Ana Maria Gonçalves assume ABL e se torna primeira mulher negra imortal

Escritora de ‘Um defeito de cor’ assume cadeira com fardão portelense e quebra barreira histórica

A escritora Ana Maria Gonçalves tomou posse na cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras nesta sexta-feira (7), no Petit Trianon, sede da entidade no Centro do Rio. Eleita para substituir o acadêmico Evanildo Bechara, morto em maio, ela se tornou a primeira mulher negra a ocupar uma das cadeiras da instituição. Aos 54 anos — prestes a completar 55 —, também passa a ser a acadêmica mais jovem entre os atuais imortais.

Recepção e simbolismos na cerimônia
Ana Maria foi recebida pela antropóloga Lilia Schwarcz e recebeu o colar das mãos de Ana Maria Machado, além do diploma entregue por Gilberto Gil. As comissões de entrada e saída reuniram nomes como Rosiska Darcy de Oliveira, Fernanda Montenegro, Miriam Leitão, Domício Proença Filho, Geraldo Carneiro e Eduardo Giannetti.
O fardão utilizado pela escritora foi confeccionado por integrantes da Portela, que em 2024 levou para a Sapucaí um enredo inspirado em Um defeito de cor. A agremiação também foi lembrada em seu discurso de agradecimento. Familiares acompanharam a posse, momento em que Ana Maria destacou o apoio da família: “Sem esse núcleo de amor e apoio que nossa família sempre cultivou eu nada seria”.

Reflexões sobre exclusão e diversidade
Em seu discurso, a escritora ressaltou o histórico de exclusão de mulheres e de outros grupos na ABL. Citou casos como a rejeição da candidatura de Dinah Silveira de Queiroz e o posterior ingresso de Rachel de Queiroz.
Ana Maria afirmou que a candidatura de Conceição Evaristo em 2018 abriu caminhos e provocou reflexões internas na Academia sobre representatividade. Destacou ainda que a renovação recente tem ampliado a diversidade entre os imortais, embora ainda considere insuficiente diante da “reconstrução do imaginário” sobre a identidade brasileira. Ela também lembrou que Domício Proença Filho foi, por muito tempo, o único negro na instituição e citou a negritude de Machado de Assis, historicamente apagada.

A trajetória da nova imortal

Da publicidade à literatura premiada
Nascida em Ibiá (MG), em 1970, Ana Maria Gonçalves é sócia-fundadora da Terreiro Produções. Após 15 anos na publicidade, abandonou a profissão para se dedicar à literatura. Publicou Ao lado e à margem do que sentes por mim e o aclamado Um defeito de cor, vencedor do Prêmio Casa de Las Américas em 2007.

Presença internacional e atuação acadêmica
A autora já teve contos publicados em Portugal, Itália e Estados Unidos, país onde viveu por oito anos e deu cursos sobre questões raciais. Foi escritora residente nas universidades de Tulane, Stanford e Middlebury, além de atuar como roteirista, dramaturga e professora de escrita criativa.

O impacto de Um defeito de cor
Publicado em 2006, com 952 páginas, o romance levou cinco anos para ser concluído — dois dedicados à pesquisa, um à escrita e dois à reescrita. A obra narra a vida de Kehinde, personagem inspirada em Luiza Mahin, mãe de Luís Gama, e aborda escravidão, resistência e identidade negra no Brasil, consolidando-se como marco da literatura contemporânea.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading