Cidade com recorde de emendas que tem até portal ‘greco-goiano’ inspirado em Gusttavo Lima entra em colapso financeiro

São Luiz do Anauá (RR) recebeu R$ 126 milhões em repasses, mas decretou calamidade com obras inacabadas, salários atrasados e suspeitas de desvio

Com pouco mais de 7 mil habitantes, São Luiz do Anauá, em Roraima, protagoniza um dos casos mais extremos de desequilíbrio entre repasses públicos e gestão financeira no Brasil, informa reportagem de Tiago Mali no portal UOL. Mesmo tendo recebido R$ 126 milhões em emendas parlamentares entre 2020 e 2025 — o equivalente a R$ 17,4 mil por habitante, 33 vezes a média nacional — o município decretou calamidade financeira após ficar sem recursos para pagar funcionários.

O caso chama atenção não só pelo volume de recursos, mas pelo uso deles: entre as obras mais simbólicas está um portal de 25 metros de altura na entrada da cidade, que moradores dizem ter sido inspirado na casa do cantor sertanejo Gusttavo Lima. A estrutura foi construída para um show que prometia atrair 50 mil pessoas — sete vezes a população local — mas o evento foi cancelado pela Justiça após questionamentos do Ministério Público sobre a origem do financiamento.

“É um exagero ter um portal dessa magnitude no menor município do estado. Hoje a gente passa por um desvio porque ainda precisa ser feita uma ponte e colocar o asfalto”, afirmou o atual prefeito Elias da Silva (PP), conhecido como Chicão.

Além do portal, Chicão acusa seu antecessor, James Batista (Solidariedade), de comandar um esquema de desvio de recursos públicos. Segundo ele, a prefeitura foi entregue “sem um centavo em caixa” e com uma série de obras pagas, mas inacabadas. Entre os casos apontados pela atual gestão estão:

  • Parque da Vaquejada: R$ 6,6 milhões
  • Praça dos Buritis: R$ 3 milhões
  • Portal da cidade: R$ 1,8 milhão
  • Casas populares: R$ 1,2 milhão

Além disso, a prefeitura identificou que R$ 680 mil em empréstimos consignados foram descontados dos salários dos servidores, mas não repassados aos bancos.

As denúncias foram encaminhadas à Controladoria-Geral da União (CGU), Tribunal de Contas da União (TCU), Polícia Federal e Ministério Público. “Precisa chamar a atenção dos órgãos de controle para que eles investiguem e o dinheiro seja devolvido”, afirmou o deputado estadual Gabriel Picanço (Republicanos), que é da cidade.

Apesar das denúncias, Chicão foi vice-prefeito e secretário de Saúde nas gestões de James Batista. Ele afirma que rompeu com o ex-prefeito após constatar a situação.

Roraima e o “efeito Pix”

A maior parte dos R$ 126 milhões foi transferida via emendas do tipo Pix — modelo criticado por permitir repasses diretos aos cofres municipais, até recentemente sem necessidade de projeto ou prestação de contas. “Com menos controle, o risco do dinheiro sumir por corrupção ou ineficiência aumenta”, explica Juliana Sakai, diretora da Transparência Brasil.

Roraima, o estado menos populoso do Brasil, com 636 mil habitantes e apenas 15 municípios, tem a mesma representação no Congresso que estados com milhões de moradores: oito deputados e três senadores. Isso explica o alto volume de recursos disponíveis para poucos municípios. Enquanto um senador da Bahia divide seus R$ 69 milhões anuais entre 417 cidades, o senador de Roraima distribui entre apenas 15.

Mesmo após decretar calamidade, o prefeito Chicão continua aparecendo ao lado de parlamentares em vídeos anunciando novas obras e entregas de tratores, ambulâncias e caminhonetes.

CPI e quebra de sigilos

Na Assembleia Legislativa de Roraima, uma CPI foi instaurada para investigar o uso de emendas estaduais. A comissão apura o suposto desvio de R$ 2,6 milhões destinados à compra de medicamentos e de R$ 900 mil para ambulâncias.

A empresa TechMix, responsável por parte das obras — incluindo o portal — teve seu sigilo fiscal quebrado. O dono, Marcio Muller, afirmou apenas, por mensagem, que sua parte na obra foi concluída.

O relator da CPI, deputado Jorge Everton, aponta indícios de enriquecimento ilícito do ex-prefeito: “O James era professor municipal com salário baixo. Agora tem posto de gasolina, fazenda, gado, a mulher dele anda de Jeep, tem casas em outros municípios.”

O UOL procurou o ex-prefeito James Batista, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Enquanto isso, São Luiz do Anauá segue vivendo o paradoxo de ser a cidade que mais recebeu recursos per capita no país — mas que agora amarga salários atrasados, obras paradas e uma crise financeira sem precedentes.

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