Auditoria da Cedae aponta que Master era inelegível e só recebeu R$ 200 milhões após mudança nas regras internas

Relatório interno afirma que banco não atendia aos critérios da política de investimentos da estatal, identifica alterações nas normas e aponta que negociações ficaram concentradas na diretoria financeira

Uma auditoria interna da Cedae concluiu que o Banco Master não atendia aos requisitos estabelecidos pela política de investimentos da companhia quando tiveram início as negociações para a aplicação de R$ 200 milhões na instituição financeira. Segundo documentos obtidos pela GloboNews e pelo g1, as regras internas da estatal foram alteradas posteriormente, permitindo que o banco passasse a se enquadrar nos critérios exigidos.

A investigação foi conduzida pela atual gestão da companhia após a perda dos recursos investidos no Banco Master. O relatório final foi encaminhado pelo presidente da Cedae, Rafael Rolim, à diretoria da estatal, acompanhado da recomendação para que o material seja enviado aos órgãos de controle, entre eles o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A apuração amplia as revelações feitas pelo jornalista Octávio Guedes, que informou que a auditoria apontou prejuízo superior a R$ 222 milhões e concluiu que a diretoria financeira ignorou alertas internos sobre o agravamento da situação financeira do Banco Master.

Banco não atendia às exigências

De acordo com a auditoria, a Cedae aprovou, em março de 2023, a segunda versão de sua Política de Aplicações Financeiras. O documento estabelecia critérios rígidos para instituições aptas a receber recursos da companhia, incluindo classificação mínima de risco equivalente a “A-” e avaliações emitidas por pelo menos duas agências independentes de rating.

Em 3 de julho de 2023, a Diretoria Financeira recebeu do Banco Master demonstrações financeiras e um relatório da agência Fitch. O documento atribuía ao banco a classificação “BBB-“, emitida em novembro de 2021.

Para os auditores, a análise dessa documentação demonstrava imediatamente que a instituição não preenchia os requisitos exigidos pela política então em vigor.

“O procedimento padrão de governança exigiria a desqualificação imediata da instituição”, registra o relatório.

Segundo a auditoria, em vez de interromper as tratativas, a diretoria financeira iniciou um processo de revisão das normas internas.

Mudança nas regras

A investigação aponta que, em agosto de 2023, foi aberto o processo para elaboração da terceira versão da política de investimentos da Cedae. A nova norma foi aprovada no mês seguinte.

Entre as alterações identificadas estão a flexibilização das exigências relacionadas às agências de classificação de risco e a criação de uma nova faixa de enquadramento para instituições avaliadas entre BBB+ e BBB-.

Os auditores afirmam que as mudanças passaram a permitir exatamente o perfil apresentado pelo Banco Master.

“Apenas dois meses antes, os mesmos documentos atestavam a inelegibilidade do Banco Master frente à política vigente”, destaca o relatório.

A auditoria conclui que o banco, inicialmente incompatível com as exigências da companhia, tornou-se apto a receber investimentos após a reformulação das regras.

Reuniões anteriores ao contato informado à CVM

Outro ponto relevante da investigação diz respeito ao início das negociações entre a estatal e o Banco Master.

Por meio de registros do sistema de controle de acesso da sede da Cedae, os auditores identificaram uma reunião realizada em 17 de maio de 2023 entre representantes do banco e integrantes da Diretoria Financeira e de Relação com Investidores (DFI).

Os registros apontam a entrada de Diego Maciel de Menezes Silva, identificado como superintendente comercial do Banco Master, tendo como anfitrião o então diretor financeiro Antonio Carlos dos Santos.

Segundo o relatório, o encontro ocorreu mais de um mês antes da data apresentada pela administração da companhia à CVM como sendo o primeiro contato formal entre as partes.

A versão encaminhada ao órgão regulador sustentava que o relacionamento teve início apenas em 27 de junho de 2023, quando uma representante do banco enviou um e-mail solicitando informações para cadastramento da instituição junto à estatal.

Para os investigadores, os documentos obtidos demonstram que as negociações já estavam em andamento semanas antes da data informada.

A auditoria também identificou uma viagem de Antonio Carlos dos Santos e assessores a São Paulo, em junho de 2023, para uma reunião com Maurício Quadrado, então sócio e co-CEO do Banco Master. Segundo o relatório, o encontro teve como pauta produtos financeiros e oportunidades de investimento.

Negociações restritas a um grupo reduzido

Ao reconstruir a cronologia das tratativas, a auditoria concluiu que as negociações ficaram concentradas na Diretoria Financeira e em um grupo restrito de assessores.

