Na noite desta sexta-feira (8), a jornalista e escritora Míriam Leitão tomou posse na cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL), em cerimônia realizada na sede da instituição, no centro do Rio de Janeiro. Décima segunda mulher a ingressar na ABL, Míriam foi acompanhada por três acadêmicas emblemáticas: Fernanda Montenegro, Rosiska Darcy e Lilia Schwarcz, que reforçaram o simbolismo da representatividade feminina.
Em seu discurso, a nova imortal enfatizou a importância da pluralidade na instituição, que tem buscado se renovar e refletir a diversidade do Brasil. “Merecer os que vieram antes de nós é sobretudo procurar cada vez mais fazer dela um centro plural do pensamento brasileiro, no qual esse país diverso, negro, branco, indígena, multilíngue, construído por homens e mulheres das mais diversas origens e de todas as regiões se veja, se reconheça”, afirmou.
Nos últimos anos, a ABL tem dado passos importantes para ampliar sua representatividade, com a posse recente do primeiro indígena, o filósofo Aílton Krenak, e da primeira mulher negra, a romancista Ana Maria Gonçalves. Para Míriam, “o nome da nova ordem é inclusão”.
Defesa da democracia e compromisso intelectual
Com uma trajetória marcada pela coragem e independência, Míriam Leitão destacou no discurso que a democracia é “o valor maior a defender”. Recordou a frase da filósofa Hannah Arendt: “Quem não se mobiliza quando a liberdade está sob ameaça, jamais se mobilizará por coisa alguma”. Para ela, “sem ela, nenhum outro avanço é possível”.
Presa e torturada aos 19 anos durante a ditadura militar, Míriam é uma voz firme na luta pela liberdade de expressão e pela democracia. Ela alertou que, mesmo em tempos sombrios, com ameaças autoritárias persistentes, “os intelectuais não são espectadores nessa luta. Escolhem um lado”.
Seu compromisso vai além da política e alcança temas sociais e ambientais. Autora de 16 livros, com prêmios como o Jabuti, Míriam tem dedicado atenção especial à proteção do meio ambiente. Em seu discurso, ressaltou que o Brasil “é o país com a maior biodiversidade do planeta”, mas que esse patrimônio natural está sob ataque constante. “Precisamos de todos os nossos biomas, e eles dependem uns dos outros”, declarou.
Reconhecimento e legado
O presidente da ABL, Merval Pereira, destacou a importância da chegada de Míriam à Academia. “Ela tem um espectro muito amplo de interesses: causa indígena, dos negros, é feminina e feminista. Estamos precisando aumentar nossa representação feminina, e Míriam vem em boa hora”, disse.
O acadêmico Antonio Carlos Secchin também ressaltou a defesa da democracia e da justiça social como marcas da nova integrante. Para ele, o compromisso com “a parcela da população marginalizada, excluída, silenciada” une os membros da ABL em um propósito ético.
O escritor Edney Silvestre, presente na cerimônia, destacou a coragem e a coerência da nova imortal. “Com ela, a Academia ganha uma mulher destemida, sem medo de expressar opiniões controversas, sempre em busca da coerência neste nosso país tão incoerente”, afirmou.






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