Dizem que o progresso não costuma pedir licença antes de entrar, mas em meados do século XX, ele resolveu arrombar a porta da Rua Bernardino de Melo, em Nova Iguaçu, sem nem limpar os pés no tapete. O primeiro edifício modernista da Baixada Fluminense não nasceu de um capricho político, mas de uma audácia geométrica que desafiava o horizonte de sobrados coloniais e poeira da época. É um sobrevivente de concreto armado que assiste, do alto de seu vanguardismo, o vaivém de uma cidade tão agitada que muitas vezes esquece de olhar para cima. 

O Fórum Itabaiana representa, em concreto e vidro, a complexa relação do Brasil com seu próprio passado. Idealizado como um oásis de modernidade em meio à periferia carioca, transformou-se em um monumento à negligência, um museu ao ar livre da desídia. Seus pilotis continuam imponentes, mas carregam o peso de décadas de abandono; seus janelões de vidro, antes símbolo de transparência, hoje refletem o descaso de um poder público que não consegue conciliar funcionalidade e preservação. 

O edifício está vivo, pois ainda abriga atividades educacionais importantes, mas agoniza. A falta de uma restauração séria, a polêmica sobre a autoria de seus mosaicos que ainda intriga especialistas e o fato de ser “apenas” um marco local e não um monumento nacional fazem dele um personagem trágico na história da arquitetura. Sua existência serve como um alerta: o modernismo brasileiro, para não se tornar uma ruína do futuro, precisa urgentemente de políticas de preservação que estejam à altura de sua audácia estética. 

Talvez o maior mérito deste edifício não seja a sua perfeição técnica, mas o fato de ser exatamente o que a Baixada Fluminense precisa. Uma lembrança constante de que, entre o concreto e a história, sempre existe espaço para um pouco de arte, mesmo que a gente insista em esquecer que ela está lá, ou duvide do autor 

Bauhaus Dessau Building, projetado por Walter Gropius (Crédito Reprodução)

O que é o movimento Bauhaus? 

Staatliches Bauhaus foi criada por Walter Gropius em 1919 e moldou o design, a arte e a arquitetura mundial contemporânea. Seu nome, em alemão, significa literalmente “casa de construção”, e tinha como objetivo revolucionar o modernismo ao unir arte, artesanato e tecnologia, defendendo a funcionalidade, a simplicidade e a produção em massa acessível. O movimento defendia linhas retas, formas geométricas e o uso de pilares e grandes janelas para integrar a luz natural aos espaços internos. 

O resultado foi uma escola que deixou de existir após apenas 14 anos de funcionamento, mas cujas ideias atravessaram o século como um trem sem freios. Segundo o historiador de arquitetura Leonardo Benevolo, a Bauhaus não era apenas um estilo, mas uma filosofia de vida que buscava a produção em série com qualidade estética. Era o fim da frescura ornamental e o início da era do aço, do vidro e do concreto, criando o DNA do que hoje chamamos de Design Moderno.  

A Bauhaus foi perseguida pelos nazistas e acabou fechada em 1933, depois de ter sido transferida para Berlim em 1931. E se você é dos que ainda acha que o nazismo era de esquerda, o regime alemão considerava a escola um foco de “marxismo cultural” e “arte degenerada”. O estilo cosmopolita e vanguardista da escola era visto como uma afronta direta à ideologia nacionalista, conservadora e racista de Hitler, que preferia o neoclassicismo megalomaníaco grandioso e militarista. 

Tom Wolfe, um dos grandes nomes do new journalism, no livro From Bauhaus to Our House, aponta que em 1933, a pressão da Gestapo tornou a sobrevivência da escola impossível, forçando seu fechamento e a consequente diáspora de seus mestres para o mundo. Só que essa perseguição acabou sendo um tiro no pé dos censores. Segundo o autor ao expulsar os arquitetos, Hitler espalhou o modernismo pelo planeta. Foi graças a esse êxodo intelectual que as ideias de funcionalidade atravessaram o Atlântico e acabaram, de forma improvável, influenciando o concreto da Baixada Fluminense. 

O que era o Fórum Itabaiana? 

