O Brasil poderá atingir a marca de 1 milhão de pessoas presas em 2027 se o crescimento da população carcerária continuar no ritmo registrado nos últimos anos. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 mostram que o país encerrou 2025 com 964.668 pessoas privadas de liberdade, entre detentos em penitenciárias e delegacias.
População prisional cresce e amplia déficit de vagas
O total registrado em 2025 representa uma alta de 6% em relação ao ano anterior. Na última década, a população carcerária brasileira cresceu, em média, 3,3% ao ano. Uma projeção realizada a partir dos dados do levantamento indica que mesmo um avanço médio de aproximadamente 2% em 2026 e 2027 seria suficiente para levar o país ao patamar de 1 milhão de encarcerados.
A tendência preocupa especialistas diante da falta de estrutura do sistema prisional. Segundo David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a série histórica mostra um crescimento contínuo do número de presos, enquanto a quantidade de vagas disponíveis permanece insuficiente.
Entre 2000 e 2025, o número de pessoas privadas de liberdade aumentou 314,5%. Apenas entre 2016 e 2025, o contingente passou de 722.120 para 964.668 pessoas presas em penitenciárias e delegacias.
Sistema prisional enfrenta falta de vagas
Enquanto o número de encarcerados aumenta, o sistema prisional brasileiro tinha 679.763 vagas disponíveis em 2025. O déficit chegou a 281.213 lugares, cenário que contribui para a superlotação das unidades e dificulta a reintegração social dos presos.
O levantamento também aponta que aproximadamente uma em cada quatro pessoas presas ainda aguardava julgamento nos últimos anos. O dado evidencia um descompasso entre a capacidade de encarceramento e a velocidade de julgamento dos processos, contribuindo para agravar a superlotação.
Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a precariedade das estruturas prisionais também afeta o acesso a direitos e garantias básicas. Em um sistema superlotado, as condições necessárias para a ressocialização e a reintegração social ficam comprometidas.
Número de mulheres presas cresce 43,7% em dez anos
Embora os homens representem 94% da população carcerária, o número de mulheres privadas de liberdade também alcançou um recorde. Em 2025, eram 57.222 mulheres presas, o maior número desde o início da série histórica, em 2016.
Em uma década, a população prisional feminina cresceu 43,7%, percentual superior ao registrado entre os homens, de 36,4%. O cenário reforça a necessidade de políticas específicas para mulheres encarceradas, considerando as particularidades dessa população em um sistema estruturado majoritariamente para homens.
O perfil racial dos presos também revela desigualdades. Em 2025, 69,6% da população prisional era negra, maior percentual da série histórica. Já os presos brancos representavam 29,2%, menor índice registrado desde o início da coleta de dados. Pessoas amarelas correspondiam a 0,9% e indígenas, a 0,3%.
Mortes em presídios aumentam 241% em dez anos
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública também aponta uma forte alta no número de mortes dentro do sistema prisional. Entre 2016 e 2025, foram registradas 23.942 mortes em unidades prisionais brasileiras, considerando todas as causas. O número representa crescimento de 241% no período.
Somente em 2025, foram contabilizadas 3.318 mortes, o maior número de toda a série histórica. Os óbitos relacionados a problemas de saúde e causas naturais aparecem entre os mais recorrentes, indicando possíveis deficiências no acesso à prevenção, à atenção básica e aos serviços médicos.
Outro ponto de preocupação é o aumento das mortes classificadas como de causa desconhecida. Entre 2016 e 2025, esse tipo de registro cresceu 1.422%, o que aponta para fragilidades na investigação e na identificação das circunstâncias dos óbitos.
Presídios têm baixa acessibilidade e poucos presos em atividades de trabalho
O levantamento registrou 10.218 pessoas privadas de liberdade com algum tipo de deficiência em 2025, contra 9.799 no ano anterior. Apesar do aumento, a estrutura dos presídios ainda apresenta dificuldades para atender às normas de acessibilidade.
De acordo com os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, quase 70% dos 1.532 estabelecimentos prisionais analisados não tinham qualquer módulo ou cela adaptados. Outros 17,3% apresentavam algum nível de adequação, enquanto menos de 15% estavam totalmente adaptados.
As atividades de laborterapia, que utilizam ocupações e atividades laborais como estratégia de reabilitação e reintegração social, também alcançaram mais participantes em 2025. O número cresceu 13,2% em relação ao ano anterior, mas apenas 21,6% da população prisional estava envolvida nessas atividades.






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