Caso Marielle: jovem assassinado em subúrbio do Rio pela milícia gritou o nome de Macalé antes de morrer

O jovem que estava sentado na frente da casa de seus avós em 2012 e foi alvejado por diversos tiros de um carro que passou pela Rua Pereira de Figueiredo, num subúrbio do Rio de Janeiro, emitiu um último grito com o nome do atirador: Macalé. O relato é dos dois avós que tentaram socorrer…

O jovem que estava sentado na frente da casa de seus avós em 2012 e foi alvejado por diversos tiros de um carro que passou pela Rua Pereira de Figueiredo, num subúrbio do Rio de Janeiro, emitiu um último grito com o nome do atirador: Macalé. O relato é dos dois avós que tentaram socorrer o neto de 19 anos em uma audiência na Justiça em ano depois do crime acontecido.

Ele se referia a um temido miliciano que dominava o bairro à época: o sargento aposentado da PM Edmilson da Silva de Oliveira, mais conhecido como Macalé. Mais de uma década depois, o nome do policial é novamente ligado a um crime: os homicídios da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Segundo o delator Élcio de Queiroz, Macalé foi responsável por intermediar a contratação de Ronnie Lessa para cometer o assassinato. “Essa missão foi através do Macalé que chegou até o Ronnie”, disse Queiroz.

Até ser executado a tiros em novembro de 2021, Macalé jamais foi condenado por nenhum crime. Na PM, sua carreira foi abreviada com menos de 20 anos de serviço: em 2004, a junta de saúde da corporação considerou Macalé “incapaz” para o serviço ativo.

Já na reserva, sua trajetória foi marcada por uma série de acusações de ligação com a milícia de Oswaldo Cruz. A primeira denúncia veio à tona em 2008, com a publicação do relatório final da CPI das Milícias. O documento citava Macalé como um dos integrantes da milícia de Oswaldo Cruz. A citação não resultou em nenhuma investigação.

Em dezembro de 2012, o sargento foi preso pelo homicídio de Michael Ramos na frente da casa da avó. Com base nos depoimentos de testemunhas, a polícia concluiu que a vítima havia sido morta porque “praticava furtos na região, o que desagradava o réu”. Antes do crime, Macalé já tinha ameaçado Ramos: “Não quero mais te ver em Oswaldo Cruz”, teria dito o PM à vítima.

O relatório final da investigação da Delegacia de Homicídios (DH) apontava que Macalé era “o policial militar que lidera a milícia atuante em Oswaldo Cruz, que, além de controlar os serviços de gatonet, segurança e transporte alternativo, praticava crimes gravíssimos, entre os quais execuções sumárias”. No dia em que Macalé foi preso, 6 de dezembro de 2012, agentes da DH encontraram, dentro de sua BMW, uma pistola e um taco de beisebol de alumínio — que ele costumava exibir enquanto circulava pelo bairro.

Apesar de ter permanecido mais de um ano atrás das grades, Macalé acabou absolvido do homicídio pelo júri popular em julho de 2014. Três anos depois, ele ainda se livrou da acusação de posse ilegal da pistola apreendida em seu carro. À Justiça, ele contou que a arma era de um ladrão que havia tentado invadir sua casa poucas horas antes da chegada dos agentes da Homicídios a sua casa. Macalé disse que surpreendeu o criminoso, que tentou fugir pulando o muro e deixou cair a pistola. Segundo o PM, a arma seria levada a uma delegacia se a polícia não o tivesse prendido. A explicação convenceu a juíza Juliana Benevides Araújo, que o absolveu.

Na tarde de 6 de novembro de 2021, um sábado, Macalé foi executado a tiros em Bangu, na Zona Oeste, aos 54 anos. Ele havia levado um curió que possuía para um evento de amantes de pássaros e estava voltando para seu carro quando foi surpreendido por atiradores que passaram num veículo branco. A pistola calibre .45 que ele portava não foi levada pelos criminosos. O crime segue sem solução até hoje.

A Polícia Federal vai apurar se o assassinato de Macalé tem relação com o Caso Marielle. Segundo investigadores, nos anos que antecederam o assassinato da vereadora, o sargento se aproximou de Ronnie Lessa — que também controlava o “gatonet” em Rocha Miranda, área vizinha à explorada por Macalé — e passou a integrar a quadrilha de matadores de aluguel, prestando serviços sobretudo para bicheiros e milicianos.

Segundo o delator Élcio de Queiroz, Macalé atuou em campanas para monitorar Marielle e também teria participado, com um fuzil AK-47, de uma tentativa frustrada de matar a vereadora.

 Com informações de O Globo.

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