O Brasil decidiu deixar os Estados Unidos de fora da reunião “Democracia Sempre”, marcada para a próxima quarta-feira (24) em Nova York, às margens da Assembleia-Geral da ONU. A exclusão evidencia o agravamento das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington, em um dos momentos mais delicados da relação bilateral nos últimos anos.
Apenas cerca de 30 países foram convidados para o encontro, entre eles Alemanha, França, México, Canadá, Noruega, Quênia, Senegal e Timor Leste, além dos organizadores Brasil, Espanha, Uruguai, Colômbia e Chile. Também é esperada a presença do secretário-geral da ONU, António Guterres, e de representantes da União Europeia.
Reunião ganha novo peso político
Um funcionário do governo brasileiro, ouvido pela Folha de S.Paulo, afirmou que a participação está restrita a nações que defendem a democracia. De acordo com ele, “não existem condições” para incluir um país que atravessa uma virada extremista e cujo governo questiona a legitimidade das eleições brasileiras.
A reunião terá como temas centrais o fortalecimento das instituições democráticas, a redução da desigualdade e o enfrentamento da desinformação. Em julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia participado de um encontro do mesmo grupo no Chile, que resultou em uma declaração conjunta em defesa do multilateralismo e da luta contra fatores que fragilizam as democracias.
Mudança de cenário em relação ao ano passado
A primeira edição da cúpula, em 2024, foi organizada por Lula e pelo premiê espanhol Pedro Sánchez. Na ocasião, os Estados Unidos, então sob governo democrata de Joe Biden, estiveram representados por um diplomata de escalão intermediário do Departamento de Estado. Sánchez propôs, naquele momento, a criação de um espaço permanente de articulação internacional contra a onda global de extremismo.
No entanto, desde a posse de Donald Trump para o segundo mandato, a política americana passou a divergir frontalmente dos compromissos debatidos nesse fórum. Nesta semana, a gestão Trump promoveu medidas punitivas contra críticos de lideranças conservadoras, em meio a episódios de violência política, como o assassinato do ativista Charlie Kirk.
Tensões acumuladas
A decisão de Lula e Sánchez de não convidar Washington também se relaciona ao perdão concedido por Trump a 1.500 condenados pelos ataques de 6 de janeiro ao Capitólio, gesto interpretado por governos estrangeiros como um enfraquecimento do compromisso com a democracia. No convite de 2024, Brasil e Espanha haviam citado os ataques de 8 de janeiro em Brasília e a invasão do Congresso americano como símbolos de uma ameaça comum às democracias.
Regulação de big techs: outro ponto de atrito
Outro ponto de atrito é a regulação das big techs. O tema estará novamente em pauta no encontro deste ano, mas Trump se opõe a qualquer iniciativa nesse sentido e ameaça retaliar comercialmente a União Europeia por impor regras de moderação de conteúdo às plataformas digitais.
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