Brasil acertou onde os EUA falharam, diz artigo do New York Times sobre julgamento de Bolsonaro

Artigo assinado por Filipe Campante e Steven Levitsky afirma que democracia brasileira está mais saudável que a dos EUA

O Brasil foi elogiado em artigo de opinião publicado nesta sexta-feira (12) pelo jornal americano The New York Times. Assinado pelos professores Filipe Campante, da Universidade Johns Hopkins, e Steven Levitsky, de Harvard, o texto aponta que o julgamento da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF), que condenou Jair Bolsonaro e aliados, representa um avanço democrático que os Estados Unidos não conseguiram alcançar.

Segundo os autores, o Brasil “fez o que os Estados Unidos tragicamente falharam em fazer: levar à justiça um ex-presidente que atentou contra a democracia”. Para eles, a condução do caso é um exemplo de firmeza institucional que deveria servir de lição ao sistema político norte-americano.

Comparação com Trump e os EUA

No artigo, Campante e Levitsky traçam paralelos entre Bolsonaro e Donald Trump. Ambos, destacam, agiram de forma semelhante após perderem eleições, atacando a lisura do processo eleitoral e incentivando ações contra as instituições democráticas.

“Os paralelos são impressionantes. Ambos elegeram presidentes com instintos autoritários que, após perderem a reeleição, atacaram instituições democráticas”, escrevem. No entanto, diferentemente de Bolsonaro, Trump não foi punido judicialmente e voltou à Casa Branca após derrotar Kamala Harris nas eleições de 2024.

A gravidade dos ataques no Brasil

O texto ressalta que Bolsonaro copiou a estratégia de Trump, mas com agravantes. Além de questionar a urna eletrônica e sugerir fraude como única explicação para uma eventual derrota, o ex-presidente brasileiro viu seus apoiadores invadirem a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, em episódio que, segundo os professores, teve maior gravidade que a invasão do Capitólio, pela participação de aliados militares.

O artigo ainda menciona a descoberta do plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa o assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. Para os autores, esse detalhe reforça a seriedade da tentativa de ruptura democrática no Brasil.

Crítica à resposta americana

Campante e Levitsky fazem duras críticas à forma como os EUA lidaram com Trump. O Departamento de Justiça, dizem, demorou a agir, e a Suprema Corte acabou garantindo imunidade ampla a ex-presidentes, o que esvaziou o processo. “Os tão celebrados freios e contrapesos constitucionais do país falharam em responsabilizar Trump por sua tentativa de reverter a eleição de 2020”, afirmam.

Nos EUA, os processos federais contra Trump foram arquivados após sua vitória em 2024, o que, segundo os especialistas, deixou a democracia americana mais vulnerável.

Força das instituições brasileiras

Já no Brasil, afirmam os professores, a experiência de uma ditadura militar recente fez com que juízes e parlamentares reconhecessem cedo a ameaça representada por Bolsonaro. Citam a atuação de Alexandre de Moraes, que, segundo relataram, afirmou não querer repetir a postura conciliatória de Neville Chamberlain diante de Hitler, preferindo a posição de Churchill, que enfrentou e derrotou o ditador nazista.

O artigo também exalta a atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que reforçou a integridade da eleição de 2022, desmontou barreiras policiais ilegais e divulgou rapidamente os resultados, evitando brechas para contestação.

“Diferentemente dos Estados Unidos, portanto, as instituições brasileiras agiram de forma vigorosa e, até agora, eficaz, para responsabilizar um ex-presidente por tentar reverter uma eleição”, escrevem.

Conclusão dos especialistas

No encerramento, os professores afirmam que, apesar de suas fragilidades, a democracia brasileira está hoje mais saudável que a americana. “Em vez de minar o esforço do Brasil para defender sua democracia, os americanos deveriam aprender com ele”, recomendam.

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