Você já ouviu falar do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu? Não? Tudo bem. Mas agora que ele virou Patrimônio Natural da Humanidade — sim, daqueles carimbados pela Unesco com toda a pompa e circunstância internacional — prepare-se para vê-lo estampado em reportagens, guias de viagem, blogs de aventureiros e talvez até num episódio do Globo Repórter.
O Peruaçu, que até pouco tempo atrás era quase um segredo guardado no Norte de Minas, agora ostenta mais títulos que uma monarquia europeia decadente.
A consagração veio em julho deste ano, durante uma sessão em Paris, quando a ONU finalmente reconheceu aquilo que pesquisadores, ambientalistas e moradores locais já sabiam há décadas: que o Peruaçu é um colosso de pedra, arte e biodiversidade.
Com suas quase 200 cavernas, algumas delas de fazer inveja a qualquer Batcaverna, com pé-direito de 100 metros, praticamente um edifício em Balneário Camboriú. Isso combinado a pinturas rupestres de mais de 12 mil anos e a maior estalactite já registrada no mundo, com 28 metros, o equivalente a um prédio de oito andares. Não dava mesmo para o mundo do turismo ignorar por muito tempo.
E para quem acha que patrimônio natural da humanidade precisa ser tropical, úmido e cercado de passarinhos coloridos cantando, o Peruaçu oferece um contraponto seco, rupestre e monumental.
Localizado em uma das regiões mais áridas de Minas Gerais, um sertão de pedra com mais de duas mil espécies de animais onde Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica se cruzam num ecossistema quase teimoso, o parque mostra que beleza natural também pode ser áspera, bruta e silenciosa. Um destino perfeito para quem prefere cavernas a praias, fósseis a festas e um bom paredão de calcário a um resort com serviços all inclusive.

O parque das quase 200 cavernas
O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu foi instituído em 21 de setembro de 1999, com o intuito de proteger uma vasta região de calcário, cavidades subterrâneas e sítios arqueológicos antigos. A área escolhida revelou-se um verdadeiro relicário geológico: um grande maciço de rocha calcária formado há milhões de anos por antigos mares que sedimentaram essa paisagem única.
Desde então, pesquisadores identificaram mais de 140 cavernas (alguns relatam cerca de 180), mais de 80 sítios arqueológicos com pinturas rupestres de até 12 mil anos atrás, e uma combinação de ecossistemas do Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.
O parque também mantém conexão com a comunidade indígena dos Xakriabás, que historicamente habita a região e contribui com seus saberes tradicionais preservados até hoje.

