Um dos terrenos mais simbólicos e polêmicos do Centro do Rio vai mudar de cara. Parte do Buraco do Lume, área conhecida por manifestações políticas e pela estátua em homenagem à vereadora Marielle Franco, dará lugar ao maior empreendimento já licenciado no programa Reviver Centro: um edifício residencial de 24 andares com 720 apartamentos e cinco lojas comerciais, informa O Globo.
A autorização foi concedida no mês passado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, com base nas regras do Reviver Centro, iniciativa criada para atrair novos moradores para a região. O projeto é da Construtora Patrimar, que ainda avalia o momento de lançar a obra no mercado.
O projeto em números
O prédio ocupará um terreno particular de 2.517 m² na Rua Nilo Peçanha, próximo ao Terminal Menezes Côrtes. Serão construídos 26,7 mil m², todos em unidades do tipo estúdio, variando de 25 a 35 m², sem previsão de vagas de garagem. No térreo, haverá espaço para bicicletas, academia e lojas, enquanto o terraço contará com piscina, área gourmet e vista para a Baía de Guanabara.
Em quantidade de unidades, trata-se do maior empreendimento aprovado dentro do Reviver Centro até agora: sozinho, responde por 13,75% das 5.236 unidades licenciadas no programa.
Críticas e apoios
O projeto, no entanto, gerou controvérsia. O arquiteto Fernando Costa, responsável pelo desenho do prédio, defende que haverá integração com a Praça Mário Lago, por meio de um paisagismo com vegetação nos primeiros andares. Já o CEO da Patrimar, Alex Veiga, destaca a localização privilegiada, cercada por opções de transporte público, e aposta que a obra dará novo fôlego à região.
Mas urbanistas e entidades de classe têm posição oposta. O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), Sidney Menezes, considera que o empreendimento pode provocar adensamento excessivo e descaracterizar a ambiência do espaço. A ex-secretária de Urbanismo Andrea Redondo afirma que a iniciativa fere o plano urbano original pensado para a área após o desmonte do Morro do Castelo, nos anos 1920.
Por outro lado, o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscom), Cláudio Hermolin, argumenta que o Centro pode oferecer moradia a famílias que desejam viver perto do trabalho, em uma região com preços mais baixos que zonas tradicionais da cidade.
Disputa política e memória
A obra também entrou no debate político. O prefeito Eduardo Paes chegou a se opor ao projeto, alegando que todo o Buraco do Lume era uma área pública, mas depois admitiu que parte do terreno é particular e com potencial construtivo. Já o deputado federal Tarcísio Motta (PSOL) critica a medida, afirmando que o Centro precisa de revitalização dos prédios já existentes e de mais áreas culturais, e não de novos empreendimentos voltados ao mercado imobiliário.
O Buraco do Lume tem uma longa história de impasses urbanísticos. O terreno já foi alvo de tentativas de erguer arranha-céus, decretos de proteção, tombamentos e destombamentos aprovados pela Alerj. Em dezembro de 2022, o imóvel foi liberado para construção após votação na Assembleia Legislativa, reabrindo caminho para o atual projeto.
Símbolo de resistência política desde os anos 1980, quando o ex-deputado Wladimir Palmeira discursava na praça, o espaço segue sendo palco de disputas: entre preservação da memória urbana e os interesses da expansão imobiliária no coração do Rio.






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