Técnico de uma empresa de internet e telefonia, Leandro Jesuíno, de 30 anos, mora desde que nasceu num prédio de frente para a Avenida Brasil, em Guadalupe. A boa infraestrutura, especialmente de transportes, o manteve lá, inclusive depois do casamento. Mas, desde o fim do ano passado, os constantes arrastões e assaltos na sua porta o fizeram refletir e tomar a decisão de procurar um outro apartamento longe dali para viver com a esposa.
A mudança de rumo do casal coincide com um esvaziamento da maior via expressa do Rio, com 58 quilômetros de extensão, detectado pela contagem de seus moradores. O último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022, contabilizou 486.195 pessoas vivendo em construções formais e irregulares, ao longo e num raio de 500 metros às margens da rodovia. Ou 6,3% (quase 33 mil) a menos do número dos que ali estavam durante o penúltimo recenseamento, feito 12 anos antes: 519.186. Um percentual de redução superior ao da cidade do Rio, que perdeu 1,72% de sua população.
— É muito crime. Não dá para continuar morando na Brasil. Espio o movimento antes de sair de casa. O pessoal do Chapadão passou a roubar na frente do meu prédio. Chega até de fuzil. Não é só de pistola. — conta Jesuíno. — Mesmo o aluguel sendo em conta, porque o imóvel é de um primo meu, não dá para ficar aqui. Pago R$ 800 por um dois quartos.
Moradora há seis anos do 23.246 da Brasil, vizinho ao prédio de Jesuíno, a aposentada Regina Botelho, de 68 anos, confirma que o perigo ronda a região. Como o rapaz, está buscando outro lugar para morar:
— A gente não consegue sair de casa. Vivo trancada. Quero me mudar para a Região dos Lagos, bem longe daqui. Já estou procurando casa.
Moradores citam os roubos, as guerras entre facções, as operações policiais e os altos valores pedidos por donos de casas como os fatores principais pela grande quantidade de placas de “aluga-se” e “vende-se” e pela perda de população na Brasil. Especialistas, embora façam a ressalva de que é preciso aguardar dados sobre migração — ainda não divulgados pelo IBGE —, além da violência, mencionam questões como a falta de políticas públicas mais eficazes e a tendência brasileira de formação de famílias com menos filhos.
Um passeio pela via mostra que se perpetuam dezenas de prédios abandonados ou invadidos. A ocupação do edifício da Borgauto, em Ramos, se consolidou. Uma unidade do McDonald’s, em Bonsucesso, está há anos abandonada. Na pista de descida para o Centro, o que foi um depósito da antiga Casa Mattos também se deteriora. E, ainda em Bonsucesso, num imóvel do estado cedido à prefeitura, o restaurante popular que funciona no térreo, tem que conviver com invasores que ocupam os andares superiores.
— Tem infiltração que está atingindo o restaurante — lamenta uma funcionária.
Apostas para o futuro
Por outro lado, a Avenida Brasil ganhou, recentemente, alguns atrativos. Após nove anos de obras, o BRT Transbrasil foi, enfim, inaugurado. Antes de começar a operar, estações, passarelas, viadutos e pilares ao longo dos 26 quilômetros do novo corredor viraram uma galeria de arte urbana: receberam grafites do Projeto Cores da Brasil, com tons e formas inspirados nas obras do Profeta Gentileza.
Também o novo Plano Diretor, que teve seu último capítulo no mês passado com a publicação do texto final da lei, criou a chamada Zona Franca Urbanística, tornando os padrões urbanísticos para a Avenida Brasil bem mais flexíveis do que para o restante da cidade. Lá, o gabarito, por exemplo, pode ser de até 22 pavimentos, desde que não conflite com normas de proteção e paisagem, nem com restrições dos cones de aproximação de aeroportos. Outra lei, sancionada em janeiro, cria incentivos de IPTU e ITBI para construções na via.
Subsecretário executivo da Secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico, Thiago Dias espera que tais medidas estimulem a construção civil e promovam o adensamento da Brasil.
— Imagino que possa haver um movimento de interesse em construir principalmente nos trechos que ficam na AP1 (Centro, Caju, Benfica e arredores) e na AP3 (parte da Zona Norte) — diz ele, acrescentando que a presença de agentes do programa BRT Seguro nas estações do TransBrasil dão mais segurança ao local.
