O governo brasileiro anunciou nesta segunda-feira (25) o envio de ajuda humanitária à Bolívia, país que enfrenta uma escalada de protestos, bloqueios de estradas e desabastecimento de itens básicos há quase um mês. Segundo reportagem da BBC News, a decisão foi tomada após conversa telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente boliviano Rodrigo Paz.
A crise boliviana vem afetando diretamente o abastecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos em várias regiões do país, além de provocar dificuldades de deslocamento e impactos econômicos crescentes.
Após o contato entre os dois chefes de Estado, o Palácio do Planalto divulgou nota oficial reforçando apoio institucional ao governo boliviano.
“O presidente Lula reiterou sua solidariedade ao governo e ao povo bolivianos e ressaltou a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito”, informou a Presidência da República.
O pedido de ajuda humanitária partiu do próprio Rodrigo Paz, presidente de perfil conservador cristão e alinhado ao centro-direita, que enfrenta seu momento mais delicado desde que assumiu o comando do país há seis meses.
Além do Brasil, Estados Unidos e Argentina também anunciaram apoio diante do agravamento da situação boliviana.
País enfrenta ondas de protestos
Os protestos na Bolívia começaram no fim de abril e cresceram nas últimas semanas, reunindo setores sociais diversos, sindicatos, trabalhadores rurais e grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales.
As manifestações inicialmente tinham pautas específicas, mas ganharam dimensão política e passaram a incluir pedidos pela renúncia de Rodrigo Paz.
A cientista política Luciana Jáuregui afirmou que o cenário atual ultrapassou o padrão tradicional de mobilizações sociais no país.
“A novidade é que esta é uma mobilização multissetorial que adota uma postura abertamente desestabilizadora, que não se limita mais a pedir demandas específicas, mas sim a exigir a renúncia do presidente”, disse à BBC News Mundo.
Segundo o governo boliviano, setores ligados a Evo Morales estariam estimulando os protestos. O ex-presidente nega participação na articulação das manifestações.
Morales vive um momento delicado no cenário político e judicial boliviano. Em 11 de maio, ele foi declarado em desacato à autoridade judicial após não comparecer ao início de um julgamento por suposto tráfico de pessoas.
Enquanto isso, bloqueios em rodovias se espalharam por dezenas de pontos do país, afetando o transporte de cargas, o abastecimento urbano e a circulação de combustíveis.
“Todas as estradas estão bloqueadas. As pessoas estão muito revoltadas”, afirma o motorista Eddy.
Reforma agrária desencadeou crise
O estopim dos protestos foi o anúncio de uma reforma agrária promovida pelo governo Rodrigo Paz.
A chamada Lei 1720 permitia que pequenas propriedades rurais fossem convertidas em propriedades de médio porte mediante solicitação voluntária dos proprietários.
O governo defendia que a medida facilitaria o acesso ao crédito e estimularia investimentos no setor agrícola.
Movimentos camponeses, no entanto, interpretaram a proposta como uma abertura para concentração fundiária e fortalecimento de grandes proprietários rurais.
A Federação Camponesa Túpac Katari, apoiada pela Central Operária Boliviana (COB), liderou parte dos bloqueios que paralisaram rodovias estratégicas em mais de 30 pontos do território boliviano.
Diante da pressão crescente, Rodrigo Paz decidiu revogar a medida na semana passada.
“Ela não existe mais, essa lei acabou”, declarou o presidente em vídeo divulgado pela presidência boliviana.
Apesar do recuo, os protestos continuaram e passaram a incorporar novas reivindicações.
Inflação e salários ampliam tensão
Outro foco de insatisfação está relacionado ao aumento do custo de vida.
Professores lideraram protestos em abril exigindo reajustes salariais em meio à inflação elevada no país. Embora os índices tenham desacelerado recentemente, a Bolívia fechou 2025 com inflação de 20%, uma das mais altas dos últimos anos.
Rodrigo Paz assumiu a Presidência prometendo conter a alta dos preços e estabilizar a economia, mas enfrenta dificuldades para conter a deterioração social.
Após semanas de negociação, o governo anunciou acordo com professores, incluindo pagamento de bônus salariais. Ainda assim, as manifestações continuaram e alcançaram outros setores.
Críticas à gasolina e crise no abastecimento
O aumento do preço dos combustíveis também se transformou em combustível político para os protestos.
A decisão do governo de eliminar subsídios herdados da gestão anterior provocou forte reação popular, especialmente após surgirem denúncias sobre suposta baixa qualidade da gasolina distribuída no país.
“Eles nos venderam gasolina de má qualidade, gasolina ruim que estraga os motores dos nossos carros”, reclama Eddy.
Uma análise técnica conduzida pelo Instituto de Pesquisa Química da Universidade Superior de San Andrés (UMSA) apontou que amostras de combustíveis não atendiam aos padrões de qualidade exigidos.
“[O combustível] não deve ser aceito e deve ser devolvido ao fornecedor”, recomendaram especialistas.
A combinação entre aumento de preços, dúvidas sobre a qualidade do produto e bloqueios nas estradas agravou o desabastecimento nacional.
Na cidade de La Paz, a prefeitura anunciou recentemente a suspensão temporária da coleta de lixo devido à falta de combustível.
Sindicatos de transporte também organizaram paralisações diante das dificuldades de abastecimento.
Reforma constitucional amplia embate
Em meio à crise, Rodrigo Paz anunciou ainda a criação de uma comissão encarregada de elaborar uma reforma parcial da Constituição boliviana, atualmente em vigor desde 2009.
“Será uma comissão aberta para que todos possam participar, representando seus setores e regiões”, anunciou Paz em Cochabamba.
A atual Constituição foi aprovada durante o governo Evo Morales e transformou a Bolívia em um Estado plurinacional, reconhecendo múltiplas identidades nacionais e ampliando o papel do Estado sobre recursos naturais.
A proposta de reforma apresentada pelo atual governo pretende alterar regras ligadas aos setores de hidrocarbonetos e mineração.
Movimentos sociais alinhados a Morales acusam o governo de tentar abrir caminho para privatizações e reduzir a presença estatal em áreas estratégicas.
“Na Bolívia, eclodiu uma revolta que não é apenas uma resposta à crescente deslegitimação do governo, mas sim a um problema estrutural associado ao rompimento do pacto entre as comunidades e o Estado”, afirma Jaúregui.
O governo rejeita as acusações.
“Aqui, ninguém quer privatizar, ninguém quer aumentar tarifas, ninguém quer fazer muitas das coisas que algumas pessoas, alguns líderes e alguns interesses políticos estão tentando usar para confundir a população”, disse Paz.
Ajuda internacional cresce
Com o agravamento da crise, outros países passaram a oferecer assistência à Bolívia.
Os Estados Unidos classificaram a situação como uma “crise humanitária” e acusaram grupos de promoverem ações voltadas à desestabilização do governo eleito.
A Argentina anunciou o envio de uma aeronave militar da Força Aérea para criar pontes aéreas destinadas ao transporte de alimentos.
Já o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, descreveu o cenário boliviano como um “levante popular”.
Enquanto a pressão política cresce, o governo Rodrigo Paz tenta evitar um aprofundamento da crise institucional e conter os impactos econômicos e sociais causados pelos protestos que já paralisam parte significativa da Bolívia.





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