A explosão da inteligência artificial tem elevado o consumo de energia dos data centers a níveis inéditos, mas a pressão ambiental causada por essas estruturas começa muito antes de o primeiro servidor ser ligado. Segundo informações da Bloomberg reportadas pelo jornal O Globo, a construção dessas instalações exige volumes massivos de concreto, um material intensivo em carbono cuja produção já se tornou um novo foco de atenção para empresas de tecnologia e organizações ambientais.
Com projetos bilionários em andamento do Texas a Wisconsin, a construção de data centers nos Estados Unidos entrou em ritmo acelerado. Esse movimento transformou as big techs em compradoras estratégicas de concreto de baixo carbono, em uma tentativa de reduzir a pegada ambiental associada à expansão da infraestrutura digital.
Demanda crescente por cimento
Até 2030, a ampliação dos data centers deverá exigir cerca de 2 milhões de toneladas de cimento, principal agente ligante do concreto, segundo estimativa da organização ambiental sem fins lucrativos RMI. Caso essas instalações sejam erguidas com concreto convencional, as emissões podem alcançar 1,9 milhão de toneladas de dióxido de carbono, de acordo com Chandler Randol, associado sênior da equipe de cimento e concreto da entidade. O volume equivale às emissões anuais de aproximadamente 415 mil carros movidos a gasolina.
O impacto do concreto é comparável ao do aço na construção dessas estruturas. Para Katherine Vaz Gomes, engenheira de descarbonização da consultoria climática Carbon Direct, esses materiais respondem por uma parcela significativa das emissões associadas aos data centers.
“O boom dos data centers está oferecendo uma oportunidade de avaliar, enfrentar e agir sobre os impactos de carbono do concreto”, disse Vaz Gomes. “À medida que a infraestrutura de IA explode, a construção de data centers se acelera e traz consigo a demanda por concreto.”
Acordos com startups de cimento verde
Diante desse cenário, grandes empresas de tecnologia começaram a firmar acordos de longo prazo com fabricantes de concreto de baixo carbono. No ano passado, a Microsoft anunciou um contrato com a Sublime Systems que prevê a compra de até 622,5 mil toneladas métricas de cimento ao longo de seis a nove anos.
“À medida que cresce a demanda por serviços de IA e computação em nuvem, estamos avançando na forma como projetamos, construímos e operamos nossos data centers e campi. Descarbonizar o ambiente construído é um elemento crucial nesse processo”, afirmou Melanie Nakagawa, diretora de sustentabilidade da Microsoft.
A Amazon também avançou nessa direção. Em agosto, a empresa fechou um acordo com a startup Brimstone, embora não tenha divulgado o volume de concreto envolvido. Em setembro, a Amazon se uniu à Meta Platforms e à Prologis para assinar um pacto voltado ao uso de concreto de baixo carbono, a Sustainable Concrete Buyers Alliance.
A iniciativa foi articulada pela RMI em parceria com o Center for Green Market Activation, organização sem fins lucrativos dedicada à descarbonização de setores industriais. O objetivo, segundo um representante da RMI, é “enviar sinais claros de demanda aos produtores” de que haverá compradores para materiais de baixo carbono.
Uso prático e investimentos
A Amazon já começou a empregar concreto de baixo carbono em data centers em construção nos estados da Virgínia e do Oregon. A empresa também tem investido em startups com “potencial para ajudar a acelerar o progresso da descarbonização”, segundo Chris Roe, diretor global de carbono da companhia.
Além da Brimstone, a Amazon aportou recursos na CarbonCure, outra empresa especializada em soluções de cimento de baixo carbono. A companhia também passou a aplicar padrões próprios de intensidade de carbono para todo o concreto utilizado em suas obras, considerando tanto as emissões do processo produtivo quanto as do transporte, de acordo com Roe.
Desafios da indústria verde
Apesar do avanço das parcerias, especialistas alertam que a maturação da indústria de cimento verde exigirá grandes volumes de capital. Para Christina Theodoridi, diretora de políticas industriais do Natural Resources Defense Council, a tecnologia já existe, mas ainda não alcançou escala suficiente para atender à demanda projetada.
“Ter um contrato de compra garantida com um grande data center é um sinal muito claro de demanda”, afirmou Theodoridi. “Esse é um mecanismo realmente crítico para escalar essas tecnologias.”
O financiamento privado, no entanto, pode não ser suficiente. O setor estava prestes a receber cerca de US$ 1,6 bilhão em apoio da Lei de Redução da Inflação, mas o presidente Donald Trump retirou esses recursos no ano passado.
“Isso daria um impulso real à indústria”, disse Theodoridi. “Os data centers representam uma oportunidade para a qual estaríamos muito mais bem preparados se tivéssemos continuado esses investimentos na indústria pesada.”
Os efeitos dos cortes já começaram a aparecer. Em dezembro, a Sublime anunciou a demissão de 10% de sua equipe, citando a perda de US$ 87 milhões em financiamento governamental. A empresa também informou que suspendeu a construção de sua fábrica em Holyoke, no estado de Massachusetts, prevista para entrar em operação ainda neste ano.
Emissões incorporadas e metas climáticas
Embora a operação dos data centers gere mais emissões ao longo do tempo do que sua construção, especialistas destacam que essas emissões operacionais podem ser reduzidas gradualmente com maior eficiência energética e uso de fontes limpas. Já as emissões incorporadas, associadas aos materiais de construção, só podem ser mitigadas com o uso de insumos de baixo carbono desde o início das obras.
Para que as empresas de tecnologia cumpram suas metas climáticas, esse tipo de emissão precisará ser enfrentado. “Muitas dessas grandes empresas de tecnologia têm metas climáticas bastante agressivas e relevantes”, disse Chris Magwood, gerente da equipe de carbono pré-construção e carbono incorporado da RMI. “Internamente, elas obviamente identificaram que os data centers e, em particular, o uso de concreto nesses data centers são um fator-chave.”






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