Anotações, bocejo, café e broche marcam postura de Bolsonaro durante depoimento de Mauro Cid no STF

Com semblante fechado e reações discretas, ex-presidente chamou atenção por detalhes simbólicos

Durante o interrogatório de Mauro Cid no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta segunda-feira (9), o ex-presidente Jair Bolsonaro manteve uma postura contida e séria, mas não deixou de protagonizar pequenos gestos que chamaram a atenção no plenário. Segundo reportagem do jornal O Globo, Bolsonaro foi observado fazendo anotações, bocejando, tomando café e ostentando um broche militar durante a oitiva do ex-ajudante de ordens, agora delator.

O depoimento de Cid inaugurou a série de oitivas dos réus da ação penal que apura uma tentativa de golpe de Estado articulada por aliados do ex-presidente. Cid colaborou com as investigações por meio de um acordo de delação premiada e confirmou a participação de Bolsonaro em episódios-chave da conspiração.

Sentado ao lado de seu advogado, Celso Vilardi, Bolsonaro passou boa parte da audiência recostado na cadeira, de braços cruzados, em silêncio. Em alguns momentos, curvou-se para frente, colocou os óculos e escreveu algo em um papel. Bocejou enquanto Cid falava, mas não demonstrou reações bruscas nem se pronunciou.

O ex-presidente protagonizou uma rara cena de descontração quando o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, fez uma piada durante o depoimento. Moraes ironizou uma minuta golpista mencionada por Cid, em que Bolsonaro teria pedido que apenas seu próprio nome fosse mantido entre os alvos de prisão, retirando integrantes do STF e do Legislativo. “Os outros ganharam habeas corpus”, brincou o ministro, arrancando risos do ex-presidente e de outros presentes.

Ao longo da sessão, Bolsonaro trocou poucas palavras com Vilardi. Em um dos momentos mais significativos, eles conversaram quando Moraes questionou Cid sobre a possível ordem de Bolsonaro para monitorar o ministro. Em outro trecho, um assessor do advogado entregou anotações, que foram então compartilhadas com o ex-presidente.

Bolsonaro aceitou duas vezes o café oferecido a todos os réus, comportamento que contrastou com sua recusa anterior, em março, quando recusou até água servida em copo, preferindo consumir apenas líquidos lacrados — uma medida interpretada por aliados como precaução contra envenenamento.

Outro símbolo presente foi o broche que usava na lapela: a “Medalha do Pacificador com Palma”, concedida a Bolsonaro pelo Exército em 2018, após sua eleição à Presidência. A medalha, tradicionalmente atribuída a atos de coragem com risco de vida, foi recebida por Bolsonaro por ter salvado um colega militar de um afogamento em 1978, quando ainda era tenente. Durante o intervalo da sessão, ele explicou a condecoração a interlocutores: “Essa é a medalha do pacificador com Palma. É quando você arrisca a sua vida para salvar alguém. Tirei o Celso Negão para fora da água. Se eu fosse racista, não teria ganhado essa medalha. Isso aqui é honra”.

O ex-presidente já havia utilizado o mesmo broche em ocasiões marcantes, como a COP do Clima em 2021 e na sessão do STF que o tornou réu.

Enquanto Bolsonaro manteve a discrição, Mauro Cid reafirmou no STF os principais pontos de sua delação, implicando diretamente o ex-presidente em articulações para minar o sistema eleitoral e mobilizar as Forças Armadas com base em alegações infundadas de fraude.

A audiência foi marcada por tensão contida e observações silenciosas. Nos pequenos gestos e objetos simbólicos, Bolsonaro pareceu montar uma narrativa silenciosa de defesa e reafirmação de sua trajetória militar — mesmo diante das acusações mais graves de sua carreira política.

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