Os investigadores afirmam que os encontros começaram em maio de 2023, seguiram com reuniões em São Paulo nos meses seguintes e culminaram na alteração da política de investimentos aprovada em setembro daquele ano.

De acordo com o documento, outras áreas da companhia não tiveram acesso adequado às informações durante o processo.

“Toda esta negociação levada a cabo pela Diretoria Financeira e de Relação com Investidores permaneceu em sigilo”, afirma o relatório.

A auditoria acrescenta que, quando outros setores passaram a tomar conhecimento da operação, começaram a surgir alertas relacionados aos riscos reputacionais e financeiros da aplicação.

Os auditores sustentam ainda que o Conselho de Administração e o Comitê de Auditoria receberam as propostas de alteração das normas sob o argumento de diversificação da carteira e aumento da rentabilidade, sem elementos que permitissem prever que as mudanças seriam utilizadas para viabilizar uma operação específica.

Alertas ignorados e prejuízo milionário

A segunda fase da investigação analisou a condução do investimento após a aplicação dos recursos.

Segundo o relatório, a partir de 2025 diferentes setores da companhia passaram a emitir alertas sobre a situação financeira do Banco Master e recomendar medidas para reduzir a exposição da estatal.

Os auditores concluíram que a diretoria financeira demorou a reagir ao agravamento do cenário.

Quando a Cedae decidiu buscar a recuperação integral dos valores investidos, em setembro de 2025, o banco já enfrentava dificuldades de liquidez.

A investigação relata que o Banco Master passou a propor pagamentos parcelados para devolver os recursos. Em novembro daquele ano, o então diretor financeiro Antonio Carlos dos Santos se reuniu pessoalmente com o banqueiro Daniel Vorcaro em uma tentativa de obter garantias para assegurar o ressarcimento dos valores.

A iniciativa não prosperou.

Segundo a auditoria, uma das parcelas previstas para devolução dos recursos deixou de ser paga em 17 de novembro de 2025. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição financeira.

Para os investigadores, foi nesse momento que a perda financeira da companhia se consolidou.

Jantar com Cláudio Castro entra na cronologia

A auditoria também chama atenção para a proximidade entre o início das negociações e um episódio investigado pela Polícia Federal envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o então governador Cláudio Castro.

A primeira reunião identificada entre representantes do Banco Master e integrantes da diretoria financeira da Cedae ocorreu em 17 de maio de 2023, apenas seis dias após um jantar oferecido por Vorcaro a Castro em Nova York.

O encontro foi revelado em investigações da Polícia Federal que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo os documentos, o banqueiro custeou um jantar para o governador e integrantes de sua comitiva no restaurante Nusr-Et Steakhouse.

A auditoria, contudo, ressalta que não estabelece qualquer vínculo entre o jantar e as negociações que resultaram no investimento da estatal no Banco Master.

O que dizem os envolvidos

Em nota, o ex-diretor financeiro Antonio Carlos dos Santos afirmou que “repudia de forma veemente todas as falsas alegações de omissão de dados e demais informações ao Conselho de Administração na CEDAE”.

Ele também declarou:

“Cumpre destacar que o atual diretor-presidente da companhia, senhor RAFAEL ROLIM, bem como seu atual chefe de gabinete, JORGE LUIZ FERREIRA BRIARD, integravam e participavam do colegiado em todas as etapas de aprovação. Como conselheiros de órgão deliberativo, ambos examinaram, acompanharam, fiscalizaram e aprovaram formalmente os parâmetros das novas instruções da Política de Investimentos.”

Em outro trecho, acrescentou:

“Toda a minha vida profissional sempre foi pautada pela seriedade, ética, lisura e estrita responsabilidade técnica. Manifesto total tranquilidade em relação aos meus atos de gestão e confio plenamente que a verdade dos fatos virá à tona e prevalecerá perante os órgãos de controle e a sociedade”.

Já a Cedae informou que o relatório “está nas mãos do governador em exercício, desembargador Ricardo Couto”.

A companhia afirmou ainda:

“O relatório de auditoria realizado por determinação do presidente da Cedae, o procurador Rafael Rolim, e endossado por toda a Diretoria Executiva da Companhia, comprova que toda a negociação e execução dos investimentos foi conduzida pela Diretoria Financeira da Cedae, sem o compartilhamento das informações com as demais diretorias e órgãos da empresa.”

Segundo a estatal, o resultado final da auditoria foi encaminhado ao Governo do Estado juntamente com a recomendação de compartilhamento do documento com órgãos de controle estaduais, o Ministério Público e a CVM.

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