O antigo fórum de Nova Iguaçu foi inaugurado em 1954 por iniciativa do deputado Getúlio de Moura e do governador Ernani do Amaral Peixoto. Idealizado como um centro de justiça, o prédio foi projetado para abrigar o poder judiciário local e, com sua arquitetura moderna, simbolizar o progresso e a renovação da cidade. Ele representou o auge do poderio econômico da cidade, que na época era o grande entreposto comercial da região. O nome carrega o peso de uma era em que a cidade se via como a “Metrópole da Baixada”. 

Originalmente projetado para ser um edifício de escritórios e residências de luxo, ele ostentava o que havia de mais moderno na engenharia da época. Fontes do Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu (IHGNI) apontam que sua construção foi um marco de ruptura, mostrando que a Baixada não era apenas o “quintal” do Rio, mas um laboratório de modernidade urbana. 

O antigo fórum de Nova Iguaçu em 1954 (Crédito: Reprodução)

O mistério dos mosaicos 

Para estudantes e amantes de arquitetura, o prédio é um verdadeiro museu a céu aberto, ostentando os famosos pilotis (colunas que sustentam a estrutura permitindo a livre circulação no térreo) uma marca registrada de Le Corbusier. Mas a cereja do bolo são os dois enormes painéis de mosaico que flanqueiam a entrada, adicionando uma camada de erudição artística ao concreto bruto, sem falar em uma baita treta. 

A tradição oral e registros históricos locais, como os do pesquisador Gênesis Torres, indicam que os painéis são “atribuídos” a dois dos maiores nomes do modernismo brasileiro: Cândido Portinari e Djanira da Motta. É o tipo de coisa que faria qualquer curador ter um ataque de nervos de inveja por estarem ali, expostos à chuva e ao sol. 

E é aqui que começa a confusão. 

A palavra “atribuídos” é utilizada porque não há uma certeza documental absoluta sobre a autoria dos mosaicos. Embora a tradição local e algumas publicações creditem a obra a Portinari e Djanira, não foram localizados contratos, correspondências, fotografias de época com legenda, ou análise técnica de especialistas que comprovem definitivamente o envolvimento de cada um deles.  

No mundo da arte, o abismo entre o “estilo de” e o “assinado por” é imenso e, muitas vezes, histórias ganham contornos épicos com o passar das décadas, transformando influências em obras autorais. Isso não significa que os mosaicos não sejam de Portinari ou Djanira. Significa que a afirmação precisa de um pesquisador, de um arquivo, de uma carta ou mesmo um recibo.  

Eles estão preservados? 

Infelizmente, não. O estado de conservação dos mosaicos, independente de quem foi o autor, é crítico. Reportagens recentes indicam que o edifício como um todo está “em péssimo estado de conservação”. A falta de manutenção e a exposição às intempéries e à ação do tempo provocaram danos significativos às obras, que se encontram deteriorada e necessitando de um restauro urgente. 

A situação do prédio reflete o abandono de grande parte do patrimônio modernista brasileiro. Sem um projeto de preservação consistente por parte do poder público, as obras de arte que o integram, como esses supostos mosaicos de Portinari e Djanira, correm o risco de se perderem irremediavelmente. Um edifício concebido para representar o futuro, agora luta para sobreviver no presente. 

Mas o prédio tem alguma relevância na arquitetura brasileira ou é só um marco local? 

A resposta honesta é que pode ser as duas coisas, e o fato de que ainda não se sabe ao certo qual das duas é um problema de pesquisa, não de relevância. O Fórum Itabaiana não aparece nos grandes compêndios da arquitetura modernista brasileira, como o do  Docomomo Brasil, ONG que visa a documentar e preservar o patrimônio moderno na arquitetura e urbanismo brasileiro. Mas isso diz mais sobre os recortes geográficos dessas narrativas do que sobre o valor intrínseco do edifício. 

Como marco local, o Fórum Itabaiana é incontornável. Foi o primeiro prédio modernista da Baixada Fluminense, inseriu a linguagem arquitetônica mais avançada de seu tempo numa região que a história oficial costuma descrever apenas em termos de carência e violência. Como potencial contribuição à história nacional da arquitetura, o edifício aguarda o pesquisador que cruzará os arquivos, verificará as autorias e produzirá a tese que deveria ter sido escrita décadas atrás. A história da arquitetura modernista brasileira fora do eixo Rio–São Paulo é um território vasto e pouco cartografado, e o Fórum Itabaiana pode ser uma das pedras não levantadas nesse campo. 

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