Auditor investigado liberou a entrada de 144 mil latas de energéticos proibidos pela Anvisa no Porto do Rio

Operação Mare Liberum revelou esquema bilionário na Receita, com liberação irregular de cargas no Porto do Rio, propinas e atuação de servidores afastados pela Justiça

Uma investigação conduzida pela Polícia Federal, em conjunto com a Receita Federal e o Ministério Público Federal, trouxe à tona um esquema de liberação irregular de mercadorias no Porto do Rio de Janeiro, envolvendo servidores públicos e prejuízos estimados em centenas de milhões de reais. A operação Mare Liberum, deflagrada nesta semana, identificou, entre outros casos, a entrada no país de 144 mil latas de energético que haviam sido barradas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Liberação irregular e suspeita de propina

Segundo as apurações, a carga de energéticos, distribuída em cerca de 6 mil caixas, foi autorizada em 2022 por um auditor da Receita, mesmo após a reprovação sanitária. O portal g1 apurou que o servidor teria recebido R$ 20 mil para viabilizar a liberação. A identidade do auditor não foi divulgada.

O caso é apenas um entre milhares de registros suspeitos. Ao todo, foram identificados indícios de irregularidades em aproximadamente 17 mil declarações de importação entre julho de 2021 e março de 2026, envolvendo mercadorias diversas, desde alimentos até equipamentos da indústria de óleo e gás. O valor estimado dessas operações chega a R$ 86 bilhões.

“Alimentos que estavam sujeitos ao controle de autoridades sanitárias que não poderiam entrar no Brasil sem a anuência desses órgãos e, no entanto, devido ao esquema, acabavam entrando”, disse o corregedor-geral da Receita Federal, Guilherme Bibiani na entrevista na terça-feira (28) sem detalhar o caso.

Mandados, afastamentos e alvo na alfândega

A ação foi autorizada pela Justiça Federal, por meio da 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que expediu 45 mandados de busca e apreensão. Entre os investigados estão 25 servidores da Receita, todos afastados de suas funções.

Um dos alvos é Pedro Antônio Pereira Thiago, que atuava como delegado da alfândega do porto à época dos fatos. Ele deixou o cargo recentemente, após solicitar aposentadoria em 8 de abril. Nomeado em dezembro de 2020, teve sua residência alvo de buscas. Até o momento, não houve retorno sobre tentativas de contato.

Além disso, a Justiça determinou o afastamento de 17 auditores fiscais e 8 analistas tributários, bem como o bloqueio de até R$ 102 milhões em bens dos investigados. Nove despachantes também foram impedidos de atuar no Porto do Rio.

Dinheiro escondido e bens de luxo

Durante o cumprimento dos mandados, agentes encontraram valores expressivos em espécie em residências de investigados. No total, foram apreendidos cerca de R$ 5,09 milhões em diferentes moedas.

Em um imóvel em Copacabana, policiais localizaram R$ 200 mil escondidos sob uma cama. Já em uma residência na Barra da Tijuca, foram encontrados R$ 830 mil dentro de um piano. Também foram recolhidos 54 telefones celulares, 17 veículos, 11 relógios de luxo e 17 passaportes.

Em outro endereço, pertencente a um despachante, foram encontradas 54 garrafas de vinho avaliadas em cerca de R$ 700 cada. Um analista da Receita foi preso em flagrante por posse ilegal de arma de fogo.

Esquema pode ter causado prejuízo bilionário

As investigações indicam a existência de um esquema estruturado de cobrança de propina para liberação de contêineres no porto. A estimativa é de que os cofres públicos tenham sido lesados em cerca de R$ 500 milhões.

A operação teve origem em uma denúncia encaminhada à Corregedoria da Receita Federal em fevereiro de 2022. A partir daí, o caso passou a ser apurado em conjunto com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal.

As diligências foram realizadas na capital fluminense e em municípios como Niterói, Nilópolis, Nova Friburgo, além de Vitória, no Espírito Santo. Equipes também estiveram na própria alfândega do Porto do Rio.

O que foi apreendido

Entre os itens recolhidos durante a operação estão:

— Dinheiro (Reais): R$ 1.517.750,00
— Dinheiro (Dólar): US$ 467.753,00
— Dinheiro (Euro): 50.265,00 EUR
— Dinheiro (Libras): 140,00 GBP
— Celulares: 54
— Veículos: 17
— Relógios de luxo: 11
— Passaportes: 17
— Armas: 1 revólver
— Munições: 10 (calibre .38)

A operação Mare Liberum segue em andamento, e os investigadores analisam o material apreendido para aprofundar a apuração sobre a extensão do esquema e a participação de outros envolvidos.

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