Quase dois meses após o julgamento do caso Henry Borel ter sido interrompido pelo abandono da defesa de Dr. Jairinho no plenário, o júri popular do ex-vereador e de Monique Medeiros será retomado nesta segunda-feira (25), no II Tribunal do Júri do Rio, no Centro. Pouco antes do início da sessão, o pai do menino, o vereador Leniel Borel, afirmou que a acusação pretende apresentar aos jurados um suposto episódio até então não divulgado envolvendo outra criança.
Sem detalhar o caso, Leniel disse que a informação foi preservada pela assistência de acusação ao longo dos últimos anos e será usada durante o julgamento para sustentar a tese apresentada pelo Ministério Público.
“Vocês sabiam que tem um outro caso que nunca apareceu? Um caso de uma menina que teria sido queimada pelo Jairo e isso nunca foi investigado. Eu esperei cinco anos para falar sobre isso”, declarou.
Segundo Leniel, o júri deverá expor aos jurados elementos que, na visão da acusação, ajudam a traçar o comportamento de Jairinho e Monique.
“Neste júri nós vamos mostrar a verdade. Vamos mostrar quem são Jairo e Monique”, afirmou.
Em tom emocionado, o pai de Henry classificou a retomada do julgamento como um momento decisivo na busca por justiça pela morte do filho.
“Acho que chegamos ao começo do fim”, disse.
Defesa da tese da acusação
Durante a entrevista concedida à imprensa em frente ao Tribunal de Justiça, Leniel voltou a defender a tese sustentada pelo Ministério Público de que os dois acusados devem responder conjuntamente pela morte da criança.
“Se três pessoas entraram vivas naquele apartamento — dois adultos e uma criança — e depois saem dois adultos e uma criança morta, o que aconteceu ali dentro?”, questionou.
Segundo ele, os réus nunca apresentaram uma explicação convincente para o que teria ocorrido na madrugada de 8 de março de 2021, no apartamento da família, na Barra da Tijuca.
“Eles nunca falam o que aconteceu naquele apartamento. Se os dois não falam, os dois têm responsabilidade”, afirmou.
Leniel também criticou o tempo levado para que o caso chegasse ao Tribunal do Júri.
“Por que demorou cinco anos para fazer justiça por uma criança?”, questionou.
Segundo o vereador, os sucessivos recursos apresentados pelas defesas contribuíram para prolongar a tramitação do processo.
Julgamento foi interrompido em março
O júri popular chegou a ser iniciado em março deste ano, mas acabou suspenso após os advogados de Jairinho abandonarem o plenário depois de a Justiça negar um pedido de adiamento da sessão.
Na ocasião, a juíza Elizabeth Machado Louro classificou a conduta como “ato atentatório contra a dignidade da Justiça”, aplicou multa aos advogados e determinou o envio do caso à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para apuração disciplinar.
A magistrada chegou a tentar manter o julgamento convocando a Defensoria Pública para assumir a defesa do ex-vereador, mas o órgão informou que não poderia atuar porque Jairinho já possuía advogados constituídos.
Quem são os réus
Dr. Jairinho construiu sua carreira política na Zona Oeste do Rio. Médico de formação, foi eleito vereador pela primeira vez em 2004, aos 27 anos, seguindo os passos do pai, o ex-deputado estadual Coronel Jairo. Ao longo da trajetória política, exerceu cinco mandatos consecutivos na Câmara do Rio e chegou a ocupar a liderança do governo Marcelo Crivella no Legislativo. Ex-médico, ele teve o registro profissional cassado pelo Conselho Federal de Medicina em 2023.
Após a morte de Henry, passou a ser investigado pela Polícia Civil sob suspeita de agredir o menino de forma recorrente. O Ministério Público sustenta que a criança era submetida a uma rotina de violência dentro do apartamento onde vivia com a mãe e o padrasto.
Monique Medeiros, mãe de Henry, também responde por homicídio triplamente qualificado e tortura. Professora da rede municipal, ela trabalhou na Secretaria Municipal de Educação e chegou a ser diretora de uma escola em Senador Camará, na Zona Oeste. Posteriormente, assumiu uma vaga em gabinete no Tribunal de Contas do Município (TCM-Rio), de onde foi exonerada após a prisão.
Tanto Monique quanto Jairinho negam as acusações.
Relembre o caso
Henry Borel morreu na madrugada de 8 de março de 2021, aos 4 anos. Inicialmente, o caso foi tratado como um acidente doméstico, mas o laudo do Instituto Médico-Legal apontou que a criança apresentava 23 lesões pelo corpo, incluindo hemorragia interna e laceração hepática.
As médicas que atenderam Henry no Hospital Barra D’Or afirmaram que o menino já chegou morto à unidade de saúde.
Dias após a morte, ex-namoradas de Jairinho prestaram depoimento relatando episódios anteriores de agressão. Uma delas afirmou à polícia que a filha pequena sentia medo do ex-vereador e chegou a dizer que havia sido agredida por ele.
A investigação também apontou tentativas de interferência no caso após a morte da criança. Um executivo da área de saúde relatou à polícia ter sido procurado por Jairinho para tentar impedir que o corpo fosse encaminhado ao Instituto Médico-Legal.
Em janeiro deste ano, a acusação apresentou ainda um novo laudo com reconstrução em 3D do apartamento onde Henry morreu. O documento concluiu que as lesões eram incompatíveis com queda acidental e reforçou a tese de homicídio por agressões físicas.
O julgamento será conduzido por sete jurados e a expectativa é que a sessão se estenda ao longo da semana. Jairinho e Monique respondem presos ao processo no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
Atualmente, Jairinho está preso em Bangu 8, unidade do Complexo de Gericinó que historicamente abriga políticos, empresários e ex-agentes públicos envolvidos em casos de grande repercussão. Já passaram pelo local nomes como os dos ex-governadores Sérgio Cabral e Anthony Garotinho, além do ex-deputado federal Roberto Jefferson, do ex-vereador Gabriel Monteiro e de Domingos Brazão, condenado como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco.
Agenda do Poder tenta contato com as defesas de Jairinho e Monique Medeiros.





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