Uma lista de boicote contra judeus que apoiaram Lula (PT) levou referências ao Holocausto para a disputa eleitoral dentro da comunidade judaica. Com mais de 1.300 nomes, a relação circulou com o título “Relação do primeiro trem para Auschwitz”, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. O episódio provocou manifestações de repúdio de entidades representativas e cobranças pelo respeito às diferenças políticas.
De acordo com o jornal, grupos de judeus favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) compartilharam o material para estimular o boicote a apoiadores de Lula. Entre os citados estão artistas, jornalistas, professores, editores e políticos.
A referência utilizada remete ao maior complexo de campos de concentração e extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Grupo avalia ação judicial
Marcelo Semiatzh, um dos coordenadores do movimento Judias e Judeus pela Democracia, afirmou à Folha que a lista circulou entre familiares de integrantes do coletivo antes de chegar às pessoas mencionadas.
“Estamos esperando que a situação se acalme, mas, se isso não ocorrer, vamos buscar a Justiça”, declarou.
O alcance dos pedidos de boicote não foi dimensionado. Segundo a reportagem, ao menos uma pessoa incluída na relação afirmou ter perdido negócios que estavam encaminhados após a divulgação do material. Ela preferiu não se identificar publicamente, na expectativa de reverter a situação.
Entidades condenam perseguição
A Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) e a Confederação Israelita do Brasil (Conib) divulgaram notas contrárias à perseguição por posicionamento eleitoral.
Em manifestação de 28 de setembro, a Fisesp destacou que a comunidade reúne diferentes convicções e que o pertencimento religioso não determina preferência partidária.
No dia seguinte, a Conib ressaltou a tradição judaica de valorização do debate e da pluralidade de pensamento. A entidade afirmou que incentivar boicotes contra pessoas com opiniões políticas diferentes contraria esse princípio.
Após o segundo turno, a Fisesp também compartilhou um vídeo explicando por que o termo “kapos”, associado a prisioneiros encarregados da disciplina nos campos de concentração, não deve ser usado para atacar outros judeus.
Expectativa de diálogo
Antes do segundo turno, o Judias e Judeus pela Democracia promoveu um ato de apoio a Lula na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Participaram Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva, Esther Dweck e Clara Ant.
Com o encerramento da eleição, Semiatzh espera que o diálogo seja retomado. Ele aponta a existência de pautas de interesse da comunidade que exigem discussão, entre elas a definição de antissemitismo na legislação que criminaliza o racismo.
O coordenador também relatou que episódios semelhantes ocorreram na eleição presidencial de 2018. Na avaliação dele, a retomada da convivência depende de reduzir a hostilidade e preservar o espaço para divergências políticas dentro da comunidade.







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