Circo de tradição familiar é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil

Reconhecimento do Iphan valoriza a tradição itinerante transmitida entre gerações e destaca a luta de famílias circenses que mantêm viva uma das expressões culturais mais antigas do país

O circo de tradição familiar foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão foi tomada em reunião realizada no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, e garante que essa manifestação cultural passe a integrar o Livro de Registro das Formas de Expressão.

Segundo o Iphan, o circo de tradição familiar representa uma prática cultural itinerante organizada em torno de núcleos familiares. Os conhecimentos são transmitidos oralmente entre gerações, incluindo técnicas artísticas, modos de fazer espetáculos e formas de convivência dentro das companhias circenses. Para o conselho consultivo, essa tradição tem relevância nacional não apenas pelos espetáculos apresentados, mas também pelo papel na preservação da memória social e cultural do país.

O reconhecimento foi resultado de uma mobilização que durou décadas e teve protagonismo da família Zanchettini. Fundado no Paraná em 1991, o Circo de Tradição Familiar Zanchettini liderou a articulação que culminou no registro oficial. A iniciativa começou com Wanda Cabral Zanchettin e o marido, Primo Júlio Zanchettin, e foi mantida ao longo dos anos pelos dez filhos do casal e por seus descendentes.

A própria Wanda protocolou o pedido de registro no Iphan em 2005, mobilizando famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas em todo o país. O reconhecimento, no entanto, chegou apenas anos após sua morte, ocorrida em 2017.

Filha de Wanda, Edlamar Maria Cabral Zanchettin destacou que a conquista é resultado direto da mobilização da família e de outras companhias circenses. Segundo ela, a vitória representa um marco para todos os artistas do setor e pode ser comparada a um “Oscar para o circo brasileiro”.

A história da família remonta a 1949, quando Wanda Cabral trabalhava no circo de ciganos Irmãos Marques. Foi nesse ambiente que conheceu o artista italiano Primo Júlio, com quem se casou e montou o Circo Teatro Gávea. Anos depois, após a morte do marido, Wanda rebatizou a companhia como Zanchettini em homenagem a ele.

Ao longo das décadas, os filhos cresceram dentro do picadeiro, aprendendo diferentes funções artísticas, como trapézio, acrobacia, canto e atuação. Hoje, novas gerações da família já fazem parte do elenco e continuam transmitindo os saberes circenses.

Apesar da tradição, os circos familiares enfrentam dificuldades financeiras, como custos elevados, taxas municipais e concorrência com grandes eventos e shows gratuitos. Representantes do setor esperam que o reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil contribua para ampliar o diálogo com autoridades e facilitar políticas de apoio à atividade.

Para as famílias circenses, o título representa não apenas um reconhecimento simbólico, mas também a valorização de uma tradição cultural que atravessa gerações e continua a percorrer o país levando espetáculos, histórias e memórias ao público.

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