Brasil registra 150 mil agressões contra pessoas em situação de rua em dez anos

Negros e jovens são as principais vítimas, e especialistas alertam para subnotificação

Entre 2014 e 2023, o Brasil registrou oficialmente 150 mil episódios de violência contra pessoas em situação de rua, uma média de 41 agressões por dia. O número foi divulgado pelo estudo A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua, elaborado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), informa a Agência Brasil.

Os dados revelam um cenário ainda mais grave: cerca de 70% das vítimas não buscam atendimento após sofrer algum tipo de violência, o que indica forte subnotificação dos casos. Segundo os pesquisadores, o medo, a desconfiança nas instituições e as dificuldades de acesso aos serviços públicos estão entre os principais fatores que impedem as denúncias.

Violência diária e ciclo de vulnerabilidade

A pesquisa mostra que, diariamente, ao menos 120 casos graves são comunicados ao sistema de saúde. Em três de cada quatro ocorrências, as vítimas precisaram de atendimento médico urgente, enquanto 12% dos registros resultaram em trauma grave ou morte.

Para o coordenador do estudo, professor André Luiz Freitas Dias, a violência contra essa população não é um fenômeno isolado, mas um ciclo contínuo alimentado pela falta de moradia, trabalho, educação e redes de proteção social. Após receber atendimento, muitas vítimas retornam às mesmas condições de vulnerabilidade que favoreceram as agressões.

Negros e jovens concentram maioria das vítimas

O levantamento aponta que 78% das notificações envolvem pessoas pretas e pardas, enquanto 82% das vítimas têm entre 15 e 49 anos. Embora os homens representem a maioria dos casos, mulheres e pessoas trans apresentam maior risco de sofrer agressões com consequências fatais.

Segundo os pesquisadores, o perfil das vítimas evidencia a combinação entre racismo estrutural, pobreza e exclusão social. Fatores como deficiência, transtornos mentais e identidade de gênero também ampliam a vulnerabilidade.

Ataques físicos lideram registros

As agressões físicas representam 65% dos casos notificados, seguidas por violência psicológica (42%), negligência e abandono (18%), violência sexual (15%) e violência autoprovocada (10%).

A maior parte dos episódios ocorre em vias públicas, que concentram cerca de 70% dos registros. No entanto, o estudo identificou ocorrências também em abrigos e instituições de acolhimento, locais que deveriam oferecer proteção.

Crescimento acelerado das denúncias

Os pesquisadores identificaram aumento contínuo da violência ao longo da última década. As denúncias registradas no Disque 100 saltaram de aproximadamente 12,5 mil em 2020 para 45,8 mil em 2023. Estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro apresentaram alguns dos maiores avanços nos indicadores.

Para enfrentar o problema, o estudo recomenda ampliar políticas de moradia, trabalho e educação, fortalecer a integração entre saúde, assistência social e direitos humanos e substituir ações de criminalização da pobreza por estratégias de acolhimento e proteção social. Segundo os autores, apenas uma resposta integrada será capaz de interromper o ciclo de violência que atinge milhares de brasileiros em situação de rua.

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