(Vídeos): Bolsonaro admite que discutiu estado de sítio com militares, mas que não havia ‘clima’;

‘Tivemos que entubar o resultado das eleições”, afirma o ex-presidente

Em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (10), o ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou ter discutido com seus auxiliares e comandantes militares a possibilidade de decretar estado de sítio após a derrota eleitoral de 2022, mas alegou que “não havia clima, oportunidade ou base minimamente sólida para fazer qualquer coisa”.

“Tivemos que entubar o resultado das eleições”, afirmou o Bolsonaro

A oitiva foi conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes e faz parte da ação penal que investiga uma suposta tentativa de golpe de Estado para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O depoimento de Bolsonaro durou cerca de três horas. Moraes então suspendeu a sessão que foi reiniciada com o depoimento do ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira.

“Da minha parte nunca se falou em golpe”, diz Bolsonaro

Durante a audiência, Bolsonaro procurou afastar a ideia de que tivesse liderado uma trama golpista. “Golpe não são meia dúzia de pessoas, dois ou três generais e meia dúzia de coronéis. Vejam 64”, disse, referindo-se ao golpe militar de 1964. “Da minha parte nunca se falou em golpe, é uma coisa abominável”, afirmou. O ex-presidente também declarou que, mesmo ao buscar alternativas jurídicas junto às Forças Armadas, o sentimento geral entre os aliados era de resignação: “Precisamos entubar”, disse sobre o resultado das eleições.

A ação no STF investiga Bolsonaro e outros sete acusados do chamado “núcleo crucial” da suposta conspiração, por crimes como golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa. O ex-presidente é acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de liderar articulações que começaram em 2021, com o enfraquecimento institucional promovido por sucessivos ataques ao sistema eleitoral.

Bolsonaro diz que não “enxugou” minuta do golpe

Ao ser questionado sobre uma minuta de decreto que previa a prisão de autoridades, incluindo o próprio Moraes, Bolsonaro negou ter acessado o documento e disse que os debates com os militares eram “bastante informais”. Essa informação foi dada na véspera, no depoimento do tenenta-coronel Mauro Cid, seu ex-ajudante de Ordens.

“Façar contra autoridades, sugerir prisão, isso aí na nossa reunião não estava previsto. O que estava previsto, e repito à Vossa Excelência, é que eu gostaria de ter acesso ao documento para discuti-lo”, declarou.

A minuta golpista foi revelada pelo tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, que firmou acordo de colaboração premiada. Em depoimento prestado nesta segunda-feira (9), Cid afirmou que Bolsonaro fez alterações no texto, retirando nomes de outras autoridades, mas mantendo a previsão de prisão de Moraes. Segundo Cid, o ex-presidente se recusava a aceitar a derrota nas urnas e buscava “indícios de fraudes” para justificar a anulação das eleições.

Bolsonaro chama de malucos protestos por novo AI-5

Bolsonaro também abordou os protestos em frente a quartéis e os atos golpistas de 8 de janeiro, dizendo que não tinha qualquer responsabilidade sobre as manifestações. “Tem sempre os malucos que ficam pedindo AI-5, intervenção militar… até porque não cabia isso. Nós não estimulamos nada de anormal”, afirmou. Ele sugeriu que a Polícia Federal deveria investigar quem convocou os atos: “Era um pessoal conservador diferente do nosso. Não procede que eu colaborei com o 8 de janeiro”.

Em outro momento, o ex-presidente foi confrontado com declarações feitas em reunião ministerial de julho de 2022, na qual insinuou corrupção entre ministros do STF. Bolsonaro se desculpou: “Não tenho indício nenhum. Era uma reunião para não ser gravada. Me desculpe, não tive intenção de acusar de desvio de conduta contra os três”, disse, referindo-se a Moraes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso.

Ao início de seu depoimento, Bolsonaro retomou a defesa do voto impresso, afirmando que sua crítica ao sistema eletrônico de votação vinha desde os tempos de deputado. “Foi a minha retórica enquanto deputado e depois como presidente também”, disse. No entanto, Moraes rebateu: “Esse inquérito não tem absolutamente nada a ver com as urnas eletrônicas. Absolutamente nada”.

Bolsonaro negou ainda ter pressionado o então ministro da Defesa para produzir um relatório sobre a lisura das eleições. Segundo ele, apenas solicitou que fosse feito um relatório “imparcial”, sem qualquer dúvida.Esta foi a primeira vez que Bolsonaro prestou depoimento presencial à Primeira Turma do STF na condição de réu no processo.

Desde a semana anterior, o ex-presidente demonstrava expectativa em relação à audiência. Segundo ele, seria uma oportunidade de “esclarecer os fatos”. Ao chegar ao tribunal, afirmou que pretendia mostrar vídeos e que a oitiva poderia durar “horas”.

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