O que tem para fazer por lá?
O principal destaque é a Gruta do Janelão, com galerias que ultrapassam 100 metros de altura e 60 de largura, e a impressionante estalactite chamada Perna da Bailarina, com cerca de 28 metros e considerada a maior do mundo — maior até do que em qualquer caverna do Vietnã ou Tailãndia.
Há diversas trilhas, como a Trilha do Arco do André, com cerca de 8 km, que passa por mirantes como Mundo Inteiro e Torres, além de atravessar cavernas e permitir vistas privilegiadas dos cânions.
Outras atrações incluem grutas como a Lapa do Boquete (opa), a Lapa dos Desenhos, a Lapa do Rezar, a Gruta do Caboclo, entre outras, muitas com pinturas rupestres e relevância arqueológica para estudos da ocupação humana pré-histórica.
Também há intensa observação de fauna e flora: mais de 2.000 espécies catalogadas, inclusive animais ameaçados de extinção, principalmente aves como o cara-dourada, o piolhinho-do-grotão e a maria-preta-do-nordeste.
Onde fica?
A aproximadamente 670 km de Belo Horizonte, acessível por estradas pavimentadas em boa parte do trajeto O parque propriamente dito ocupa cerca de 56.448 hectares na região norte de Minas Gerais, abrangendo os municípios de Januária, Itacarambi e São João das Missões. A sede fica próxima à comunidade do Fabião, a cerca de 45 km de Januária, pela MG‑135, até o parque.
É caro viajar para lá?
O investimento total é modesto frente a destinos consagrados. Não é inacessível, mas exige planejamento logístico e reservas com boa antecedência. Como é necessária a contratação de um guia local credenciado, deixe essa tarefa para aquele seu parceiro de viagem que é bom de lábia.
Um grupo de até cinco pessoas costuma pagar em torno de R$ 500. Mas tudo, como se sabe, é negociável. Os maiores custos são mesmo em transporte. Um voo saindo do Santos Dummont até Montes Claros fica entre R$ 400 e R$ 600. De ônibus o custo cai para cerca de R$ 300, mas a viagem leva cerca de 17 horas. As pousadas próximas ao parque cobram diárias em torno dos R$ 200.
O que saber antes de ir?
A visitação é obrigatoriamente guiada por condutores ambientais credenciados pelo ICMBio, e existem limites de grupos por atrativo para evitar danos aos espeleotemas e sítios arqueológicos. O limite é de oito pessoas por guia (ou cinco em certas atrações como a Lapa Bonita ou o Arco do André).
Não há cobrança de ingresso, mas é necessário agendar previamente os passeios junto ao ICMBio e contratar o guia local. Leve calçado fechado, roupas leves e de manga comprida, chapéu, protetor solar e água, além de um repelente poderoso, devido ao número de insetos. Não há infraestrutura de hospedagem dentro do parque: a estadia é em pousadas nos arredores.
Melhor época para viajar e por quê?
Embora o parque seja visitável o ano todo, há nuances sazonais: o clima tropical semiárido traz chuvas entre outubro e abril, uma época em que a vegetação fica exuberante e os rios correm plenos, valorizando os cânions e os jardins suspensos internos da Gruta do Janelão.
Já entre maio a setembro, o período seco permite trilhas mais seguras, menor risco de lama e calor intenso (chegando a 34 °C), ideal para caminhadas longas sem surpresas meteorológicas. No fim das contas a escolha depende do freguês: o frescor da vegetação ou trilhas em terreno firme e céu claro.
Por que foi escolhido patrimônio natural da humanidade?
Em julho de 2025, durante a 47ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco realizada em Paris, o Cânion do Peruaçu foi tombado como Patrimônio Mundial Natural — título dado a lugares de valor universal excepcional. O reconhecimento se deu pela combinação rara de atributos do local: beleza geológica monumental, relevância arqueológica (com pinturas rupestres e sepultamentos antigos), e biodiversidade representando diferentes biomas brasileiros.
Além disso o envolvimento das comunidades locais e a atuação do ICMBio foram fundamentais na candidatura. Com essa inscrição, o Brasil passou a ter nove patrimônios naturais na lista da Unesco (totalizando 25 patrimônios, incluindo culturais e mistos).
Quantos outros patrimônios naturais existem no Brasil?
Com a inscrição do Peruaçu, o Brasil agora possui nove Patrimônios Mundiais Naturais, elevando o país a uma posição destacada no cenário internacional de conservação.
Os outros oito incluem: o Parque Nacional do Iguaçu; as Reservas da Mata Atlântica do Sudeste e da Costa do Descobrimento; o Complexo da Amazônia Central; o Pantanal; as Ilhas Atlânticas Brasileiras (Fernando de Noronha e Atol das Rocas); os Parques Chapada dos Veadeiros e Emas (Cerrado); e os Lençóis Maranhenses (inscritos em 2024).
Vale a pena conhecer?
Absolutamente! O Peruaçu é uma coisa meio monumento geológico, galeria de arte rupestre milenar e refúgio ecológico. E agora que ostenta o selo Unesco, a visibilidade e valorização só devem aumentar, o que fortalecerá o ecoturismo e a economia local.
A viagem até lá é uma das raras experiências brasileiras onde geologia, biologia e arqueologia se encontram em harmonia, e acesso com responsabilidade sustentável e comunitária. Ideal para quem busca destinos fora do circuito óbvio e valoriza natureza, história e silêncio (a exceção do trilar das aves, claro).






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