O governo brasileiro emitiu a certidão de óbito do pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, conhecido como Tenório Jr., quase cinco décadas após seu desaparecimento na Argentina. O documento reconhece oficialmente a morte do músico, ocorrida em 1976, em meio à repressão política que antecedeu o golpe militar argentino.
A informação foi divulgada pelo g1, que apurou que a certidão foi expedida após solicitação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada ao Ministério dos Direitos Humanos. O reconhecimento formal só foi possível depois da identificação do corpo do artista, concluída em setembro deste ano, 49 anos após o desaparecimento.
Segundo a pasta, a confirmação ocorreu por meio de exames de impressões digitais realizados com apoio da Justiça argentina e da Embaixada do Brasil. No mesmo período, a família recebeu o laudo oficial que detalha a causa da morte: Tenório Jr. foi executado com cinco disparos de arma de fogo — um na cabeça, dois no braço esquerdo e outros no tronco.
Execução em meio à Operação Condor
Tenório Jr. desapareceu em março de 1976, poucos dias antes do golpe militar que instaurou uma ditadura na Argentina. O caso está inserido no contexto da Operação Condor, aliança repressiva entre regimes autoritários da América do Sul para perseguir opositores políticos além das fronteiras nacionais.
De acordo com investigações, o pianista foi confundido com um militante político e detido por agentes do serviço secreto da Marinha argentina. Ele teria sido levado à Escola de Mecânica da Armada (ESMA), um dos principais centros clandestinos de detenção e tortura do país, onde permaneceu preso por cerca de nove dias antes de ser executado.
O corpo foi encontrado em 20 de março de 1976, em um terreno baldio, e enterrado como indigente no Cemitério de Benavídez, na província de Buenos Aires. À época, o desaparecimento teve pouca repercussão no Brasil, em razão da censura imposta pela ditadura militar então em vigor.
Trajetória de um mestre do samba-jazz
Nascido no Rio de Janeiro em 4 de julho de 1940, no bairro das Laranjeiras, Tenório Jr. iniciou a formação musical ainda adolescente, estudando acordeão e violão antes de se dedicar definitivamente ao piano. O instrumento o projetou como um dos principais nomes do samba-jazz e da bossa nova.
Na década de 1970, tornou-se figura central do Beco das Garrafas, em Copacabana, reduto da música instrumental brasileira. Reconhecido pelo estilo sofisticado e domínio técnico, participou de festivais, turnês internacionais e gravações históricas que marcaram época.
Ao longo da carreira, colaborou com artistas como Vinicius de Moraes, Toquinho, Wanda Sá, Leny Andrade e Edson Machado. Era especialmente admirado como acompanhante em shows e estúdios, contribuindo de forma decisiva para a consolidação da bossa nova e do samba-jazz no Brasil.
Em março de 1976, Tenório Jr. viajou em turnê pela Argentina e pelo Uruguai ao lado de Vinicius de Moraes, Toquinho, Mutinho e Azeitona. Após uma apresentação no Teatro Gran Rex, em Buenos Aires, saiu do hotel Normandie e nunca mais foi visto com vida.






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