Se a intenção evidente de Jair Bolsonaro com os atos antidemocráticos e os discursos golpístas e de índole fascista de ontem era acuar as instituições, fortalecer sua posição política e assegurar sua impunidade pelo menos até a eleição do ano que vem, o tiro saiu pela culatra.
Poucas vezes Bolsonaro foi tão abertamente golpista. Ao reforçar, em tom ainda mais agressivo e chulo, os ataques ao STF e à democracia, Bolsonaro provocou apenas revolta e indignação generalizadas em praticamente todos os setores da sociedade, exceto nos seus seguidores mais fanatizados.
O que Bolsonaro acabou demonstrando é que, muito mais do que salvar o seu mandato, pretende salvar sua pele. Os pronunciamentos do presidente, sobretudo o da Avenida Paulista, mostraram um homem com medo de ser alcançado pelo braço da Justiça e, talvez, ser acompanhado nisto por algum filho.
Bolsonaro foi claro quanto a esta aflição:
— “[Quero] dizer aos canalhas que eu nunca serei preso.
Em seguida, disse que só deixa a presidência morto.
A propósito do pesadelo que tira o sono dos Bolsonaros, Lauro Jardim, do Globo, informou há pouco que Eduardo Bolsonaro acaba de postar no Twitter:
— Sem dinheiro, sem partido político, sem grande imprensa, sem universidade, sem sindicato, mas sempre ao lado do povo. E ainda há quem diga que isto é um ato antidemocrático. “Nós não seremos presos!”
A sociedade amanheceu estarrecida nesta quarta-feira, mas ontem mesmo já reagiu estupefata às agressões de Bolsonaro à democracia.
À noite, em todo país, foi registrado o mais barulhento panelaço já promovido contra o governo.
O STF promoveu uma reunião de emergência, da qual apenas Dias Toffoli não participou.
O presidente da Câmara, Arthur Lira, anunciou o retorno imediato a Brasília.
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, de tão preocupado com a repercussão, achou prudente cancelar todas as sessões do Senado esta semana.
Não há dúvida de que Bolsonaro manteve eletrizado o seu público mais extremista, embora segundo cálculos das Polícias Militares as multidões reunidas em Brasília e em São Paulo, ainda que numerosas, tenham sido menores do que o esperado pelo governo.
Mas Bolsonaro, ao passo em que mobilizava seus seguidores leais, afastava um pouco mais simpatizantes e grupos sociais, políticos e econômicos que até aqui o toleravam, se aproveitavam das posições neoliberais do governo, mas preferiam não se submeter totalmente ao seu discurso fascista.
Bolsonaro obteve apenas uma unanimidade: tanto a mídia independente quanto a imprensa tradicional convergiram nos relatos e nas análises publicadas hoje, e ontem à noite no Jornal Nacional, da Globo: Bolsonaro cometeu novos crimes de responsabilidade e ultrapassou, de novo, todos os limites aceitáveis.
A manchete do Globo diz:
“Bolsonaro lidera atos golpistas e amplia isolamento político”.
Manchete da Folha:
“Bolsonaro ameaça STF de golpe, e pressão por impeachment cresce”.
Estadão:
“Bolsonaro prega desobediência ao STF e partidos debatem impeachment”.
Em resumo: Bolsonaro perdeu, no 7 de setembro.
No Brasil 247, Tereza Cruvinel resume bem o pânico que acomete a família Bolsonaro:
“Nos dois discursos que fez para suas falanges extremadas, nas manifestações de ontem, ao fazer do ministro Alexandre de Morais um alvo tão claro e direto, Jair Bolsonaro se entregou: toda a encenação golpista decorre de seu pavor de ser preso. Ele sabe que, como chefe do inquérito que investiga atos antidemocráticos, Morais já desvendeu todos os crimes cometidos por ele, seus filhos e aliados, de 2018 até hoje. Bolsonaro é um criminoso tocando fogo na cidade para fugir.”
Duas palavras sintetizam a conspirata golpista que desmoralizou uma data importante como o 7 de setembro: Bolsonaro perdeu. Ele sai do grande Dia da Independência menor e muito mais dependente da boa vontade, da tibieza e da covardia dos que ainda hesitam em cumprir o dever de tomar uma providência contra um governante destrambelhado e perigoso.






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