Casos de HIV disparam entre pessoas com mais de 50 anos, mas prevenção segue focada em jovens

Estudo aponta falha global na conscientização e alerta que idosos têm menos percepção de risco

As estratégias globais de prevenção ao HIV têm negligenciado um grupo que enfrenta taxas crescentes de infecção: os adultos com 50 anos ou mais. É o que aponta um novo estudo publicado na revista The Lancet Healthy Longevity, que alerta para o aumento expressivo de casos entre idosos, especialmente na África Subsaariana — onde, segundo os pesquisadores, a prevalência do vírus nesta faixa etária já supera a de pessoas mais jovens. A informação foi publicada nesta terça-feira (6) pelo jornal O Globo.

No Brasil, a tendência é semelhante. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2012 e 2022, houve um crescimento de 416% nos registros de HIV entre pessoas idosas, saltando de 378 para 1.951 casos. A participação dessa faixa etária entre os novos diagnósticos dobrou no período, passando de 2% para 4%.

De acordo com o pesquisador Luicer Olubayo, do Instituto Sydney Brenner de Biociência Molecular (SBIMB), na África do Sul, a ideia de que o HIV afeta apenas os jovens contribui para esse cenário. “Muitas vezes pensamos no HIV como uma doença de pessoas mais jovens. O fato de as campanhas de intervenção serem direcionadas principalmente aos jovens não ajuda em nada”, declarou.

Olubayo liderou uma investigação com dados coletados entre 2013 e 2022 no Quênia e em áreas da África do Sul. A pesquisa mostrou que adultos mais velhos são menos propensos a se submeter ao teste de HIV, o que retarda diagnósticos e impede o início oportuno do tratamento. Essa baixa adesão está fortemente associada ao estigma persistente que cerca a doença — fator ainda mais acentuado entre os idosos.

“Entender o estigma relacionado ao HIV em idosos continua sendo crucial para apoiar intervenções que promovam não apenas a saúde física, mas também o bem-estar emocional dessas pessoas”, reforçou Olubayo.

O professor F. Xavier Gómez-Olivé, da Unidade de Pesquisa MRC/Wits-Agincourt, acrescenta que a invisibilidade dos mais velhos nas políticas públicas gera lacunas preocupantes. “Apesar de a prevalência do HIV entre indivíduos com mais de 50 anos ser semelhante ou até mesmo superior à de adultos mais jovens, a maior parte das pesquisas se concentra neles, deixando os mais velhos sem respaldo científico suficiente”, criticou.

A pesquisa também apontou que fatores como nível educacional, gênero e local de residência influenciam diretamente no risco de infecção. Mulheres viúvas foram identificadas com a maior taxa de HIV (30,8%), possivelmente por conta da perda de parceiros que tinham o vírus, dificuldade de negociação no uso de preservativos e vulnerabilidade social.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) também alerta para o crescimento do problema. O presidente da entidade, geriatra Marco Túlio Cintra, destaca dois fatores principais: o baixo uso de preservativos — já que a gravidez deixa de ser uma preocupação — e a popularização dos medicamentos para disfunção erétil, que prolongam a vida sexual de homens mais velhos.

“Essa realidade expõe uma necessidade urgente de políticas públicas voltadas para a orientação preventiva, o diagnóstico precoce e o acesso contínuo ao tratamento especializado para idosos vivendo com HIV”, afirmou Cintra. Ele também reforça que o atendimento deve considerar a saúde mental e emocional, devido ao impacto que o estigma social causa na autoestima desses pacientes.

Segundo os especialistas, integrar o tratamento do HIV ao cuidado com outras doenças crônicas — como hipertensão, diabetes e obesidade — pode ser um caminho para melhorar o atendimento a essa população, que tende a conviver com múltiplas condições de saúde à medida que envelhece.

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