O candidato do Partido Socialista, António José Seguro, venceu as eleições presidenciais deste domingo (8) e será o próximo presidente de Portugal para um mandato de 5 anos.
De maneira contundente, com 95% das urnas apuradas., Seguro recebeu 66% votos válidos, contra 34% de André Ventura, líder do partido de extrema direita Chega, hoje a segunda força política do país.
— O povo português é excelente, que demonstrou um apego enorme à nossa democracia — afirmou Seguro a jornalistas na saída de sua casa, e dizendo que seu objetivo “é servir ao país”.
Duas pesquisas de boca de urna colocaram Seguro na faixa de 67% a 73% e Ventura em 27% a 33%.
No ano passado, o Chega tornou-se a segunda maior força parlamentar, ultrapassando os socialistas e ficando atrás da aliança governamental de centro-direita, que obteve 31,2%.
O resultado confirma o favoritismo apontado pelas pesquisas ao longo da campanha e indica uma vitória confortável sobre o ultradireitista André Ventura, do partido Chega.
A abstenção é estimada entre 42% e 48%, patamar semelhante ao registrado no primeiro turno, quando 47,7% dos eleitores deixaram de votar. O dado sugere que não houve mudança significativa na participação do eleitorado nesta etapa decisiva do pleito.
Discurso de vitória deve ocorrer ainda hoje
Alguns municípios em estado de calamidade pública por causa das chuvas só irão às urnas na próxima semana, mas eles representam menos de 1% do eleitorado. No restante do país, a apuração segue normalmente, e a expectativa é que Seguro faça um pronunciamento ainda nesta noite como presidente eleito.
O resultado encerra um aparente paradoxo da eleição. No primeiro turno, candidatos identificados com a esquerda somaram cerca de 35% dos votos, enquanto os concorrentes da direita ultrapassaram 50%. Ainda assim, o socialista conseguiu construir uma maioria ampla no segundo turno.
Para analistas, a explicação está na forma como o eleitorado enxergou a disputa. Pesquisa da Universidade Católica de Portugal realizada na semana anterior ao pleito mostrou que, para muitos portugueses, a eleição deixou de ser um embate entre esquerda e direita e passou a ser vista como uma escolha entre moderação e radicalismo.
A aposta na moderação e na previsibilidade
Seguro construiu sua campanha com um discurso de estabilidade, reforçado inclusive pelo slogan “Futuro Seguro”. Já Ventura prometia uma ruptura mais brusca com o sistema político, defendendo um “abanão” no país, mas acabou não conseguindo ampliar sua base de apoio no segundo turno.
Após o primeiro turno, o líder do Chega tentou unificar a direita em torno de sua candidatura, sem sucesso. Na semana seguinte, nomes da direita moderada declararam apoio a Seguro, entre eles o ex-primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva, uma das principais referências do conservadorismo português.
Para o cientista político André Santos Pereira, professor do ISCTE e diretor-associado da consultoria Political Intelligence, o socialista representa uma demanda por previsibilidade. Segundo ele, os portugueses estavam acostumados a governos estáveis antes da pandemia, cenário que mudou com sucessivas crises políticas nos últimos anos.
Relação com o Parlamento e legado político
Em Portugal, o presidente não governa diretamente, mas tem o poder de dissolver o Parlamento em situações de crise. O atual chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, recorreu a esse instrumento três vezes durante o mandato, em meio a escândalos de corrupção e impasses orçamentários.
Seguro é visto como alguém que usaria esse recurso apenas em último caso. “Ele é um político de esquerda que dialoga bem com a direita”, afirma Santos Pereira. A expectativa é de uma convivência institucional mais estável com o primeiro-ministro Luís Montenegro, que lidera um governo de centro-direita.
A postura conciliadora de Seguro tem raízes em um episódio marcante de sua trajetória. Durante a crise do euro, quando Portugal enfrentou forte ajuste fiscal, ele liderava a oposição socialista e optou por garantir a governabilidade em troca de concessões sociais, contrariando a ala mais radical de seu partido.
Democracia, crescimento e desafios do país
A decisão custou sua liderança partidária e o afastou da política por cerca de dez anos, mas ajudou Portugal a ser um dos primeiros países do sul da Europa a sair da crise. Ao longo da campanha, Seguro afirmou não se arrepender da escolha feita naquele período.
No confronto de visões apresentado nesta eleição, Ventura insistiu no discurso de que Portugal estaria estagnado há décadas. Seguro, por outro lado, destacou as transformações do país desde a Revolução dos Cravos, com modernização da economia, fortalecimento do turismo, consolidação como polo tecnológico e expansão do Estado de bem-estar social.
Dados recentes do Barômetro da Lusofonia indicam que Portugal é o país que mais valoriza a democracia entre as nações de língua portuguesa. Apesar do crescimento econômico acima da média europeia e de indicadores fiscais positivos, o país ainda enfrenta problemas nas áreas de saúde e habitação — desafios que o novo presidente deverá acompanhar de perto dentro de seu papel institucional.






Deixe um comentário