A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apresentou um recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar reverter a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) que afastou Ednaldo Rodrigues da presidência da entidade. A informação foi divulgada pelo Estadão nesta quarta-feira (15).
No documento, a CBF sustenta que a decisão da Justiça fluminense compromete a segurança jurídica do futebol brasileiro e representa uma afronta à autoridade da Suprema Corte.
Segundo a petição, a manutenção do afastamento de Ednaldo e a nomeação de Fernando Sarney como interventor violariam o Estatuto da CBF e ignorariam decisão anterior do próprio STF, proferida pelo ministro Gilmar Mendes, que havia devolvido o cargo ao dirigente. “A manutenção dos efeitos da decisão impugnada comprometerá gravemente a autoridade do Supremo Tribunal Federal”, afirma o documento da entidade.
A CBF ainda solicita, em caráter subsidiário, que, caso o STF não reponha Ednaldo no comando, seja reconhecida a ilegalidade da designação de Sarney. A entidade defende que o cargo seja assumido interinamente pelo dirigente mais antigo da confederação, Hélio Menezes, até que nova assembleia geral seja convocada.
Investigação de fraude e crise de legitimidade
A nova crise envolvendo a CBF tem como ponto central a suspeita de falsificação da assinatura de Antônio Carlos Nunes de Lima, o coronel Nunes, em um acordo judicial que permitiu a permanência de Ednaldo no comando da confederação. A autenticidade da assinatura foi colocada em dúvida após laudo pericial solicitado pelo vereador Marcos Dias (Podemos-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal do Rio.
A análise, realizada por Jacqueline Tirotti, indicou ausência de correspondência entre a assinatura e a caligrafia de Nunes. Além disso, laudos médicos anexados ao processo apontam que o ex-dirigente, atualmente com 86 anos, apresenta déficit cognitivo e sofre de problemas neurológicos graves, o que colocaria em xeque sua capacidade de ter compreendido e validado o documento.
A suspeita levou o desembargador Gabriel de Oliveira Zefiro, do TJ-RJ, a determinar o afastamento de Ednaldo. Em sua decisão, o magistrado afirmou que “há muito o coronel Nunes não tem condições de expressar de forma consciente sua vontade” e que seus atos “não emanam da sua vontade livre e consciente”.
Zefiro anulou o acordo firmado com a participação de Nunes, retomando, na prática, uma decisão anterior do mesmo tribunal que já havia afastado Ednaldo no fim de 2023. Na época, o STF interveio para reconduzi-lo ao cargo, sob o argumento de que a Fifa e a Conmebol não reconheceram a legitimidade do interventor designado.
Questionamentos sobre Gilmar Mendes
O novo recurso ao STF reacende também o debate sobre o papel do ministro Gilmar Mendes no imbróglio. Ele foi o relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 7.580), na qual Ednaldo foi inicialmente mantido no cargo. Críticos apontam possível conflito de interesses, já que o ministro é fundador do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), que mantém contrato milionário com a CBF por meio da CBF Academy.
Além disso, uma reportagem da revista piauí, publicada em abril, detalhou denúncias contra a gestão de Ednaldo, incluindo suspeitas de autoritarismo, gastos questionáveis e pagamentos a escritórios de advocacia coincidentes com decisões judiciais favoráveis à confederação. O conteúdo gerou forte repercussão e motivou a abertura de investigações internas.
Denúncias na Comissão de Ética
Em meio ao anúncio do técnico Carlo Ancelotti como comandante da seleção brasileira — movimento considerado uma vitória política de Ednaldo —, o presidente afastado passou a ser alvo de três denúncias na Comissão de Ética da entidade. As acusações vão desde assédio moral até gestão temerária e envolvimento direto na suposta fraude que garantiu sua permanência no cargo.
Desdobramentos no Congresso e no Judiciário
Dois pedidos de afastamento de Ednaldo foram protocolados no STF, um assinado pela deputada federal Daniela do Waguinho (União Brasil-RJ) e outro por Fernando Sarney. Ambos questionaram a validade do acordo que manteve o dirigente no cargo, mas foram rejeitados por Gilmar Mendes. O magistrado argumentou que a decisão anterior, que validava o acordo, seguia vigente.
A CBF, por sua vez, sustenta que não teve acesso ao conteúdo completo da perícia usada como base para o afastamento de Ednaldo e afirma que as conclusões estão sendo utilizadas de forma “midiática e precipitada”. Em nota oficial divulgada no início de maio, a entidade reiterou que “todos os atos relacionados ao acordo mencionado foram conduzidos dentro da legalidade”.
Perspectivas
Agora, caberá novamente ao STF decidir se Ednaldo Rodrigues poderá continuar à frente da CBF ou se a entidade precisará organizar nova eleição para a presidência. Enquanto isso, cresce a pressão por maior transparência na condução da entidade que comanda o futebol brasileiro e suas relações com o sistema judiciário. A instabilidade pode impactar não apenas a gestão administrativa da confederação, mas também o relacionamento com entidades internacionais como Fifa e Conmebol, que têm se posicionado contra interferências externas na governança esportiva.






