A prisão do deputado estadual Thiago Rangel (Avante), nesta terça-feira (05), durante a quarta fase da Operação Unhas e Carne, da Polícia Federal, provocou um ambiente de forte apreensão e tensão na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
O parlamentar é suspeito de integrar uma organização criminosa voltada à fraude em contratos de compra de materiais e serviços, incluindo obras de reforma, no âmbito da Secretaria de Estado de Educação.
Nos corredores da Casa, o clima é de cautela. Mais do que o temor de novas investidas contra parlamentares, há deputados que já avaliam possíveis desdobramentos políticos da operação, inclusive sobre o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que trata das eleições para o governo do estado.
Clima de apreensão se espalha
Entre parlamentares, a percepção é de que a operação, ainda em andamento, gera instabilidade e amplia a sensação de incerteza dentro da Alerj. Em caráter reservado, um deputado afirmou que o ambiente está “receoso e atordoado”, destacando que o desenrolar da investigação ainda pode trazer novos desdobramentos.
Segundo ele, o momento de turbulência acaba prejudicando o funcionamento político da Casa e alimenta narrativas negativas sobre o Parlamento. Ainda de acordo com o relato, há dúvidas sobre até que ponto o caso pode interferir no julgamento do STF, considerado por alguns como já marcado por forte disputa política.
Outro parlamentar, também sob condição de anonimato, avaliou que o impacto da operação varia conforme o envolvimento de cada agente público. Para ele, “quem não tem nada a temer não deve se preocupar”, mas reconheceu que o episódio afeta diretamente a imagem da Alerj.
Ele ponderou, no entanto, que não acredita que a prisão de Rangel possa influenciar o julgamento do Supremo. Na avaliação desse deputado, qualquer interferência nesse sentido significaria uma violação à Constituição.
Ainda segundo o relato, a tendência é que o processo político seja prolongado ao máximo, com eventual marcação de um pleito indireto apenas no segundo semestre. “O único problema é que o Douglas Ruas perde um voto”, disse, em referência ao impacto imediato da prisão na correlação de forças dentro da Casa.
O mesmo deputado afirmou ainda que a prisão não chega a ser uma surpresa, lembrando que Thiago Rangel já havia sido alvo de investigações anteriores, como na Operação Postos de Midas.
Impacto político e leitura sobre o STF
A possibilidade de reflexos no STF, porém, passou a ser discutida abertamente por alguns deputados. A avaliação é que o caso reforça argumentos que apontam para uma contaminação do ambiente político por práticas ilícitas.
O deputado Flávio Serafini (Psol) afirmou que a operação confirma suspeitas já levantadas anteriormente.
“Nós já havíamos mostrado que havia um esquema de obras superfaturadas na Secretara de Estado de Educação. A operação da Polícia Federal só confirmou isso e mostrou que um deputado pode ter se beneficiado. É importante que as investigações agora apresentem o tamanho do rombo desse esquema e ver se quem mais estava participando”, disse.
Ele também destacou a dimensão política do episódio: “É triste ver que a parte da política fluminense virou assunto de polícia. Não tenho dúvida que isso irá refletir no julgamento sobre as eleições no estado, pois reforçar a tese de que a política está contaminada pelo crime.”
Pronunciamento anterior já indicava tensão
O episódio ocorre poucos dias após o deputado Vitor Junior (PDT) ter feito um pronunciamento alertando sobre o receio de novas operações envolvendo parlamentares. A declaração gerou reação imediata dentro da Casa, com críticas de colegas e o anúncio do PL de que pretende levá-lo ao Conselho de Ética.
A sequência de críticas reforça a leitura de que o ambiente político na Alerj já vinha sendo marcado por tensão antes mesmo da nova fase da operação.
Histórico de investigações
Thiago Rangel já havia sido alvo da Operação Postos de Midas, deflagrada em 2024. Na ocasião, a Polícia Federal identificou indícios de crescimento acelerado de seu patrimônio, que passou de R$ 224 mil em 2020 para mais de R$ 1,9 milhão em 2022.
As investigações apontaram a existência de uma rede com ao menos 18 postos de combustíveis e 12 empresas ligadas ao parlamentar. Segundo os investigadores, os recursos teriam origem em contratos firmados sem licitação ou com dispensa fraudulenta, com indícios de sobrepreço e desvio de dinheiro público.
Durante a operação, foram cumpridos mandados em diversos endereços, com apreensão de dinheiro em espécie, veículos, equipamentos eletrônicos e documentos. À época, o deputado negou irregularidades e afirmou confiar no esclarecimento dos fatos pela Justiça.
Relação familiar e trajetória política
O parlamentar é pai de Thamires Rangel (PMB), vereadora em Campos dos Goytacazes eleita aos 18 anos, quando ainda cursava o Ensino Médio. Ela foi a única mulher eleita para o Legislativo municipal naquela legislatura.
Posteriormente, Thamires chegou a ocupar o cargo de subsecretária estadual do Ambiente e Sustentabilidade, deixando a função após mudanças na estrutura do governo. Sua campanha eleitoral contou com apoio direto do pai, inclusive financeiro.
Posicionamento oficial da Alerj
Em nota, a Assembleia Legislativa do Rio informou que está acompanhando o caso e se colocou à disposição das autoridades.
“A Alerj informa que está à disposição das instituições da República no que for necessário para colaborar no esclarecimento dos fatos. A Assembleia Legislativa reforça seu compromisso com a transparência e confiança no trabalho dos órgãos competentes”, diz o comunicado.
Com a investigação em curso, o caso segue repercutindo no cenário político fluminense e tende a manter elevado o nível de tensão dentro da Alerj, enquanto deputados aguardam os próximos desdobramentos.






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