Por conta da violência, o motaxista e motoboy de aplicativo Rodrigo Santos evita fazer entrega e transporte para a Brasil. Morar nem pensar:
— Às vezes, nos vemos no meio de fogo cruzado, mesmo na avenida principal. E não entramos nas comunidades que beiram a avenida, porque os traficantes nos proíbem. Só as motos deles podem andar lá. Moro perto do Centro de Campo Grande, para fugir da milícia também.
Enquanto o número de moradores míngua, o Censo revela um contraste: o aumento das residências, em 12 anos. Para o arquiteto e urbanista Washington Fajardo os dois fatos são indicativos de “degradação urbana, insegurança e baixíssima produção imobiliária nova”:
— O que pode estar acontecendo é o surgimento de subdivisões de domicílios de maneira informal. Mas, com certeza, está em curso uma diminuição de densidade populacional, o que é ruim. A Avenida Brasil é uma área com infraestrutura, com economia ainda, com emprego ainda, muito próxima do Centro, contígua a linhas de trem e de metrô. Sem contar que ainda dá acesso a centros de pesquisa, universidades, hospitais. Eu chamaria de avenida “ainda” Brasil. Um dia vai deixar de ser “ainda”.
Dono de um prédio de quitinetes na favela Nova Holanda — nos arredores da Avenida Brasil — Rodrigo Oliveira encontrou uma maneira de ocupar seus imóveis: abaixar o valor do aluguel.
— Tem muita casa vazia, porque as pessoas querem cobrar caro. Pelos quitinetes, administrados pela minha ex-mulher e mãe de meu filho de 4 anos, cobramos R$ 600 — conta ele, que é dono ainda de um sobrado na Avenida Brasil, onde tem oficina embaixo e sua casa em cima: — Quero construir mais quatro andares nesse prédio para alugar.
Expansão para Oeste
Com os dados disponibilizados até agora pelo IBGE, o demógrafo José Eustáquio Diniz não consegue explicar a alta redução da população na beira da Avenida Brasil:
— Em 2010, havia 3,1 pessoas por domicílio. Caiu para 2,2. A queda é muito grande.
Já o economista Mauro Osorio, ex-presidente do Instituto Pereira Passos, da prefeitura, aponta a tendência das famílias brasileiras de terem menos filhos como uma das possíveis causas da redução de população da Avenida Brasil. Mas destaca ainda a crise política no Rio de Janeiro, a partir de 2015, que provocou atraso de salários e consequências econômicas:
— A área da Avenida Brasil teve perda de população. Mas a cidade se expandiu para Oeste. Guaratiba, Campo Grande, que ficam afastadas do Centro e têm imóveis mais em conta, tiveram aumento de população. Isso reforça a necessidade de políticas públicas para criar moradias em áreas centrais.
O pesquisador do Observatório de Metrópoles, do Ippur/UFRJ, Juciano Martins Rodrigues ressalta que não basta ter transportes para atrair moradores para a Brasil:
— A via tem infraestrutura urbanística deficitária. Faltam passeios, calçadas, praças. Há espaços mal aproveitados.
Professor da PUC, o arquiteto e urbanista Pedro de Moraes, por sua vez, entende que a Avenida Brasil tem um leque de oportunidades que não são visibilizadas pela forma como a via é olhada. Moraes lançará, no próximo dia 11, um livro sobre o tema, abordado em sua tese de doutorado na UFRJ.
— A Avenida Brasil nos permite pensar o projeto e o planejamento urbano na Região Metropolitana do Rio. Na minha tese, demonstro a relação que ela tem com a infraestrutura viária, com diferentes tecidos urbanos, bairros, ocupações, e com o que eu chamei de matriz ambiental do Rio. Tem espaços verdes, espaços livres, corpos hídricos, rios, canais, Baía de Guanabara, outros tipos de infraestrutura. Ela é muito subaproveitada. Tem espaço para crescer e para ser pensada de outra forma, para reduzir a dependência que a Zona Norte, a Zona Oeste e a Baixada Fluminense têm do Centro. Poderia ser um espaço de suporte ao desenvolvimento da metrópole para muito além do que ela é.
Com informações do Extra online.





