Pela primeira vez em seus 128 anos de história, a Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu uma mulher negra para ocupar uma de suas 40 cadeiras. A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do romance ‘Um Defeito de Cor’, foi escolhida na tarde desta quinta-feira (10) para ocupar a cadeira de número 33, antes pertencente ao linguista Evanildo Bechara.
Mineira, de 54 anos, Ana Maria Gonçalves foi a primeira candidata a se inscrever para a vaga, ainda em maio, pouco após a sessão de homenagem póstuma a Bechara. Sua candidatura já era vista como favorita dentro da Casa de Machado de Assis, o que refletiu no resultado: ela recebeu 30 votos, contra um dado à escritora indígena Eliane Potiguara. Outros 11 candidatos também concorreram.
Reconhecida como um dos principais nomes da literatura contemporânea brasileira, Ana Maria Gonçalves publicou ‘Um Defeito de Cor‘ em 2006. Com mais de 180 mil exemplares vendidos, o livro se tornou referência na abordagem da escravidão no Brasil e é considerado um divisor de águas na literatura negra do país. A obra, com mais de 950 páginas, narra a trajetória de Kehinde, uma mulher africana sequestrada e escravizada no Brasil, inspirada na figura histórica de Luiza Mahin, mãe do abolicionista Luiz Gama.
“O romance dela marca um encontro fértil entre as autoras negras e o gênero romance, historicamente restritivo”, afirma Fernanda Miranda, crítica literária e professora da Universidade Federal da Bahia. Segundo Miranda, a obra amplia a compreensão sobre a África como território multifacetado e revela o Brasil como espaço de constante trânsito cultural. Um Defeito de Cor já inspirou exposições de arte e desfiles de escola de samba.
Para Fernanda, a eleição de Ana Maria Gonçalves é um marco histórico. “A presença de autoras negras no sistema literário brasileiro é uma realidade. O mercado editorial já reconhece, a universidade está aprendendo, e até a crítica literária se mostra menos cega. Instituições como a ABL demoram mais, mas começam a reagir.”
Ela destaca que a conquista de Gonçalves é também um ganho para a própria Academia. “A ABL se enriquece ao incorporar uma das autoras mais prestigiadas da língua portuguesa no século 21. Isso sinaliza uma abertura para uma concepção menos restrita do que é literatura brasileira.”
A eleição reacende a memória de outra candidatura histórica: a da escritora Conceição Evaristo, em 2018. Apesar do forte apoio popular, incluindo um abaixo-assinado com milhares de assinaturas, Evaristo recebeu apenas um voto para a cadeira então deixada por Nelson Pereira dos Santos, vencida por Cacá Diegues. Hoje, a cadeira é ocupada pela jornalista Míriam Leitão, eleita em abril.
A candidatura de Conceição, vista por parte da ABL como externa à tradição da Casa, não seguiu os ritos esperados: aproximação prévia aos acadêmicos, envio de obras, e formalização do interesse. Desde então, Evaristo vem criticando abertamente a instituição. Agora, com a eleição de Gonçalves, abre-se espaço para uma eventual nova tentativa, possivelmente com apoio de membros mais recentes.
A ABL, nos últimos anos, tem promovido algumas mudanças. Em 2023, Ailton Krenak tornou-se o primeiro indígena a assumir uma cadeira. Gilberto Gil foi eleito imortal, se somando ao também negro Domício Proença Filho. A presença feminina teve leve crescimento com a entrada de nomes como Míriam Leitão e Lilia Schwarcz, mas, com Gonçalves, apenas 13 mulheres já ocuparam a ABL desde sua fundação.
Por outro lado, a instituição segue elegendo majoritariamente homens brancos, como o advogado José Roberto de Castro Neves e o escritor Edgard Telles Ribeiro, ambos escolhidos nos últimos meses.
“Essas eleições recentes têm provocado reflexões importantes sobre a falta histórica de representatividade na ABL”, analisa a professora Michele Asmar Fanini, autora do livro Fardos e Fardões e pesquisadora da Academia sob a perspectiva de gênero. Para ela, o momento oferece a oportunidade de revisar os mecanismos de exclusão que moldaram o cânone literário brasileiro.
Fernanda Miranda, autora de Silêncios Prescritos, obra sobre a invisibilização de autoras negras, adota uma postura cautelosa. “É preciso cuidado para que isso não seja apenas um gesto de auto-resgate simbólico de uma instituição desgastada. Como disse Conceição Evaristo, o importante não é ser o primeiro, mas abrir caminhos. Precisamos ver se Ana Maria Gonçalves e Krenak serão apenas exceções ou o início de uma mudança real.”





