A pressão de empregadores sobre trabalhadores para influenciar o voto nas eleições de 2026 levou o Brasil a registrar uma média de 35 denúncias de assédio eleitoral por dia em outubro. Segundo dados do Ministério Público do Trabalho (MPT) reportados pelo g1, foram 663 registros entre os dias 1º e 19 deste mês, em um cenário de crescimento expressivo das reclamações às vésperas do segundo turno presidencial.
Os números reforçam a preocupação das autoridades com a utilização de relações de trabalho e vínculos de dependência econômica para interferir na liberdade de escolha dos eleitores.
O aumento já havia sido identificado em setembro, quando o MPT recebeu 553 denúncias, contra 68 no mesmo mês de 2022. A diferença representa uma alta de 713% em relação às eleições anteriores.
Ameaças de demissão e redução de salários estão entre as práticas denunciadas
O assédio eleitoral no ambiente de trabalho ocorre quando empregadores ou superiores hierárquicos tentam influenciar a escolha política dos funcionários por meio de ameaças, constrangimentos ou outras formas de pressão.
Entre os exemplos estão ameaças de demissão, rebaixamento de cargo e redução salarial caso o trabalhador não vote em determinado candidato.
Também podem configurar irregularidades a distribuição de material de campanha e a realização de atividades político-partidárias no ambiente profissional quando utilizadas para constranger empregados ou impor posicionamentos eleitorais.
Segundo o Ministério Público do Trabalho, a maior parte das vítimas identificadas está na iniciativa privada, especialmente entre profissionais de menor renda.
A dependência do salário para a manutenção da família pode tornar esses trabalhadores mais vulneráveis às pressões exercidas por empregadores.
No serviço público, o problema atinge principalmente ocupantes de cargos comissionados, que podem sofrer constrangimentos de gestores em razão da possibilidade de exoneração.
Em ambos os casos, a utilização da posição hierárquica para direcionar o voto representa uma violação da liberdade política do trabalhador.
Denúncias cresceram 713% em setembro na comparação com 2022
O avanço dos registros chama a atenção pela intensidade.
Em setembro de 2022, o MPT contabilizou 68 denúncias de assédio eleitoral. No mesmo período de 2026, o número saltou para 553.
O aumento de 713% indica uma mudança significativa no volume de reclamações encaminhadas ao órgão.
O órgão ressalta, entretanto, que o crescimento das denúncias não significa necessariamente que houve aumento proporcional das práticas de assédio. A maior conscientização dos trabalhadores sobre seus direitos e a ampliação dos canais de fiscalização também contribuem para elevar o número de registros.
Outro fator foi a ampliação da atuação do próprio Ministério Público do Trabalho, que passou a realizar plantões eleitorais nos fins de semana.
A medida busca acelerar o recebimento e a análise de denúncias, especialmente em períodos de maior movimentação das campanhas.
Inteligência artificial ajuda a identificar empresas denunciadas
O MPT também ampliou sua capacidade de fiscalização por meio de acordos de cooperação técnica com instituições ligadas ao sistema eleitoral.
Entre os órgãos envolvidos estão o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério Público Eleitoral, com os quais foram estabelecidos mecanismos para agilizar a troca de informações.
Uma das novidades das eleições de 2026 é o uso de inteligência artificial para organizar e classificar automaticamente as denúncias recebidas.
A ferramenta permite identificar, por exemplo, quando diferentes trabalhadores apresentam reclamações contra uma mesma empresa.
Também ajuda a separar os registros conforme a natureza da irregularidade, facilitando o reconhecimento de possíveis padrões de comportamento.
Com esse sistema, os procuradores conseguem mapear mais rapidamente os locais onde há concentração de denúncias e definir prioridades de investigação.
A tecnologia não substitui a apuração dos fatos, mas funciona como instrumento de apoio para acelerar o trabalho de fiscalização.
MPT já ajuizou 25 ações e obteve 24 liminares
As denúncias de assédio eleitoral podem ser apresentadas de forma anônima pelo site do Ministério Público do Trabalho.
Após o recebimento, o órgão analisa as informações, investiga os fatos relatados e pode entrar em contato com a empresa denunciada para exigir esclarecimentos ou a interrupção de práticas consideradas irregulares.
Uma das alternativas utilizadas é a assinatura de termos de ajustamento de conduta (TACs), por meio dos quais os empregadores assumem compromissos para corrigir irregularidades e impedir sua repetição.
Em 2026, o MPT já firmou 36 acordos desse tipo.
Quando não há solução consensual ou quando a gravidade dos fatos exige intervenção judicial, o órgão pode apresentar ações civis públicas.
Até o momento, foram ajuizadas 25 ações relacionadas a assédio eleitoral, das quais 24 tiveram decisões liminares concedidas.
As liminares podem determinar a suspensão imediata de condutas consideradas ilegais.
O descumprimento das ordens judiciais pode resultar na aplicação de multas, além da possibilidade de condenação ao pagamento de indenização por dano moral coletivo.
Procurador-geral alerta para risco à democracia
Para o procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo Oliveira, a interferência de empregadores e gestores públicos na escolha eleitoral de seus subordinados ultrapassa os limites de uma infração trabalhista.
Segundo ele, essas práticas podem comprometer o princípio do voto livre, especialmente quando a pressão é exercida sobre pessoas que dependem economicamente de quem tenta influenciar sua decisão.
“Se nós não frearmos essas condutas, ditadas pelo poder econômico ou pelo domínio na administração pública, isso representa um grave risco à nossa democracia porque é uma das formas de interferência na vontade popular que se manifesta na hora do voto, nas urnas.”
A preocupação do MPT é que o receio de perder o emprego ou sofrer prejuízos profissionais leve trabalhadores a se sentirem obrigados a apoiar candidatos escolhidos por seus superiores.
Com a aproximação do segundo turno, a fiscalização busca impedir que relações de dependência econômica sejam utilizadas como instrumento de pressão política.
A legislação brasileira assegura a liberdade de voto e proíbe a utilização do poder econômico ou da autoridade no ambiente profissional para constranger eleitores.
O Ministério Público do Trabalho orienta que trabalhadores submetidos a ameaças ou pressões eleitorais procurem os canais oficiais de denúncia, inclusive de forma anônima, para permitir a investigação das ocorrências.
As denúncias podem ser registradas no portal do Ministério Público do Trabalho.







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