Botafogo concentra cinco universidades, colégios internacionais e “uma das ruas mais divertidas do mundo”, a Arnaldo Quintela, segundo a revista “Time Out”. Nada disso, porém, faz do bairro um lugar seguro. Pelo contrário. De olho no vaivém de potenciais vítimas, assaltantes têm conseguido praticar crimes a qualquer hora do dia. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) apontam que o horário com maior incidência é entre 8h e meio-dia. Dentre os cinco tipos de delitos mais praticados na região, quatro são contra o patrimônio. E moradores afirmam ainda que os bandidos têm “áreas preferidas” para atacar. Uma delas é a Rua Real Grandeza, onde no domingo dois jovens foram agredidos por criminosos após terem celulares e carteiras roubados.
Os últimos dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram um grande aumento da violência na área da 10ª DP (Botafogo), que abrange ainda Urca e Humaitá. A insegurança se agravou em agosto, quando o número de roubos de celulares subiu 185,7% em relação ao mesmo mês de 2023. Nos oito primeiros meses deste ano, esses foram os crimes mais recorrentes na região:
- Estelionato: 1.013 casos
- Furto de celular: 807
- Roubo a transeunte: 420
- Roubo de celular: 250
- Furto a transeunte: 227
Os números do ISP mostram ainda que os crimes contra o patrimônio tiveram uma alta expressiva na área da 10ª DP (Botafogo), comparando agosto deste ano com o mesmo mês de 2023:
- Roubo de celular — de 21 para 60 casos – 185,7% de aumento
- Roubo a transeunte — de 35 para 85 casos – 142,9% de aumento
- Furto de celular — de 90 para 122 casos – 35,6% de aumento
- Roubo de veículo — de 4 para 11 casos
Perigo sobre duas rodas
Quem vive no bairro da Zona Sul, onde está localizado o Palácio da Cidade, tem enfrentado uma onda de assaltos. O tradutor Roberto Lopes, de 60 anos, foi atingido há um ano por uma pedra lançada por um homem nas redondezas. Agora, ele teme pela segurança da filha, de 16 anos.
— Ela fazia aula de dança e, com medo, me pediu para parar de ir. Só que o colégio também é aqui perto. Estou pensando em ir levar e buscar — conta ele, que deixou Ipanema para viver em Botafogo por conta das necessidades da mulher, que é paciente oncológica.
De acordo com a PM, quase 70% dos roubos de rua na área do 2º BPM (Botafogo) são praticados por criminosos a bordo de motocicletas. O antropólogo Paulo Storani, ex-integrante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), crê que o aumento dos crimes está relacionado à alta concentração de pessoas e ao baixo policiamento.
— Em todo lugar onde há uma grande concentração de pessoas, há essa possibilidade de aumento. É o princípio da oportunidade. Antigamente, isso acontecia no centro da cidade. Agora, é na Zona Sul do Rio. Bairros como Botafogo, embora possam ser mais bem patrulhados por conta de suas ruas acessíveis, têm mais incidência porque a moto facilita esse dinamismo nas ações, além de não ter efetivo suficiente — diz o especialista.
A rapidez da ação dos bandidos que agrediram duas vítimas na Real Grandeza impressionou. E a violência deixou marcas psicológicas. Segundo um amigo que não quis se identificar, um dos o rapazes, campista, está traumatizado e tem evitado falar sobre o assunto. Professor de dança, ele foi surpreendido após voltar de um trabalho e quando aguardava na calçada, às 2h da madrugada, a chegada da moto de aplicativo que levaria o colega para casa.
— Foi rápido, mas muito violento. A gente sempre ouve que algo assim aconteceu com alguém em ruas próximas, mas pensa que nunca será com a gente. As ruas têm ficado muito desertas — diz. — E os caras agiram de capacete. Fica mais difícil de identificar.
Roubos em outras regiões como Copacabana e Tijuca também impressionaram neste mês. Na Miguel Lemos, bairro da Zona Sul, um homem arrancou o anel da vítima com uma mordida. Na Zona Norte, o carro de Maíra do MST, candidata a vereadora, foi levado por homens armados na porta de sua casa. Nem o material de campanha foi deixado para trás.
Segundo informações obtidas pelo GLOBO, a polícia levantou que os crimes em Botafogo ocorrem mais em ruas transversais à Voluntários da Pátria e à São Clemente. Presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo, Regina Chiaradia reitera a avaliação:
— É uma rua (Real Grandeza) muito abandonada, com prédios públicos largados, fora Furnas. Está muito complicado. Mas a recordista mesmo é a Praia de Botafogo.
Ontem à noite, o comandante do 2º BPM (Botafogo), coronel Ivan Blaz, se reuniu com moradores de Botafogo no Colégio Santo Inácio, para informar quais medidas a PM está adotando. Chiaradia diz que, desesperados, moradores chegaram a cogitar contratar segurança privada.
— Eu não costumo aconselhar. Digo que é fácil contratar, mas quero ver na hora de demitir, porque o cara sabe tudo da sua vida e da rotina da rua. Por isso, enfatizo: pensem bem — frisou a presidente.
Ontem, dois após o assalto na Real Grandeza, uma viatura ficou na via em grande parte do dia. Comerciantes relatam que, antes, isso não ocorria. O coronel Ivan Blaz disse que, além de a região estar com o policiamento reforçado com viaturas, o motopatrulhamento poderá ser efetivo:
— São cerca de 20 motos rodando na área no período da tarde e da noite. Identificamos as áreas de maior incidência de crimes e deslocamos os agentes para monitorá-las — explicou.
Além do policiamento
De acordo com Silvia Ramos, cientista social e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), é ineficiente seguir apenas a estratégia de aumento de policiamento:
— Só em Botafogo, a elevação do percentual de roubo de rua de janeiro a agosto deste ano em comparação com o mesmo período em 2023 foi de 54,7%. Quando a gente olha os números, vê que existem fenômenos em curso. Não é só colocar mais polícia na rua. É preciso desarticular quadrilhas que atuam concentradamente em certas áreas. Milhares de celulares, correntes e relógios são recebidos por quadrilhas. É claro que existe paralelamente a cada um desses roubos um mercado ilegal de receptação e de revenda. É preciso agir ali — frisa.
A Polícia Civil informou, em nota, que “trabalha em diligências para identificação e responsabilização criminal dos envolvidos”. Os criminosos estariam se deslocando de moto de comunidades de outros bairros da Zona Sul e mesmo da Zona Norte para assaltar em Botafogo.
Com informações do GLOBO.





