiciário.

“A resposta estatal à criminalidade em rede exige, necessariamente, uma Justiça também articulada em rede”, afirmou o ministro.

Crime organizado amplia atuação no ambiente digital

Durante o evento realizado na sede do CNJ, em Brasília, Fachin destacou que as facções deixaram de atuar apenas por meio de estruturas tradicionais e passaram a utilizar recursos tecnológicos e financeiros cada vez mais complexos.

De acordo com o presidente do STF, plataformas clandestinas de apostas eletrônicas vêm sendo usadas para práticas como lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e financiamento de atividades ilícitas, incluindo tráfico de drogas, contrabando e corrupção.

O ministro ressaltou que o enfrentamento desse cenário depende da atuação conjunta de órgãos como Receita Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Banco Central, Ministério Público e forças policiais, além do rastreamento de criptoativos e da cooperação internacional.

Fachin informou ainda que discutirá o tema nesta quarta-feira (15) com o ministro da Fazenda, Dario Carnevalli Durigan, em reunião no Supremo Tribunal Federal.

Compartilhamento de inteligência e padronização

A nova rede funcionará como um espaço permanente de troca de conhecimento entre magistrados especializados na área criminal.

Entre as principais ações previstas estão:

  • compartilhamento de informações e estratégias de investigação;
  • capacitação sobre rastreamento de ativos digitais e criptoativos;
  • estudo de sistemas de pagamentos instantâneos, como o PIX;
  • análise do uso de contas-laranja digitais;
  • acompanhamento de plataformas de apostas sediadas em países com baixa regulação;
  • desenvolvimento de protocolos nacionais para uniformizar procedimentos e decisões judiciais.

Segundo Fachin, a criação de protocolos comuns pode reduzir diferenças de tratamento entre tribunais e aumentar a eficiência das investigações.

Proteção aos magistrados

O presidente do CNJ também alertou para os riscos enfrentados por juízes responsáveis por processos envolvendo organizações criminosas.

Segundo ele, decisões relacionadas ao bloqueio de bens, apreensão de patrimônio e medidas investigativas podem transformar magistrados em alvo de ameaças, comprometendo sua segurança e a independência judicial.

“Quando o medo interfere na liberdade de decidir, o alvo verdadeiro é a independência do Poder Judiciário e o próprio Estado Democrático de Direito”, afirmou.

Fachin defendeu que a proteção aos magistrados é essencial para impedir que organizações criminosas utilizem intimidação como forma de influenciar decisões judiciais.

Objetivo é tornar a Justiça mais eficiente

Além de fortalecer a cooperação institucional, a Rede Nacional pretende dar mais rapidez aos processos relacionados ao crime organizado, evitar a duplicidade de esforços entre unidades da Justiça e reduzir a perda de provas que dependem de atuação imediata.

Para o presidente do STF e do CNJ, o fortalecimento da inteligência financeira, aliado à integração entre instituições e à qualificação técnica dos magistrados, é fundamental para acompanhar a evolução das organizações criminosas e oferecer respostas mais eficazes à sociedade.

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