Os alertas de desmatamento na Amazônia registraram, no primeiro semestre de 2026, o menor patamar desde o início da série histórica do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), iniciada em 2016. Entre janeiro e junho, foram identificados 1.295 quilômetros quadrados de vegetação nativa sob alerta de supressão no bioma, resultado que representa uma redução de 38% em relação ao mesmo período de 2025.
Os dados, divulgados nesta sexta-feira (10), também mostram queda no Cerrado, onde os alertas de desmatamento somaram 3.142 quilômetros quadrados no primeiro semestre, redução de 6% na comparação anual e o menor índice registrado desde 2021.
Juntos, os dois principais biomas do país concentraram 4.437 quilômetros quadrados de vegetação sob alerta de desmate nos primeiros seis meses do ano, área equivalente a quase três vezes o território da cidade de São Paulo.
Os alertas do sistema Deter servem para orientar ações de fiscalização ambiental. O cálculo oficial do desmatamento, por sua vez, é realizado pelo sistema Prodes, também do Inpe, divulgado anualmente e considerado mais preciso.
Queda mantém tendência de redução
Os números de junho reforçam a trajetória de diminuição do desmatamento observada nos últimos anos.
Na Amazônia, o sistema registrou 297 quilômetros quadrados sob alerta durante o mês, redução de 35% em relação a junho de 2025. No Cerrado, a área chegou a 482 quilômetros quadrados, queda de 5% na mesma comparação.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática, João Paulo Capobianco, avalia que os indicadores mostram uma redução consistente da devastação.
“Os números estão mostrando que esse processo de redução está sendo cumulativo, redução sobre redução. Então, estamos numa trajetória positiva, tanto na Amazônia como no Cerrado”, afirma à Folha.
Segundo o ministro, os resultados refletem a atuação coordenada entre União, estados e municípios no combate ao desmatamento.
“É um resultado do Estado brasileiro: são várias políticas, de vários órgãos, de diferentes instâncias federativas que estão operando”, ressalta.
Capobianco também defende que a consolidação de instrumentos permanentes fortalece as políticas ambientais e reduz a dependência de mudanças de governo.
“Estão sendo construídos instrumentos que dão uma condição de políticas mais estruturantes e que apontam para uma perspectiva de continuidade mais interessante, independente de quem estaria, digamos, na chefia ou na coordenação disso”, afirma o ambientalista.
Especialista destaca retomada das políticas ambientais
Para Tasso Azevedo, coordenador-geral da plataforma MapBiomas, a queda do desmatamento está diretamente relacionada à retomada de políticas públicas voltadas à fiscalização ambiental.
Segundo ele, fatores como o fortalecimento dos órgãos de controle, recomposição de equipes técnicas, aumento do orçamento para fiscalização e restrições financeiras aos desmatadores contribuíram para reduzir a destruição da vegetação nativa.
“A impunidade começou a diminuir. Em 2019, apenas cerca de 5% da área desmatada tinha algum tipo de ação de responsabilização ou controle. Em 2025, esse percentual já se aproximava de 65%, segundo o MapBiomas”, explica.
Apesar da melhora, Azevedo alerta que os índices ainda permanecem elevados em termos absolutos.
“O Brasil continua sendo um dos países que mais desmatam no mundo em termos absolutos”, diz.
Para o especialista, o desafio agora é consolidar uma tendência permanente de queda.
“O desafio agora é transformar essa redução em tendência estrutural. Chegar a 2030 com o desmatamento em nível residual —algo abaixo de 100 mil hectares por ano no país— já seria uma enorme vitória e muito próximo do espírito da meta de desmatamento zero.”
Sazonalidade influencia os resultados
Os técnicos do Inpe destacam que o início do ano costuma registrar índices menores de desmatamento em razão das condições climáticas.
Durante o período chuvoso, a derrubada da vegetação torna-se mais difícil e a maior cobertura de nuvens reduz a qualidade das imagens captadas pelos satélites.
Tradicionalmente, o pico do desmatamento ocorre entre maio e setembro, quando a redução das chuvas favorece a abertura de novas áreas.
Por esse motivo, o instituto adota como referência um ciclo de monitoramento de 12 meses, compreendido entre agosto de um ano e julho do ano seguinte.
Considerando essa metodologia, a Amazônia acumula, desde agosto de 2025, 2.486 quilômetros quadrados sob alerta de desmate, queda de 37% em relação ao período anterior, quando foram registrados 3.960 quilômetros quadrados.
No Cerrado, o acumulado chega a 4.686 quilômetros quadrados, redução de 8% frente ao intervalo entre agosto de 2024 e junho de 2025.
El Niño preocupa autoridades ambientais
Apesar dos resultados positivos, especialistas alertam para os riscos que o segundo semestre poderá trazer.
A previsão de atuação do fenômeno El Niño aumenta a possibilidade de uma estiagem mais intensa nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, elevando o risco de novos desmatamentos e de incêndios florestais.
O fenômeno climático reduz o volume de chuvas e favorece a propagação do fogo, geralmente provocado por queimadas, incêndios criminosos ou acidentes.
O cenário deverá representar um importante teste para a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, aprovada em 2024 após as grandes queimadas registradas naquele ano.
Estados concentram maiores áreas desmatadas
Na Amazônia, os maiores alertas de desmatamento registrados em 2026 concentram-se em Mato Grosso, com 489 quilômetros quadrados, seguido por Pará, com 391 quilômetros quadrados, e Amazonas, com 184 quilômetros quadrados.
Já no Cerrado, os estados com maior área sob alerta são Maranhão, com 839 quilômetros quadrados, Tocantins, com 825 quilômetros quadrados, e Piauí, com 368 quilômetros quadrados.
A dinâmica da destruição também varia entre os dois biomas.
Enquanto na Amazônia o desmatamento ocorre predominantemente em áreas públicas não destinadas e em unidades protegidas invadidas, no Cerrado a supressão da vegetação está concentrada principalmente em propriedades privadas.
Legislação é mais permissiva no Cerrado
Outro fator apontado por especialistas é a diferença nas regras previstas pelo Código Florestal.
No Cerrado, a legislação permite a supressão de até 80% da vegetação em imóveis rurais, percentual que pode chegar a 65% em áreas de transição com a Amazônia.
Já na Amazônia, os proprietários devem preservar, em regra, 80% da vegetação nativa, podendo desmatar até 20% da área.
Como as autorizações para supressão vegetal são concedidas pelos órgãos ambientais estaduais, especialistas destacam a importância da atuação dos governos locais para ampliar a fiscalização, especialmente diante das mudanças promovidas pela nova legislação do licenciamento ambiental.
Desmatamento é principal fonte de emissões do país
Além dos impactos sobre a biodiversidade, a redução do desmatamento é considerada estratégica para o cumprimento das metas climáticas brasileiras.
Segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg), a destruição da vegetação respondeu por 42% das emissões brasileiras de carbono em 2024, último ano com dados consolidados.
A meta de zerar o desmatamento é um dos principais compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris e é considerada essencial para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e conter o avanço das mudanças climáticas.






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