Uma auditoria independente revelou indícios de irregularidades em operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB), com suspeita de uso de intermediários para contornar regras em um aumento de capital realizado em 2024. O documento aponta que a estratégia teria permitido a entrada de investidores ligados ao banco Master no controle acionário da instituição.
Segundo o relatório, a operação envolveu uma triangulação para driblar o direito de preferência previsto nas regras do aumento de capital, que inicialmente restringiam a participação apenas a acionistas já existentes. As informações são da Folha de S. Paulo.
Triangulação para contornar regras
De acordo com a auditoria, o ex-presidente do BRB teria buscado pessoas previamente habilitadas para participar da operação. Entre os nomes citados estão o influenciador digital Leonardo Augusto Figueiredo Ávila e o empresário Adalberto Valadão Júnior, que teriam atuado como intermediários.
As investigações indicam que, após a identificação desses participantes, houve transferência de direitos e ações para fundos de investimento ligados ao banco Master e à gestora Reag. A operação teria sido viabilizada com a intermediação direta do ex-presidente, que também teria providenciado a documentação necessária.
“Diante desse impedimento [participação direta dos fundos no ACP], delineou-se uma arquitetura de triangulação claramente irregular, pois buscava burlar o direito de preferência pré-estabelecido”, diz o relatório, assinado pelo escritório de advocacia Machado Meyer, com suporte técnico da consultoria Kroll.
O documento também aponta que decisões sobre a operação foram centralizadas de forma incomum. Mensagens analisadas pela auditoria mostram que o ex-presidente indicava diretamente os fundos envolvidos e os volumes de ações, o que foi classificado como uma atuação “anômala para operações dessa envergadura”.
Transferência de recursos e aumento de participação
Segundo o relatório, a WNT Capital Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, administradora de um dos fundos envolvidos, teria transferido R$ 130 milhões em nome de Adalberto Valadão Júnior, enquanto outro fundo teria feito operação semelhante em nome de Leonardo Ávila.
“A WNT Capital Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. (“WNT DTVM”), administradora do Verbier, transferiu recursos na monta de R$ 130 milhões em nome do sr. Adalberto Valadão, enquanto o Borneo teria transferido o mesmo valor em nome do sr. Leonardo Augusto. Ato subsequente, ocorreu a aquisição das ações por eles.”
A auditoria aponta que, após a operação, a participação de investidores ligados ao chamado “ecossistema Master” no BRB saltou de 0,0007% no início de 2024 para 23,5% ao final de 2025.
O fundo Borneo, citado no relatório, tem como beneficiários finais os filhos de João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag, que foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano. Já o fundo Verbier — anteriormente chamado Cabreúva — é associado, segundo o relatório, a pessoas ligadas ao banco Master, o que é contestado pela defesa de um dos citados.
Empresários negam irregularidades
Os empresários mencionados negam qualquer irregularidade ou benefício financeiro na operação. A assessoria da família de Leonardo Ávila afirmou que a cessão de direitos ocorreu de forma regular e sem ganhos pessoais.
“O direito à subscrição no aumento de capital do BRB foi assegurado a todos os acionistas […]. Como não houve posterior interesse em acompanhar esse maior volume de aumento de capital foi feita a cessão do direito, gratuita e sem nenhum benefício pessoal, a outro interessado em participar processo de capitalização do BRB.”
“Sobre a transação: a cessão de direitos à subscrição foi feita em documento do Banco Bradesco, custodiante à época, e posteriormente o referido aumento de capital foi homologado pelo órgão fiscalizador, Banco Central”, informou a assessoria.
A defesa de Adalberto Valadão Júnior também negou qualquer ganho financeiro e afirmou que todas as informações foram prestadas às autoridades.
“As informações apresentadas na referida petição não correspondem à realidade dos fatos, uma vez que não houve qualquer ganho financeiro por parte de Adalberto na operação em questão. Ressalte-se, ainda, que os devidos esclarecimentos já foram prestados, há algumas semanas, diretamente à equipe responsável pela condução da auditoria interna no BRB”, diz a defesa.
Já a defesa de Maurício Quadrado contestou a associação ao fundo Verbier e afirmou que a conclusão do relatório “é totalmente equivocada, sem fundamentação técnica e não corresponde à verdade dos fatos”.
“Mauricio Quadrado não conhece o empresário Adalberto Valadão e nunca foi cotista ou dono dos fundos Verbier e Cabreúva —que, ao contrário do que diz o relatório, não são dois fundos que compartilham o mesmo CNPJ e sim um fundo único que mudou de nome a partir de 2024 conforme pode ser facilmente verificado nos registros da CVM”, afirmou.
Investigações e desdobramentos judiciais
A defesa do ex-presidente do BRB não se manifestou. O Supremo Tribunal Federal manteve, na sexta-feira (24), decisão do ministro André Mendonça que determinou a prisão do ex-dirigente. Ele é investigado por suspeita de ocultar imóveis que teriam sido recebidos como propina.
A defesa de Daniel Vorcaro, apontado como figura central no chamado “ecossistema Master”, também não comentou o caso. A gestora Reag e representantes de João Carlos Mansur não responderam aos contatos.
Diante das conclusões da auditoria, o BRB acionou a Justiça para bloquear as participações acionárias de pessoas ligadas à investigação. O pedido foi acolhido.
O banco, cujo principal acionista é o Governo do Distrito Federal, afirmou em ocasiões anteriores que tem atuado para proteger os interesses da instituição, mas não comentou o conteúdo específico da auditoria.






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