Durante o encerramento da cúpula do Brics no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (7), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu às novas ameaças comerciais feitas por Donald Trump, afirmando que o bloco “está incomodando” ao propor um modelo alternativo de organização internacional. As declarações foram feitas no Museu de Arte Moderna (MAM), que sediou o encontro de chefes de Estado do grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Lula não mencionou Trump nominalmente, mas fez críticas diretas à postura dos Estados Unidos e ao que chamou de tentativas de tutelar o mundo. “Somos um grupo de países querendo criar outro jeito de organizar o mundo. O Brics não nasceu para afrontar ninguém”, afirmou o presidente. “Não queremos mais um mundo tutelado, não queremos mais guerra fria, não queremos mais desrespeito à soberania.”
Mais cedo, o ex-presidente dos EUA publicou em sua rede social uma ameaça de impor tarifas extras de 10% a todos os países que apoiarem o Brics, classificando suas políticas como “antiamericanas”. “Não haverá exceções a essa política”, escreveu Trump.
Brics diz que tarifaço de Trump viola normas internacionais
A reação do republicano ocorreu após o grupo divulgar uma nota conjunta manifestando “séria preocupação” com o uso crescente de medidas protecionistas por parte de Washington. No documento, os membros do Brics afirmaram que o aumento indiscriminado de tarifas e restrições ao comércio, inclusive sob o pretexto de políticas ambientais, ameaça o comércio global e desorganiza cadeias de suprimentos. A declaração critica ações unilaterais que, segundo o bloco, violam regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Lula aproveitou o momento para defender uma profunda reforma na governança global, incluindo mudanças no estatuto da ONU. “Estamos discutindo com muita profundidade a necessidade de uma mudança estruturada”, disse o presidente, reforçando a demanda por um sistema internacional mais equitativo.
Recado a Trump: “Dê palpite na sua vida, e não na nossa”
Ainda durante sua fala, o presidente brasileiro evitou comentar diretamente as críticas de Trump ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. “Não vou comentar essa coisa entre Trump e Bolsonaro. Tenho coisas mais importantes para comentar do que isso”, disse Lula. “Esse país tem leis, regras e um dono chamado povo brasileiro, portanto dê palpite na sua vida, e não na nossa.”
Críticas à ONU e aos conflitos globais
Lula também fez um duro diagnóstico do atual cenário internacional. Para ele, o mundo vive seu maior risco de conflito desde a Segunda Guerra Mundial. “Há guerras espalhadas por todo lado. Desde a invasão da Líbia, da morte do [ditador Muamar] Kadafi, até a guerra com a Ucrânia, ninguém pede licença para fazer guerra”, disse. Ele criticou a impotência das instituições multilaterais em intervir nos conflitos. “A ONU perde credibilidade e autoridade para negociar.”
Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula afirmou que “Putin já sabe o que vai acontecer, Zelensky também”, indicando que sem uma instância legítima de mediação, o impasse se perpetua. Quanto à ofensiva de Israel em Gaza, o presidente foi mais incisivo: “O que está acontecendo em Gaza já passou da capacidade de compreensão de qualquer mortal. Guerra contra o Hamas? Só se mata inocentes, mulheres e crianças”, declarou.
Lula encerrou sua participação reforçando que o Brics quer ser parte ativa de uma nova ordem global, com mais equilíbrio e respeito à soberania das nações. Segundo ele, a ausência de interlocutores capazes de mediar os conflitos atuais reforça a urgência de uma nova estrutura de governança internacional.
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