Vorcaro encomendou vídeos para difamar Malu Gaspar e Lauro Jardim e tentou desmoralizar jornalistas que investigavam o Banco Master

Mensagens obtidas pela Polícia Federal revelam estratégia para atacar pessoalmente os colunistas de O Globo; ex-banqueiro também é investigado por ameaças e tentativas de obter informações privadas dos profissionais

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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, encomendou a produção de vídeos anônimos destinados a atacar a reputação dos jornalistas Malu Gaspar e Lauro Jardim, colunistas do jornal O Globo responsáveis por reportagens sobre os negócios da instituição financeira. A estratégia, revelada pelo jornal O Estado de S.Paulo, tinha como objetivo desacreditar os profissionais e enfraquecer a credibilidade das informações publicadas sobre o banco.

A iniciativa foi identificada em mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) durante as investigações sobre Vorcaro. As conversas mostram o ex-banqueiro discutindo com Ana Lúcia Matos, então superintendente de comunicação e marketing do Banco Master, a elaboração de roteiros e vídeos que seriam divulgados sem identificação de autoria.

De acordo com o material revelado, Vorcaro orientou que os ataques fossem direcionados aos jornalistas individualmente, evitando envolver diretamente o jornal O Globo. A intenção seria atingir a imagem pessoal dos profissionais que acompanhavam as movimentações do Banco Master.

A revelação acrescenta um novo episódio às suspeitas de intimidação de jornalistas atribuídas ao ex-banqueiro, que também é investigado por supostamente manter uma estrutura privada destinada a constranger e ameaçar pessoas consideradas adversárias.

Vorcaro orientou ataques pessoais e pediu para poupar O Globo

Nas mensagens analisadas pela Polícia Federal, Ana Lúcia Matos encaminhou ao ex-banqueiro propostas de textos e roteiros para vídeos que buscavam ridicularizar o trabalho dos dois colunistas.

Em uma das conversas, Vorcaro determinou “tirar Globo” do texto e “atacar a física”, numa referência à intenção de concentrar os ataques nas pessoas dos jornalistas, em vez de direcioná-los à empresa de comunicação.

A executiva respondeu: “Vou atrás de montar isso. Eu adoraria cutucar o Globo junto”.

Um dos roteiros elaborados por Ana Lúcia tinha como alvo Malu Gaspar, conhecida pela cobertura de temas políticos e econômicos.

O texto dizia que “a Malu Gaspar é a Mãe Diná da Faria Lima”.

Na sequência, acrescentava: “Faz matérias com toda a certeza do mundo… pena que quase nunca se confirmam. E as fontes? Só podem ser disco voador: todo mundo fala, mas ninguém nunca viu!”

Os ataques buscavam colocar em dúvida a credibilidade das informações divulgadas pela jornalista, especialmente aquelas relacionadas ao mercado financeiro.

Lauro Jardim também foi alvo de uma proposta de vídeo que insinuava uma suposta proximidade com o BTG Pactual, instituição financeira cuja sede funciona no edifício Malzoni, em São Paulo.

“Engraçado, né? O jornalista do Globo parece ter até crachá de acesso ao prédio do Malzoni, em São Paulo —praticamente um colaborador fixo do BTG”, dizia o roteiro.

A mensagem prosseguia com insinuações sobre a atuação profissional do colunista:

“O que será que ele faz tanto lá, gente?”

“Café com vista pro Faria Lima? Brainstorm de pauta? Porque, curioso mesmo, é que nas notas dele… do BTG a gente não vê nada.”

Ana Lúcia demonstrou entusiasmo com a possibilidade de repercussão do material e escreveu a Vorcaro: “O Lauro de crachá vai viralizar. Vira figurinha”.

Procurada pela reportagem do Estado de S.Paulo, a ex-executiva afirmou que não teve acesso ao material original e, por isso, não poderia confirmar sua autenticidade. Ela também declarou estar enfrentando exposição pública sem dispor dos elementos necessários para exercer plenamente seu direito de defesa.

O Globo repudia tentativa de intimidação contra jornalistas

Após a divulgação das mensagens, O Globo condenou a campanha de difamação planejada contra seus colunistas e manifestou apoio a Malu Gaspar e Lauro Jardim.

O jornal classificou os dois profissionais como referências do jornalismo brasileiro e afirmou que as tentativas de constrangimento não interferirão na cobertura de assuntos de interesse público.

“Trata-se de mais uma tentativa de intimidar a imprensa e desacreditar o jornalismo profissional, pilar fundamental da democracia. O Globo e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão apurando e noticiando, com rigor e independência, os fatos de interesse público”, afirmou o veículo.

A manifestação ocorre em meio à divulgação de diferentes episódios envolvendo tentativas de constrangimento contra profissionais que investigavam o Banco Master.

As suspeitas levantam questionamentos sobre o uso de campanhas de desinformação e ataques pessoais como instrumentos de pressão contra jornalistas responsáveis por reportagens envolvendo instituições financeiras e seus controladores.

Mensagens revelaram plano de agressão contra Lauro Jardim

A ofensiva por meio de vídeos anônimos não foi o único episódio envolvendo Vorcaro e o colunista Lauro Jardim.

Em março, vieram a público mensagens de WhatsApp nas quais o ex-banqueiro discutia a possibilidade de organizar um assalto forjado contra o jornalista, com o objetivo de intimidá-lo.

Em um dos trechos reproduzidos no processo, Vorcaro escreveu:

“Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”

Segundo a Polícia Federal, o ex-banqueiro mantinha uma estrutura privada que teria como finalidade coagir e ameaçar pessoas consideradas desafetos.

A existência dessa suposta organização é objeto das investigações, que procuram esclarecer a participação dos envolvidos e a eventual execução de ações de intimidação.

A defesa de Vorcaro negou, em manifestação divulgada no mês passado, que ele tenha praticado, determinado ou se envolvido “em qualquer ato de violência, intimidação, perseguição ou ameaça contra quem quer que seja”.

Os advogados também sustentaram que as declarações atribuídas ao ex-banqueiro “foram proferidas em momentos de indignação”.

Ex-banqueiro também tentou obter informações pessoais de Malu Gaspar

Outro episódio revelado pelas investigações envolve uma tentativa de levantar informações privadas sobre Malu Gaspar.

Em julho, tornaram-se públicas conversas entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, da agência Mithi, nas quais os dois discutiam a busca por dados pessoais da jornalista.

Em uma das mensagens, o ex-banqueiro afirmou que seria necessário “tentar pegar algo dessa mulher no pessoal”.

Miranda respondeu: “Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela”.

Posteriormente, o publicitário apresentou ao ex-banqueiro um balanço das informações que havia conseguido reunir sobre a colunista.

“Nem multa na CNH dela encontrei”, escreveu Miranda.

As mensagens foram obtidas pela Polícia Federal e passaram a integrar o conjunto de elementos examinados pelos investigadores sobre possíveis ações de intimidação e perseguição.

Thiago Miranda nega ter cometido irregularidades. Sua defesa já declarou que o publicitário não participou de condutas destinadas a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros.

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