A Barra da Tijuca pode enfrentar nos próximos anos o mesmo cenário de destruição provocado por ressacas que hoje atinge o Leblon. A conclusão é de um estudo do Laboratório de Geografia Marinha da UFRJ, publicado na revista Quaternary and Environmental Geoscience da Universidade Federal do Paraná.
Segundo a pesquisa, a perda acelerada de dunas e restingas, somada ao avanço da urbanização e das construções sobre a faixa de areia, tornou a orla da Barra cada vez mais frágil diante do avanço do mar. Em situações de ressaca intensa, cada vez mais frequentes e potentes por conta das mudanças climáticas, o risco de danos é comparável ao já visto em áreas críticas da Zona Sul.
Pressão urbana e mudanças climáticas
A professora Flávia Lins de Barros, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRJ e uma das autoras do estudo, destacou Globo que o problema se agravou nas últimas décadas. “Nos últimos 15 anos, a praia da Barra da Tijuca tem sofrido uma alteração muito grande das dunas frontais e restingas, com o avanço do calçadão e dos quiosques, que vêm ampliando suas áreas, transformando-se em beach clubs. Um dos pontos mais críticos é a Praia do Pepê, cada vez mais invadida por esses empreendimentos”, disse a pesquisadora.
Ela explica que esse processo, somado à elevação do nível do mar, gera o fenômeno conhecido como beach squeeze, em que a praia é “espremida” entre a pressão da sociedade e os efeitos climáticos globais.
Barreiras naturais em risco
As dunas frontais e as restingas desempenham papel essencial na proteção da orla: funcionam como barreiras naturais que absorvem a energia das ondas, evitando que o mar avance até o calçadão e as ruas. No entanto, a degradação causada por pisoteio, construções e ocupação irregular compromete essa defesa.
No Leblon, onde o calçadão está a apenas quatro metros de altitude em relação ao nível do mar, o mar já ultrapassou a faixa de areia em várias ocasiões, causando estragos em ciclovias e pistas. Na Barra, ainda existem trechos de dunas que chegam a sete metros de altura, além de bancos de areia mais largos, o que até agora tem evitado danos maiores. Mas a pesquisa alerta que, se o processo de degradação continuar, a região poderá sofrer impactos semelhantes em cerca de um ano.
Eventos extremos já causaram estragos
O estudo lembra que ressacas recentes deram sinais claros do risco. Em julho deste ano, ondas de até quatro metros atingiram o Posto 2 da Barra, assustando moradores e frequentadores. Situações semelhantes já haviam sido registradas em 2019 e 2020 no Leblon, quando muros foram derrubados, o heliponto do Grupamento Marítimo foi destruído e trechos de ciclovias ruíram.
Necessidade de políticas públicas
O levantamento, que contou também com os pesquisadores Pedro Piacesi e Pedro Costa e teve apoio do CNPq, Capes e Faperj, percorreu 48,5 quilômetros da costa carioca ao longo de cinco anos. A ideia é que os dados sirvam de base para políticas públicas de proteção costeira.
A recomendação dos cientistas é que as soluções privilegiem ações de restauração ambiental, como recuperação de dunas e vegetação de restinga, em vez de grandes obras de engenharia, que podem gerar efeitos colaterais.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima informou que já promove projetos de adoção de módulos de restinga ao longo da orla, com responsabilidade de manutenção por parte dos adotantes. A pasta também afirmou que prepara ações de conscientização para donos de quiosques e que a Patrulha Ambiental mantém fiscalização diária na região.






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