Bolsistas do CNPq ganham direito a ter renda extra; saiba regras

Nova portaria permite que pesquisadores conciliem bolsa com outras atividades remuneradas

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) passou a permitir que bolsistas de mestrado, doutorado e pós-doutorado tenham outras fontes de renda, desde que atendam a alguns requisitos. A informação consta em portaria divulgada no Diário Oficial da União no último dia 12, que entrou em vigor nesta quinta-feira (21). A medida atende a uma antiga reivindicação de pesquisadores e alinha o órgão às práticas já adotadas por outras agências de fomento, como Capes e Fapesp.

Até então, os bolsistas eram proibidos de exercer atividades remuneradas formais, o que frequentemente colocava estudantes em situação de irregularidade. Agora, para acumular bolsa e trabalho, é necessária a autorização do orientador e da coordenação do programa de pós-graduação em que o aluno estiver matriculado.

Proibição de acúmulo de bolsas

O documento, no entanto, mantém a vedação ao acúmulo de diferentes bolsas de pesquisa pagas por agências públicas ou instituições estrangeiras.

A mudança se aproxima do modelo já praticado pela Capes desde 2023, que transferiu às universidades a autonomia para definir regras sobre o tema. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) também adota política semelhante desde 2004, permitindo atividades remuneradas adicionais de até oito horas semanais, desde que vinculadas à formação acadêmica e compatíveis com o projeto do bolsista.

Para Vinicius Soares, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), a decisão representa um avanço. “O vínculo empregatício já acontecia. Muitos pós-graduandos já trabalhavam”, afirmou à Folha de S.Paulo. Segundo ele, a portaria também abre espaço para que bolsistas acumulem bolsas de assistência estudantil, ampliando o alcance das políticas de apoio.

Perfil de pesquisador mudou

Soares destacou ainda que o perfil dos pós-graduandos mudou nas últimas décadas, tornando-se menos elitizado. “É claro que isso vai demandar também outros ajustes na universidade, como a política de assistência estudantil. Então essa portaria nasce também de uma reivindicação e de uma necessidade histórica hoje da pós-graduação”, disse. Ele ponderou, entretanto, que o texto poderia ser mais flexível, exigindo apenas a concordância do orientador, já que alguns programas restringem o acúmulo por receio de queda na produção científica.

Além da discussão sobre acúmulo de renda, o tema do valor das bolsas permanece em evidência. Após uma década sem reajustes, o governo Lula concedeu, em 2023, aumento de 40% nos benefícios. Mesmo assim, pesquisadores continuam pressionando por novos ajustes.

Bolsistas pedem reajuste no valor das bolsas

Em agosto deste ano, manifestantes pediram em Brasília um incremento adicional de 10%, o que elevaria a bolsa de mestrado de R$ 2.100 para R$ 2.310, a de doutorado de R$ 3.100 para R$ 3.410 e a de pós-doutorado de R$ 5.200 para R$ 5.720.

O debate sobre a profissionalização da carreira de pesquisador também segue em aberto. Enquanto em diversos países cientistas são contratados como trabalhadores formais, com direitos garantidos, no Brasil ainda prevalece a lógica de bolsas sem vínculo empregatício. Para parte da comunidade acadêmica, a nova portaria do CNPq representa um passo importante, mas ainda insuficiente diante dos desafios estruturais da pesquisa nacional.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading